Vamos ser honestos. O universo dos videogames se tornou um lugar barulhento, para dizer o mínimo. É uma cacofonia de notificações, marcadores de missão piscando, barras de experiência subindo e uma pressão constante para fazer alguma coisa. Otimize seu build. Complete o passe de batalha. Mate o próximo chefe. A indústria nos condicionou a uma espécie de hiperatividade digital, uma corrida sem fim em uma esteira de dopamina que, francamente, me deixa exausta. Eu anseio pelo silêncio, por um momento de paz em meio ao caos de pixels e polígonos.
E então, como uma resposta bizarra e improvável às minhas preces, surge Stone Simulator – Just Be a Rock. Um jogo cujo título é a instrução completa. A premissa, vendida por alguns trocados na Steam, é de uma audácia quase ofensiva: você é uma pedra. Seu objetivo? Nenhum. Sua única função, seu único verbo, é existir. Não há inimigos, não há quebra-cabeças, não há árvores de habilidades. Há apenas você, uma massa inerte de minerais, e o mundo que gira ao seu redor.

Minha primeira reação foi um misto de escárnio e fascinação. Quem, em sã consciência, criaria tal coisa? E mais importante, quem jogaria? Mas classificar Stone Simulator como um “jogo” no sentido tradicional é cometer um erro crasso de categoria. Isso não é um jogo; é uma provocação. É uma peça de arte interativa, um “anti-jogo” que se posiciona em oposição direta a tudo que a cultura de games moderna representa. Ele não pede sua habilidade, sua destreza ou seu tempo de reação. Ele pede algo muito mais raro e difícil de conceder: sua paciência. Ele nos lança a pergunta fundamental que permeia toda a experiência: em um mundo que exige ação incessante, qual é o valor de, deliberadamente, não fazer absolutamente nada? Seria esta uma meditação profunda disfarçada de piada, ou simplesmente, como os próprios desenvolvedores sugerem com uma piscadela, “o jogo mais chato de todos os tempos”? A resposta, descobri, é muito mais complexa e estranhamente bela do que eu poderia imaginar.
O Testemunho Silencioso do Tempo
Se você procura uma narrativa com protagonistas, reviravoltas e um clímax emocionante, pode fechar esta página. A “história” em Stone Simulator não é contada, é testemunhada. O protagonista aqui é o próprio tempo geológico, e nós, como a pedra, somos o espectador silencioso e eterno. Não há diálogos, apenas a passagem inexorável das eras.
A experiência de assistir a “dias, anos e séculos passarem” é, de início, desconcertante e, depois, profundamente humilhante. Vi a paisagem verdejante do verão ceder ao dourado do outono, ser engolida pelo branco silencioso do inverno e, finalmente, renascer com a promessa da primavera. Repetidas vezes. Essa ciclagem infinita é o enredo principal, uma narrativa sobre permanência e mudança que opera em uma escala que a mente humana mal consegue compreender.
Os pontos de virada, os “plot twists” desta saga imóvel, são os eventos surreais e aleatórios que quebram a monotonia da natureza. Lembro-me vividamente de uma tarde tranquila em que, sem aviso, um OVNI desceu dos céus, pairou sobre um lago próximo e abduziu um cavalo com um raio trator. Em outra ocasião, uma criatura que parecia um kraken gigante rastejou pelo horizonte. Houve também a aparição de um pequeno xamã feito de folhas que conjurou uma tempestade violenta que durou meros segundos antes de desaparecer. Esses momentos não são missões ou eventos roteirizados; são vislumbres de um universo indiferente e maravilhoso, acontecimentos que ocorreriam com ou sem a minha presença.

