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Preview | Quarantine Zone: The Last Check (PC)

Nós já vimos o apocalipse de todas as formas imagináveis. Já corremos de hordas, já construímos fortalezas com latas de feijão, já nos tornamos heróis relutantes em um mundo em ruínas. O que eu não esperava era que o fim da civilização viesse com um manual de procedimentos, uma prancheta e a luz fria e impessoal de uma cabine de inspeção. Quarantine Zone: The Last Check me colocou não no papel de um sobrevivente, mas no de um burocrata. Um oficial no último posto de controle entre o que restou da humanidade e o esquecimento, armado não com uma espingarda, mas com o poder terrível de um carimbo. A proposta é simples e genial: uma fusão do terror logístico de Papers, Please com um apocalipse zumbi. E o resultado, mesmo nesta versão demo, é uma das experiências mais tensas e psicologicamente desconfortáveis que já tive em muito tempo.

Quarantine Zone: The Last Check

Vidas de Papel

Não há uma grande narrativa aqui, com heróis e vilões definidos. A história de Quarantine Zone é contada em fragmentos, nas faces sujas e assustadas das pessoas que se enfileiram diante da minha cabine. Cada um é um pequeno conto de desespero. Um documento amassado, uma tosse disfarçada, um olhar que implora ou que tenta enganar. Meu trabalho é decifrar essas micro-histórias. O mundo lá fora ruiu, e eu sou a última autoridade, o último filtro. A desenvolvedora, Brigada Games, já deixou claro que a busca por uma cura não está nos planos, o que só aprofunda o tom sombrio e pragmático da coisa toda. A história não é sobre salvar o mundo, mas sobre decidir, pessoa por pessoa, quem ainda merece um lugar nele.

Quarantine Zone: The Last Check

O Poder e a Paranoia

O gameplay se divide em dois atos muito distintos. O primeiro, e de longe o mais brilhante, acontece dentro da cabine de triagem. É um quebra-cabeça forense, um balé de observação e dedução. Cada refugiado é um caso, e eu preciso ser médico, detetive e juiz. O segundo ato acontece fora da cabine, onde preciso gerenciar os recursos da base – comida, energia, alojamentos e, à noite, defendê-la de ataques zumbis, seja pilotando um drone armado ou assumindo uma torreta. E é aqui que o jogo sofre de uma pequena crise de identidade. Enquanto a inspeção é uma mecânica original e profundamente envolvente, o gerenciamento da base parece, por vezes, uma tarefa burocrática e repetitiva, e o combate, uma distração que não tem o mesmo peso. A tensão da cabine é tão poderosa que qualquer momento fora dela parece trivial em comparação.

Quarantine Zone: The Last Check

A Lupa e o Bisturi

As mecânicas de inspeção são o coração pulsante do jogo. Minhas ferramentas são extensões da minha própria paranoia: um termômetro para medir a febre, uma lanterna de luz UV para revelar mordidas ou erupções cutâneas escondidas, um estetoscópio para ouvir uma respiração doente. Eu examino cada pessoa, cruzo os sintomas com meu manual e tomo uma decisão: admitir, colocar em quarentena para observação ou… liquidar. A genialidade está na ambiguidade. Uma tosse é só uma tosse ou o início da infecção? Uma mancha escura no raio-x do pulmão é um hematoma ou o prenúncio da morte? Um erro, para qualquer um dos lados, tem consequências catastróficas. Deixar um infectado entrar significa a morte de todos no alojamento. Em contraste, a mecânica de combate noturno parece flutuar. As armas não têm impacto, as reações dos zumbis são mínimas. É um alívio barulhento da tensão silenciosa do dia, mas que carece da mesma sofisticação.

Quarantine Zone: The Last Check

A Trilha Sonora da Desolação

A atmosfera é construída com uma precisão cirúrgica. Dentro da cabine, a estética é crua, funcional e opressiva. O concreto manchado de chuva, a iluminação dura que isola o refugiado como um espécime sob o microscópio, as ferramentas de diagnóstico robustas e intimidadoras. O design de som é minimalista, mas terrivelmente eficaz. O zumbido constante da luz fluorescente, o som abafado do vento lá fora e, acima de tudo, os sons da pessoa à minha frente – uma tosse úmida, uma respiração ofegante – são mais assustadores do que qualquer grito de monstro. O mundo para além dos muros da minha base parece visualmente menos desenvolvido, mas isso acaba funcionando como um funil, forçando toda a minha atenção e ansiedade para o drama humano que se desenrola a um metro de distância.

Liso Como a Lâmina

Joguei em um PC com um Ryzen 7 5700x, uma RTX 4060 e 32 GB de RAM, uma configuração bem acima da recomendada. Como esperado, o desempenho foi impecável. Com tudo no máximo, não vi uma única queda de quadros. E isso não é apenas um luxo técnico; é essencial para a experiência. Quarantine Zone exige foco absoluto.

Quarantine Zone: The Last Check

O Peso do Carimbo Final

Ao final da demo, eu não me sentia um herói. Sentia-me exausto e cúmplice. Quarantine Zone: The Last Check é uma exploração arrepiante sobre o custo da sobrevivência e o processo de desumanização que ela exige. Para ter sucesso, fui forçado a suprimir a empatia, a ver pessoas não como almas desesperadas, mas como um conjunto de dados, um potencial vetor de contágio. O verdadeiro horror do jogo não está nos zumbis que arranham os portões, mas no protocolo frio e eficiente que você precisa adotar para mantê-los do lado de fora. A demo é uma prova de conceito poderosa, perturbadora e que vai ficar comigo por muito tempo. Ele não te pergunta o que você faria para sobreviver; ele te mostra o que você se tornaria. E essa é uma pergunta muito mais assustadora.

Gustavo Feltes
Gustavo Feltes
Eu amo jogar, jogar é uma parte de mim. Cada história, momento, universo e gameplay me encantam. Eu não tenho restrições de jogos, cada célula do meu corpo clama por isso.
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