Existe uma diferença brutal entre sobreviver e viver, e é nesse abismo que Frostpunk 2: Fractured Utopias decide construir sua casa. Se o primeiro jogo era um grito desesperado de um animal acuado tentando não morrer congelado, esta sequência, e especialmente com a camada de complexidade trazida pela expansão, é algo muito mais insidioso: é sobre o momento em que paramos de temer a morte e começamos a temer uns aos outros.

Eu me sentei diante do monitor esperando gerenciar recursos, carvão e comida. O que encontrei foi um espelho desconfortável sobre a natureza humana. Trinta anos se passaram desde a Grande Tempestade. O gelo não foi embora, mas nós aprendemos a domá-lo. O medo imediato da hipotermia deu lugar a algo muito mais perigoso: a ambição política. E é fascinante, de uma maneira quase mórbida, ver como a 11 bit studios transformou um jogo de “construção de cidades” em um simulador de “construção de pesadelos sociais”. Não é mais sobre aquecer corpos; é sobre não deixar que a sociedade se estilhace em mil pedaços de egoísmo e ideologia.
A Utopia é Uma Mentira Branca
A narrativa de Fractured Utopias não é entregue em bandejas de prata com cutscenes cinematográficas a todo momento; ela é extraída, dolorosamente, das consequências das suas assinaturas. Assumir o papel do Intendente (o Steward) após a morte do Capitão é herdar um cálice envenenado. Você não é um deus; você é um mediador de conflitos impossíveis.
O que me pegou de jeito, com aquela clareza de juízo que às vezes nos falta ao analisar jogos de estratégia, foi a introdução das “Árvores de Utopia” para as facções. Não são apenas mecânicas de jogo; são visões de mundo inconciliáveis. Quando os Technocrats exigem uma cidade de pura eficiência matemática, onde a emoção é um erro de cálculo, ou quando os Icebloods clamam por um darwinismo social repugnante onde só os fortes comem, o jogo não te diz quem está certo. Ele te pergunta: “Quem você vai trair hoje?”.

Essa ambiguidade moral é deliciosa e aterrorizante. Em um dos novos contos da expansão, “Plague”, eu me vi tomando decisões sanitárias que, no papel, eram lógicas, mas na prática significavam isolar e deixar morrer uma parcela da população que eu jurei proteger. A narrativa aqui não é sobre heróis. É sobre a lenta erosão da nossa humanidade em nome do “bem maior”. E poucas coisas na ficção são tão assustadoras quanto alguém que acredita estar fazendo o mal por um motivo nobre.
A Dança das Formigas no Gelo
Ao colocar as mãos na massa, ou melhor, no gelo, a primeira sensação é de estranhamento. O jogo “afastou a câmera”. Não construímos mais casa por casa, rua por rua, sentindo o calor de cada fornalha. Agora, nós zoneamos distritos inteiros. No início, confesso, senti falta daquela intimidade, daquela conexão tátil com o sofrimento individual. Parecia frio, distante, burocrático.

Mas logo percebi que essa distância é proposital. O gameplay de Frostpunk 2 quer que você se sinta um político, não um capataz. A escala é avassaladora. Você precisa quebrar o gelo, uma mecânica chamada Frostbreaking que, sejamos honestos, pode se tornar uma tarefa repetitiva e braçal, quase como limpar o chão antes de poder dançar para expandir uma metrópole que respira fumaça de óleo e diesel.
O ritmo é ditado pela tensão. Não a tensão de “o gerador vai desligar em 5 minutos”, mas a tensão de “o Conselho vai votar minha deposição se eu não construir aquele hospital agora”. É um malabarismo constante de pratos prestes a cair. Você sente o peso de cada clique, não porque o jogo seja difícil mecanicamente, mas porque ele é emocionalmente exaustivo. Você não joga Frostpunk 2 para relaxar; você joga para testar os limites do seu próprio pragmatismo.
O Teatro dos Horrores no Conselho
Se o coração da cidade é o Gerador, o cérebro (e o tumor) é o Conselho. É aqui que Frostpunk 2 brilha com uma intensidade nuclear e, ao mesmo tempo, revela sua face mais cínica. O sistema de votação de leis é uma “patifaria escandalosa” de negociações, subornos e promessas vazias.