E há também a micro-narrativa, a história contada na superfície do meu próprio corpo de pedra. Observei musgo crescer lentamente em minhas fendas, senti a chuva polir minha face ao longo de décadas simuladas e, ocasionalmente, fui agraciada com a visita de um pássaro. Às vezes, um pensamento críptico surgia na tela, uma reflexão filosófica vinda da consciência da própria pedra, me fazendo questionar se eu estava realmente sozinha ali. A história, aqui, não é sobre o que você faz, mas sobre o que acontece com você e ao seu redor enquanto você simplesmente… é.
A Meditação Ativa na Passividade
Falar sobre a “jogabilidade” de Stone Simulator é mergulhar em um estudo do paradoxo. O manual de instruções é brutalmente simples: você não pode se mover. Pressione W, A, S, D e nada acontece. Clique o mouse e o mundo permanece indiferente. A ausência de interação não é uma limitação técnica; é a mecânica central, a própria alma da experiência.
Nesse vácuo de agência, nosso único poder, nossa única forma de interação com o mundo, reside no controle da câmera. Girar, inclinar, dar zoom. É isso. Essa escolha de design é genial, pois transforma o ato de “jogar” em um exercício de observação focada. Você deixa de ser um ator no palco para se tornar o diretor de fotografia de sua própria existência imóvel. Como um crítico observou, “olhar para ou desviar o olhar define a maior parte da sua experiência”. Seu poder não é mudar o mundo, mas escolher como enquadrá-lo.
Essa filosofia se manifesta de maneiras distintas nos dois modos de jogo. O “Zen Mode” é um retiro digital puro, um espaço para contemplação onde, como prometido, quase nada acontece. É o equivalente a um protetor de tela interativo de altíssima qualidade, perfeito para acalmar uma mente ansiosa. Já o “Events Mode” (ou “Chaos Mode”) é onde o coração satírico e surrealista do jogo pulsa mais forte. Ele recompensa sua paciência com uma aleatoriedade tresloucada, transformando a paisagem serena em um palco para o absurdo. É neste modo que a verdadeira identidade do jogo se revela.

Muitos, inclusive eu, descobriram que a melhor maneira de “jogar” Stone Simulator é como uma experiência de segundo monitor. Deixá-lo rodando em uma tela enquanto trabalho ou navego em outra. Ele se torna uma janela para um mundo tranquilo, uma peça de arte ambiente que ocasionalmente me surpreende com um evento bizarro. E isso não é um demérito. Pelo contrário, é a prova de sua flexibilidade como uma nova forma de mídia, algo que existe no limiar entre um jogo, uma ferramenta de meditação e uma instalação de arte digital.
As Engrenagens do Absurdo
Por trás da fachada de tranquilidade, Stone Simulator opera com um conjunto de mecânicas finamente ajustadas para gerar ironia e surpresa. A principal delas é o sistema de eventos aleatórios, o motor que impulsiona o “Chaos Mode”. A imprevisibilidade é total. Em um momento, você está observando borboletas; no seguinte, um gigante de pedra caminha no horizonte. Essa mecânica transforma o que poderia ser um diorama estático em um gerador infinito de vinhetas surrealistas, garantindo que nenhuma sessão seja igual à outra.
O sistema de conquistas é, talvez, a mais brilhante peça de sátira do jogo. Em uma indústria obcecada por recompensar o jogador por cada pequena ação, Stone Simulator vira essa lógica de cabeça para baixo. Conquistas como “Crise Existencial”, obtida após um longo período de inatividade, não celebram a habilidade, mas a pura e simples resistência ao tédio. Elas são um comentário mordaz sobre a “gamificação” da vida, recompensando o ato de ser em vez do ato de fazer. A confusão de alguns jogadores nos fóruns sobre como desbloquear essas conquistas apenas reforça seu design deliciosamente anti-utilitário.

