Sempre houve algo de profundamente ultrajante na ideia de uma punição eterna. A doutrina clássica nos ensina a baixar a cabeça, a aceitar o veredito divino com a passividade de quem reconhece a própria pequenez perante o absoluto. Mas a alma humana, em sua essência mais teimosa, sempre guardou uma centelha de revolta contra essa submissão forçada. É exatamente nesse ponto nevrálgico da nossa psicologia coletiva que o trabalho da Thunder Lotus decide cravar suas garras. Ao entrar em sua arena cooperativa, o que se descobre não é uma jornada solitária de penitência, mas sim uma revolução em massa. Nós nos deparamos com o peso de sermos apenas mais uma engrenagem em um exército de desterrados, todos compartilhando um pacto silencioso de sobrevivência que desafia a própria autoridade do Criador.

A primeira vez que meus olhos contemplaram aquele cenário imenso e melancólico, senti um arrepio que raramente os jogos modernos conseguem provocar. Não há aqui o heroísmo espalhafatoso dos salvadores do mundo habituais, mas a beleza trágica de trinta e três almas caídas que decidiram, juntas, que o inferno não seria o seu destino final. O jogo se afasta de qualquer convenção protocolar ao nos lançar imediatamente na Selva Escura, aquele limbo de árvores retorcidas e névoa densa que Dante Alighieri tão bem descreveu em sua poesia imortal. Mas, enquanto o poeta italiano caminhava amparado pela razão de seus guias, nós caminhamos amparados pelos ombros calejados de dezenas de outros pecadores anônimos. Essa sensação de insignificância partilhada, que de repente se transforma em uma força avassaladora quando todos correm na mesma direção, estabelece o tom íntimo e reflexivo de uma experiência que se recusa a ser apenas mais um passatempo descartável.
A insolência do veredito que recusamos abraçar
A proposta narrativa do jogo realiza uma subversão deliciosa e audaciosa da clássica Divina Comédia. Na obra de Dante, a viagem pelo além é uma lição de obediência e arrependimento, um caminho pavimentado pela submissão para alcançar a graça celeste. Aqui, a premissa vira esse conceito do avesso. Nós somos as almas condenadas que dizem não. Recusamos o castigo eterno, rejeitamos a ideia de que nossos erros passados justificam o sofrimento perpétuo e, impulsionados por um desespero que se transforma em fúria, decidimos marchar contra o próprio trono de Deus. Essa mudança de perspectiva altera inteiramente a nossa experiência. Não estamos ali para implorar por perdão, mas para exigir nossa liberdade.

O envolvimento emocional se constrói por meio de figuras históricas que foram reimaginadas de maneira provocativa. Beatrice, que na literatura clássica é a personificação da pureza e da contemplação divina, ressurge aqui como uma líder revolucionária implacável, uma guerreira de olhos ardentes que nos incita a pegar em armas. Virgil, tradicionalmente o símbolo da razão masculina, se converte em uma erudita atenta, focada na ciência das armas e nos valores morais da insurreição. Essa escolha de redesenhar os mitos confere à trama uma coerência emocional impressionante. Sentimos a agonia de cada uma daquelas almas e a urgência de sua fuga. É uma história que se conta não por longas sequências de diálogos explicativos, mas pela própria urgência da sobrevivência. A progressão pelos três reinos que compõem o pós vida espiritual funciona como uma metáfora perfeita para o crescimento de nossa ousadia coletiva.
A coreografia desesperada de trinta e três estranhos
Quando nos lançamos na ação propriamente dita, a experiência prática se mostra um exercício fascinante de cooperação sem palavras. O ritmo é implacável, ditado por sessões breves e intensas que duram pouco menos de meia hora, mas que concentram uma quantidade monumental de tensionamento dramático. O fluxo do jogo funciona como uma engrenagem que nos puxa de maneira magnética. Trinta e três jogadores são soltos em um mapa hostil e precisam se espalhar, dividindo se organicamente em pequenos grupos para invadir as Câmaras de Tortura. Essas salas funcionam como arenas concentradas, onde enfrentamos hordas de demônios e carrascos colossais. A sensação de controle é primorosa, com movimentos que respondem de forma imediata aos nossos comandos, o que é crucial quando a tela se transforma em um mar de projéteis e chamas.

