Netherveil não me recebeu. Ela me examinou como quem avalia um objeto abandonado na calçada, decidiu quanto eu valia e começou a calcular quanto tempo levaria para me consumir. Celestial Return entende que uma cidade cyberpunk não deveria ser apenas um conjunto de letreiros luminosos, prédios imensos e becos molhados. Ela precisa exercer poder sobre quem vive dentro dela. Precisa fazer cada pessoa parecer pequena, substituível e permanentemente endividada. Foi essa sensação de impotência que me acompanhou desde os primeiros minutos, muito antes de eu compreender as corporações, os fenômenos sobrenaturais ou as regras que governavam os dados guardados no meu inventário.
Assumi o papel do detetive Howard, um homem quebrado demais para vestir a fantasia confortável do herói. Ele não entra nessa história para salvar o mundo. Em vários momentos, nem parece convencido de que conseguirá salvar a si mesmo. Ao seu lado está Rose, uma rosa consciente cuja presença oscila entre companhia, consciência e provocação. Essa dupla dá ao jogo uma intimidade estranha. Howard pode estar diante de cadáveres reanimados, entidades incompreensíveis ou executivos capazes de apagar vidas com uma assinatura, mas as conversas com Rose frequentemente reduzem toda aquela grandiosidade ao sofrimento particular de um homem cansado.

Celestial Return é um RPG narrativo construído sobre diálogos, investigações, escolhas e recursos limitados. A comparação com Disco Elysium surge naturalmente, sobretudo pela fragmentação psicológica do protagonista e pelas vozes interiores que interferem em suas decisões. Ainda assim, o jogo encontra personalidade ao tratar sorte como algo material. Aqui, um dado não representa somente uma probabilidade escondida. Ele ocupa espaço, é consumido e pode faltar quando mais preciso dele. Essa ideia produz alguns dos melhores momentos da experiência, mas também está no centro de suas falhas mais frustrantes.
Mortos ainda têm algo a dizer
A investigação começa com uma sequência de suicídios aparentemente ligada aos Abstracts, seres capazes de romper a fronteira entre o sobrenatural e o cotidiano. Esse ponto de partida poderia conduzir a uma história policial convencional, mas Celestial Return prefere desmontar rapidamente qualquer sensação de normalidade. Netherveil é uma cidade onde a realidade parece sofrer de exaustão. Os mortos podem continuar falando, memórias assumem formas físicas e interesses corporativos se misturam a cultos, tecnologia e forças que ninguém compreende por completo.
O mistério funciona porque não está separado da decadência social da cidade. Cada descoberta revela uma estrutura construída para esmagar pessoas consideradas descartáveis. A narrativa fala sobre autoritarismo, exploração corporativa, apagamento artístico, fé, niilismo e resistência sem fingir neutralidade. Ela tem raiva. Nem sempre expressa essa raiva com sutileza, mas eu prefiro sua indignação imperfeita a uma crítica política tão higienizada que não produz desconforto algum.
Howard também impede que os temas se tornem apenas discursos. Ele carrega culpa, ressentimento e uma necessidade quase autodestrutiva de chegar ao fim do caso. Suas diferentes vozes interiores representam Virtude, Percepção, Inteligência, Problemas de Raiva e Tolice. Elas não servem somente como atributos. Cada uma disputa o direito de interpretar o mundo para ele. Quando investi em Virtude, Howard parecia buscar alguma humanidade mesmo onde quase nada havia para salvar. Quando deixei a raiva dominar, suas respostas se tornaram mais diretas e violentas. A Tolice, por sua vez, introduziu um humor absurdo que ocasionalmente alivia a atmosfera, embora em outros momentos enfraqueça cenas que pediam silêncio.
A escrita é ambiciosa e frequentemente envolvente, sobretudo quando abandona explicações e permite que personagens revelem Netherveil por meio de suas contradições. Algumas conversas têm densidade emocional suficiente para me fazer esquecer que eu observava retratos quase estáticos. Outras se prolongam além do necessário, repetindo ideias já estabelecidas ou carregando cada frase com uma solenidade que deixa o texto artificialmente pesado. O jogo deseja que toda fala pareça importante, mas importância constante também produz cansaço.
Sua estrutura dividida em livros ajuda a organizar a progressão, embora o ritmo nem sempre acompanhe essa divisão. Há capítulos que avançam com urgência e outros que acumulam conceitos, personagens e revelações sem dar espaço para absorção. Certas reviravoltas são previsíveis, mas o impacto emocional não depende apenas da surpresa. O que permanece comigo é a maneira como a história trata sobrevivência não como vitória, mas como uma forma de resistência limitada e dolorosa.
Caminhar é escolher onde perder
Eu raramente controlo Howard de maneira convencional. A maior parte da experiência acontece por meio de telas narrativas, ilustrações, escolhas de diálogo e um mapa que permite selecionar diferentes pontos de Netherveil. Cada local pode avançar a trama, oferecer uma investigação paralela, revelar personagens ou conceder recursos. O resultado se aproxima mais de uma ficção interativa do que de um RPG baseado em movimentação livre.
Essa estrutura combina com a proposta, mas reduz minha relação física com a cidade. Netherveil é visualmente fascinante, porém eu a conheço principalmente como uma sequência de destinos. Escolho um ponto, acompanho uma cena e retorno ao mapa. Há passagens em primeira pessoa e momentos mais experimentais que quebram essa rotina, mas são exceções. Em muitos trechos, tive a sensação de visitar ilustrações de uma cidade extraordinária sem realmente percorrer suas ruas.