Eu me vi prometendo construir um centro de pesquisa para os Menders (uma facção focada na biologia e adaptação) apenas para garantir votos para uma lei de trabalho forçado que os Venturers (capitalistas impiedosos) queriam. Eu me senti sujo? Sim. A cidade sobreviveu mais um mês? Também. O jogo transforma a democracia em uma moeda de troca.
As mecânicas introduzidas em Fractured Utopias aprofundam isso. Cada facção agora tem um “caminho para a utopia” que, se completado, resolve a tensão permanentemente, mas a um custo social terrível. Seguir a linha dos Technocrats até o fim, por exemplo, transforma a cidade em uma máquina perfeita e sem alma. É mecanicamente satisfatório ver os números subindo, a produção de Heatstamps (a moeda do jogo) explodindo, mas há um vazio existencial quando você percebe que transformou seus cidadãos em meras engrenagens. O jogo não falha em te lembrar que eficiência não é sinônimo de felicidade.
A Beleza Tóxica do Óleo
Visualmente, o jogo é de uma elegância triste. A direção de arte abandonou o steampunk vitoriano cheio de fuligem de carvão por um dieselpunk visceral. O óleo é o novo sangue. Ele mancha a neve de preto, ele brilha com cores iridescentes e doentias. A interface de usuário, agora feita de vidro fosco e linhas modernas, tenta impor uma ordem visual ao caos, criando um contraste belíssimo com a sujeira lá fora.
E então temos o som. Ah, o som… Piotr Musiał, o compositor, não apenas criou uma trilha sonora; ele compôs a orquestração do fim do mundo. A música em Fractured Utopias é grandiosa, operística, pesada. Há momentos em que os metais da orquestra soam como o ranger de navios afundando. O som do vento nunca para, é uma presença constante que te desgasta psicologicamente. É um trabalho de áudio que merece ser ouvido em volume alto, para que você sinta a vibração do desespero no peito.
Mas nem tudo são flores congeladas. A expansão trouxe novos mapas e cenários visualmente distintos, mas a legibilidade às vezes sofre. Em meio a tempestades brancas, encontrar aquele pequeno ícone de expedição ou entender os limites exatos de um distrito pode ser frustrante. É bonito de morrer, mas às vezes difícil de ler.
O Peso da Realidade no Hardware
Vamos falar de desempenho com a franqueza que o assunto exige. Testei essa jornada com um Ryzen 7 5700X, uma RTX 4060 e 32 GB de RAM. É uma máquina competente, uma configuração que deveria, em tese, “nadar de braçada”. A realidade, no entanto, é um pouco mais temperamental.
O problema, meus caros, é matemático. Frostpunk 2 é um devorador de CPU. Conforme sua cidade cresce e passa dos 30 ou 40 mil habitantes, a simulação começa a pesar. O Ryzen 5700X, que é um excelente processador, começa a suar frio. Não é uma queda brusca de FPS no sentido gráfico, mas uma “lentidão” na simulação. O tempo passa mais devagar, os cliques demoram uma fração de segundo a mais para responder.
Além disso, a expansão Fractured Utopias trouxe consigo alguns bugs que beiram o imperdoável. No cenário “Plague”, encontrei momentos em que scripts de missões simplesmente não disparavam, me obrigando a voltar saves anteriores. Para um jogo que exige tanto investimento de tempo e planejamento, esses erros técnicos são como um balde de água gelada na imersão.
O Veredito do Gelo
Frostpunk 2: Fractured Utopias não é um jogo que quer ser seu amigo. Ele não quer te divertir no sentido tradicional da palavra. Ele quer te desafiar, te questionar e, ocasionalmente, te fazer sentir uma pessoa horrível. E é exatamente por isso que ele é brilhante.

A 11 bit studios teve a coragem de mudar. Eles poderiam ter feito apenas “mais do mesmo”, um Frostpunk 1.5 com gráficos melhores. Em vez disso, eles expandiram o escopo, sacrificaram a intimidade pela escala e transformaram a sobrevivência em política. Perdemos a conexão com o rosto individual do trabalhador, sim, e isso dói. Há uma frieza clínica nessa sequência que pode afastar quem amava o calor humano do primeiro jogo.
Mas, ao final, quando você olha para a sua utopia fraturada, seja ela uma distopia tecnológica ou um regime totalitário de sobrevivência, você percebe que o jogo cumpriu sua promessa. Ele te mostrou que o preço do paraíso é, muitas vezes, a própria humanidade.
Com falhas técnicas pontuais e um late game que exige paciência do hardware, Frostpunk 2 ainda assim se firma como uma experiência indispensável. É uma obra de “clareza de juízo” assustadora, uma crítica social vestida de entretenimento digital. Jogue, mas esteja preparado: o frio aqui queima.
NOTA
CONSIDERAÇÕES
Frostpunk 2: Fractured Utopias é uma obra-prima de ambição sociológica que, tragicamente, tropeça nos próprios cadarços técnicos. A 11 bit studios entregou um jogo que não tem medo de nos fazer odiar a democracia para sobreviver, transformando a gestão de recursos em um teatro moral fascinante e cruel. A expansão aprofunda essa ferida com facções que possuem visões de utopia genuinamente perturbadoras.