A decisão de desenho mais brilhante é a forma como a cooperação se impõe pela pura necessidade física de sobrevivência, eliminando a barreira de conversas por voz ou planejamentos complexos. Nós nos comunicamos através de gestos rápidos, de pings urgentes e, acima de tudo, de ações de puro altruísmo, como correr pelo cenário devastado para ressuscitar um companheiro caído sob uma chuva de flechas. No entanto, o ritmo pode se quebrar de forma dolorosa se os jogadores ao redor decidirem agir de forma dispersa. A mecânica da Ira de Deus, que incendeia o mapa inteiro assim que as câmaras são limpas, obriga todos a correrem desesperadamente para os confrontos de ascensão na área central. Ver parte do grupo perecer no caminho por simples falta de sincronia causa uma frustração genuína, uma melancolia que nos lembra de que a nossa salvação está inevavelmente amarrada ao bom senso de estranhos.
O fardo de uma força que nunca nos pertence individualmente
O cerne mecânico se apoia em uma dualidade perigosa. Por um lado, as armas que empunhamos são inspiradas nos pecados capitais e nas virtudes celestes, oferecendo uma identidade de combate muito distinta. A Espada da Justiça nos permite agir como um escudo vivo para os aliados, enquanto as Adagas da Ganância exigem uma postura agressiva de altíssimo risco e recompensa rápida. O cajado de suporte e o arco de longo alcance completam esse ecossistema, criando papéis dinâmicos que os jogadores assumem apenas pela escolha de seu equipamento. O grande trunfo aqui são as habilidades cooperativas, ataques colossais que exigem que múltiplos jogadores se posicionem na mesma área de ativação para descarregar uma fúria devastadora sobre os inimigos. Quando esses golpes especiais funcionam, a sensação de poder partilhado é indescritível, um triunfo da união sobre a adversidade.
Por outro lado, o desenho de progressão revela arestas cegas que cansam o jogador após algumas horas. Para manter a balança calibrada para trinta e três combatentes, nossa força individual é drasticamente reduzida. Sozinho, o seu personagem é um ser frágil, quase insignificante. Essa decisão de design esvazia aquela satisfação clássica de nos sentirmos poderosos por mérito próprio. O acúmulo de upgrades e a busca por relíquias nas arenas se traduzem em aumentos estatísticos discretos, que raramente alteram nossa forma de interagir com o mundo. Além disso, a evolução das armas exige um volume de repetição que por vezes beira o esgotamento, forçando nos a repetir os mesmos trajetos dezenas de vezes para desbloquear atributos básicos. É um sistema que surpreende pela criatividade de suas ferramentas, mas que castiga a persistência com uma lentidão desnecessária.
A pintura viva que respira melancolia e grandiosidade
Visualmente, o trabalho da desenvolvedora é uma declaração de amor à animação tradicional. A direção de arte entrega uma identidade visual magnífica, que parece extraída diretamente de um manuscrito medieval iluminado que de repente ganhou vida e começou a sangrar na tela. As cores são densas, as linhas são expressivas e os detalhes dos cenários transmitem uma sensação constante de decadência e agonia. A transição estética entre as três grandes regiões é marcante. O Inferno nos sufoca com tons vermelhos e terrosos de destruição pura, o Purgatório evoca uma escalada cinzenta e melancólica por encostas góticas, e o Paraíso nos deslumbra com uma luz dourada que se mostra fria, opressiva e absolutamente intimidadora. É um visual que não depende de resoluções de última geração para prender a atenção, mas sim de uma sensibilidade artística extraordinária.