O ritmo depende da curiosidade. Quando explorei cada local disponível, encontrei pequenas histórias que deram textura ao mundo e recursos que se tornaram importantes depois. Contudo, o jogo nem sempre comunica claramente qual atividade fará a trama principal avançar. Ao selecionar determinada missão, posso perder outras oportunidades ainda abertas. Essa incerteza combina tematicamente com uma cidade hostil, mas prejudica a liberdade quando não consigo distinguir uma decisão narrativa de uma simples escolha de ordem.
Os controles com teclado e mouse são diretos porque quase tudo se resume a selecionar opções, administrar menus e navegar pelo mapa. O problema não está na complexidade, mas na resposta ocasionalmente irregular da interface. Celestial Return quer que eu pense sobre moralidade, risco e sobrevivência, mas às vezes me faz pensar sobre qual elemento da tela está ativo ou por que determinada opção não respondeu imediatamente.
Também senti falta de consequências mais interessantes para alguns fracassos. Um bom RPG narrativo entende que falhar pode produzir uma história diferente, não apenas uma história menor. Aqui, certos testes malsucedidos encerram conversas, removem informações ou empurram a experiência em direção a um resultado negativo sem oferecer algo dramático em troca. Quando isso acontece, o fracasso parece menos uma consequência orgânica e mais uma porta fechada.
A matemática do desespero
Os dados são a melhor ideia de Celestial Return. Eles funcionam como recurso consumível, moeda narrativa e representação concreta da sorte. Posso encontrá los durante a exploração, recebê los como recompensa ou adquirir novos exemplares. Quando um teste aparece, escolho quantos dados desejo arriscar. Investir mais aumenta a possibilidade de sucesso, mas cada tentativa reduz minhas reservas futuras.
Essa economia cria uma tensão excelente. Antes de uma decisão aparentemente simples, comecei a imaginar quais perigos ainda poderiam surgir. Eu deveria gastar três dados para obter uma informação adicional ou aceitar a incerteza e guardar recursos? Valeria a pena garantir o sucesso de uma ação compassiva, mesmo que isso me deixasse vulnerável depois? Em seus melhores momentos, o sistema faz cada escolha parecer uma pequena aposta contra a própria miséria.
O problema surge quando o jogo confunde escassez com punição. Há situações em que uma reserva mal administrada pode impedir o avanço, especialmente quando uma sequência exige novos testes sem permitir uma exploração adequada entre eles. O equilíbrio recebeu ajustes, mais dados foram distribuídos e certos pontos passaram a permitir que Howard adie uma missão para continuar procurando recursos. Ainda assim, permanece a sensação de que algumas partes foram construídas esperando uma quantidade específica de dados sem comunicar isso ao jogador.

Essa falha prejudica a filosofia do sistema. Uma escolha difícil é interessante quando compreendo o risco e aceito suas consequências. Uma escolha deixa de ser significativa quando descubro horas depois que gastei um recurso aparentemente opcional que o jogo considerava obrigatório. Por isso, salvar manualmente com frequência se torna uma medida de segurança. A possibilidade de voltar atrás reduz parte da tensão, mas é preferível a reiniciar um trecho longo por causa de uma economia mal calibrada.
Os Insights dão profundidade ao desenvolvimento de Howard. Ao investir experiência nas facetas de sua personalidade, desbloqueio respostas, modificadores e novas formas de compreender as cenas. Gosto especialmente de como cada característica possui virtudes e limitações. Inteligência não oferece sempre a solução mais humana. Virtude pode conduzir à ingenuidade. Raiva abre caminhos que a gentileza jamais alcançaria, mas também pode destruir relações. Esse atrito faz Howard parecer menos uma ficha de atributos e mais um homem tentando funcionar enquanto diferentes versões de si mesmo disputam o controle.
Entretanto, as possibilidades narrativas nem sempre acompanham a criatividade do sistema. Algumas decisões convergem para resultados semelhantes, e determinados testes aprovados não alteram os acontecimentos tanto quanto eu esperava. Celestial Return promete que minhas escolhas constroem o personagem e que o personagem constrói minhas escolhas. A primeira metade dessa promessa é mais convincente que a segunda.
Neon sobre carne ferida
A direção artística é extraordinária. Celestial Return combina quadrinhos ocidentais, mangá, colagens, ambientes tridimensionais e imagens deliberadamente agressivas sem buscar uma beleza confortável. Os personagens parecem desenhados por alguém que queria revelar suas feridas antes de suas roupas. Rostos são exagerados, corpos assumem proporções inquietantes e o neon raramente transmite alegria. Ele funciona como luz de necrotério aplicada sobre uma cidade ainda respirando.
As ilustrações carregam boa parte da narrativa. Mesmo quando a animação é limitada, enquadramentos, expressões e texturas comunicam tensão. Certas criaturas possuem um desenho tão perturbador que permanecem na memória depois que a cena termina. Esse é um jogo capaz de produzir imagens excepcionais, daquelas que resumem um universo inteiro sem precisar de explicação.
Nem todas as escolhas visuais convivem com a mesma harmonia. Algumas sequências filmadas, colagens e passagens tridimensionais parecem pertencer a obras diferentes. Entendo a intenção de representar uma realidade fragmentada, mas fragmentação artística não deveria parecer falta de unidade. Em alguns momentos, fui surpreendido pela mudança de linguagem. Em outros, fui retirado da história por ela.