A trilha sonora composta por Maxime Lacoste Lebuis opera milagres ao dar peso dramático a essa jornada pictórica. A música não se limita a acompanhar a pancadaria, ela serve como o coração espiritual da rebelião. Os coros gregorianos imponentes, misturados com instrumentos antigos e percussões pesadas, criam uma atmosfera de solenidade e desespero. Sentimos a gravidade de nossa heresia em cada nota musical. O som do metal colidindo, os gritos das criaturas monstruosas e o estalo da ira divina caindo do céu se fundem à música para criar uma sinfonia de resistência. A sonoridade atua como o principal agente de imersão, preenchendo o vazio da falta de diálogos falados durante as partidas e nos convencendo de que aquela marcha suicida possui uma dignidade inabalável.
A estabilidade do silício diante do caos apocalíptico
Analisando a experiência de forma estrita no território dos computadores, conduzi esta jornada utilizando um processador Ryzen 7 5700X emparelhado com uma placa de vídeo RTX 4060 e 32 GB de memória RAM. Esta configuração se posiciona hoje como o equilíbrio perfeito para o jogador moderno, e o comportamento do jogo nessa máquina revela muito sobre o capricho técnico de sua otimização. Em termos visuais puros, a beleza dos traços desenhados à mão brilha com uma nitidez impecável, sem apresentar qualquer serrilhado ou perda de definição nos cenários. A placa gráfica opera com enorme folga, mantendo as temperaturas baixas e entregando uma taxa de quadros extremamente alta durante a maior parte da exploração pelas áreas mais tranquilas da Selva Escura ou dos reinos iniciais.

O verdadeiro teste de fogo para este conjunto de componentes ocorre quando o jogo exige a presença simultânea dos trinta e três rebeldes e de centenas de monstros na mesma tela, todos conjurando habilidades especiais com alta densidade de efeitos visuais. A fluidez geral se mantém admirável, mas notei pequenos travamentos ocasionais, sutis quedas de rendimento que se manifestam de forma muito breve quando a Ira de Deus é acionada e uma chuva de fogo passa a castigar todo o plano de fundo do cenário. Não é nada que comprometa a precisão dos comandos, mas são marcas visíveis de que o motor gráfico precisa trabalhar no seu limite absoluto para coordenar tantos dados em tempo real. A otimização para computadores é sólida, demonstrando que a equipe de desenvolvimento soube aproveitar os recursos de processamento para entregar estabilidade mesmo sob a tormenta de uma guerra celestial.
A eternidade que insistimos em construir juntos
No fim das contas, a experiência de enfrentar o absoluto ao lado de dezenas de desconhecidos deixa marcas profundas na nossa percepção sobre o que os jogos cooperativos podem alcançar. O título não é perfeito, ele nos machuca com uma repetição por vezes árida e nos irrita com uma progressão de atributos que parece exigir mais do nosso tempo do que de fato deveria. No entanto, sua proposta é dotada de uma humanidade e de uma beleza poética tão raras que é impossível permanecer indiferente a ela. O jogo compreende que a verdadeira essência da resistência não reside na nossa força individual, mas no laço invisível que nos une àquele que está ao nosso lado na trincheira, compartilhando o mesmo destino incerto.

Marchar contra as portas do Paraíso, sabendo que cada queda sua será amparada pela mão estendida de um desconhecido que partilha da sua mesma heresia, transforma cada partida em algo muito maior do que um simples teste de reflexos. É uma lição sussurrada sobre solidariedade no meio do caos, uma reflexão dolorosa e bela sobre a nossa própria insistência em continuar lutando, mesmo quando as forças contra nós parecem infinitas. Ao fechar o jogo e contemplar o silêncio do monitor, a sensação que permanece não é a de termos apenas superado mais um desafio eletrônico, mas a de termos feito parte de uma revolta necessária. Nós fomos condenados, sim, mas descobrimos que a verdadeira punição seria aceitar o silêncio da eternidade sem antes fazer o céu tremer com a nossa voz unida.
NOTA
CONSIDERAÇÕES
33 Immortals exige uma paciência quase devota para superar sua progressão arrastada e a punição severa sobre quem busca a glória individual, mas compensa essas falhas com uma imersão artística e emocional absoluta. É uma jornada exaustiva, sem dúvida alguma, mas a sensação catártica de enfrentar a fúria do Criador junto de dezenas de estranhos faz com que cada recomeço valha a pena. O resultado é um jogo imperfeito em sua estrutura, porém inesquecível naquilo que nos faz sentir.