A trilha sonora mistura jazz noir, música eletrônica e metal com uma confiança admirável. As batidas dão pulso a Netherveil, enquanto as composições mais melancólicas revelam a tristeza escondida sob sua violência. Há cenas que funcionam emocionalmente porque a música entende quando pressionar e quando deixar o desconforto respirar. Ainda assim, a repetição reduz o impacto de algumas faixas durante sessões mais longas.
A dublagem é parcial e irregular. Certas interpretações combinam com o caráter decadente dos personagens, enquanto outras soam improvisadas ou pouco naturais. Eu não precisava que todo o texto fosse dublado, mas a alternância entre falas interpretadas e longos blocos silenciosos cria uma experiência sonora inconsistente.
O ruído está no código
Na configuração formada por Ryzen 7 5700X, RTX 4060 e 32 GB de RAM, Celestial Return encontra uma quantidade de potência muito superior ao que sua estrutura visual exige. A navegação pelas cenas, os menus, as ilustrações e os ambientes funcionam com fluidez, sem necessidade de reduzir qualidade ou depender de recursos de reconstrução de imagem. O hardware não é o limite dessa experiência.
A otimização bruta é satisfatória, mas estabilidade envolve mais do que manter imagens fluidas. O jogo chegou com problemas relacionados a salvamentos, carregamentos, opções de diálogo que não apareciam, retratos posicionados incorretamente e bloqueios de progressão.
Mesmo na versão atual, ainda percebo uma obra em processo de acabamento. A abertura pode apresentar engasgos em determinadas condições, o diário pode se comportar de maneira estranha e algumas transições audiovisuais não possuem a suavidade esperada. São falhas que não anulam a experiência, mas entram em conflito com um jogo tão dependente de ritmo, leitura e continuidade.
Na prática, a configuração indicada oferece desempenho confortável e grande margem de sobra. Minha principal recomendação não seria alterar gráficos, mas manter salvamentos manuais em momentos importantes. Celestial Return roda de maneira leve. O que ainda precisa amadurecer não é sua relação com o hardware, e sim a confiabilidade de alguns sistemas.
Sobreviver não basta
Celestial Return me conquistou quando permitiu que suas ideias se tornassem sensações. Eu não apenas compreendi que Netherveil era opressiva. Eu senti o peso de gastar um dado que talvez fosse necessário depois. Não apenas ouvi que Howard estava fragmentado. Eu vi suas vozes interiores disputarem cada gesto de compaixão, violência ou absurdo. Poucos jogos conseguem aproximar tema e mecânica com tamanha clareza.
Também me frustrei quando essa mesma mecânica deixou de produzir tensão e começou a punir decisões tomadas sem informação suficiente. A escassez deveria revelar quem Howard se torna sob pressão, não obrigar o jogador a reconstruir horas de progresso. Os problemas de equilíbrio, a exploração excessivamente abstrata e as irregularidades técnicas impedem que a experiência alcance toda a força sugerida por sua arte e escrita.

Ainda assim, não terminei Celestial Return pensando apenas em suas falhas. Terminei pensando nas pessoas que Netherveil tentou apagar, nos personagens que continuaram criando, amando e resistindo mesmo quando o mundo já havia decidido que suas vidas não tinham valor. O jogo compreende que permanecer vivo não significa necessariamente vencer. Às vezes, significa apenas negar ao sistema o direito de escrever a última frase.
Essa compreensão dá à obra uma humanidade rara. Celestial Return ainda carrega arestas, desequilíbrios e cicatrizes de um lançamento que precisava de mais acabamento, mas sua voz é verdadeira. Quando sua mecânica, sua arte e sua indignação falam juntas, o resultado é excepcional. Não vejo uma cidade cyberpunk tentando parecer descolada. Vejo um lugar doente, alimentado por corpos e memórias, no qual continuar falando já constitui um ato de rebeldia.

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