Finalmente, a inclusão de um modo de fotografia é mecanicamente crucial. Em um jogo que é inteiramente sobre testemunhar momentos efêmeros e belos, a capacidade de capturar uma imagem se torna a única forma de “progresso” ou “colecionismo”. É a única ferramenta que nos permite criar um artefato, um registro tangível de nossa passagem silenciosa por aquele mundo. Em um jogo onde não se pode fazer nada, o ato de enquadrar e salvar uma memória se torna a ação mais significativa de todas.
Uma Paisagem Sonora e Pictórica
Se Stone Simulator fosse visualmente desinteressante, toda a sua premissa desmoronaria. Felizmente, este é um dos “jogos de não fazer nada” mais bonitos que já tive o prazer de ignorar ativamente. Construído na Unreal Engine, o mundo é consistentemente deslumbrante. A qualidade da iluminação é sublime, capturando a luz dourada do amanhecer e as sombras longas do crepúsculo com um realismo poético. Os sistemas climáticos dinâmicos são um espetáculo à parte; ver as gotas de chuva escorrendo pela “lente” da câmera durante uma tempestade ou a névoa subindo lentamente do vale cria uma imersão que muitos jogos AAA lutam para alcançar. As texturas da grama, da água e das montanhas distantes fazem o ambiente parecer vivo e palpável.
O design de som é o pilar gêmeo que sustenta a experiência. A paisagem sonora é rica e profundamente atmosférica. Durante o dia, o canto dos pássaros preenche o ar; à noite, os grilos assumem, criando um ambiente de tranquilidade quase palpável. Uma trilha sonora melódica e minimalista entra e sai sutilmente, nunca se impondo, apenas acentuando a sensação de paz. O áudio também confere um peso dramático aos eventos; o som de uma trovoada distante ou o silêncio repentino que precede um evento estranho são usados com uma eficácia tremenda para modular o humor da experiência.

Tudo isso nos leva a uma ironia deliciosa: a utilização de uma das mais poderosas e complexas ferramentas de desenvolvimento de jogos do mundo, um motor gráfico capaz de renderizar batalhas espaciais e mundos de fantasia épicos, para simular a experiência de ser um objeto inerte. É um uso tão exagerado e inadequado da tecnologia que só pode ser intencional. É uma piada conceitual de alto nível, uma sátira sobre o excesso tecnológico que usa as ferramentas do espetáculo para criar uma obra de arte minimalista.
Estabilidade Rochosa
Rodei Stone Simulator em uma configuração robusta: um processador Ryzen 7 5700X, uma placa de vídeo RTX 4060 e 32 GB de RAM. Como esperado de uma máquina que excede em muito os requisitos recomendados do jogo, a experiência foi tecnicamente impecável. Com todas as configurações gráficas no máximo, a taxa de quadros permaneceu alta e inabalável, tão sólida quanto a própria pedra que eu encarnava. Não encontrei um único bug, glitch, ou travamento durante todo o meu tempo no jogo, um nível de polimento que é essencial para a proposta da obra.
Mais Profundo que uma Pedra?
Ao final da jornada, volto à pergunta inicial. O que ganhamos ao nos tornarmos uma pedra? Stone Simulator é, em sua essência, um grande paradoxo. É, ao mesmo tempo, uma ferramenta de meditação profundamente eficaz e uma piada conceitual absolutamente ridícula. É um gerador de caos e um oásis de paz. Sua genialidade não está em resolver essa contradição, mas em abraçá-la plenamente.
O jogo não é sobre fazer nada, mas sobre aprender a simplesmente ser. Ser uma presença silenciosa em um mundo que continua seu curso, indiferente à sua existência. Ele cumpre com maestria a sua estranha promessa, entregando exatamente a experiência que seu título sugere. Mas o que fica, depois que fechamos o programa, não é uma sensação de vitória ou de dever cumprido. É uma sutil, mas persistente, mudança de perspectiva.
Stone Simulator funciona como um teste de Rorschach para a nossa paciência. Ele não nos oferece conteúdo para ser consumido, mas um espaço vazio para ser preenchido com nossas próprias ansiedades, nossa impaciência e nossa necessidade incessante de estímulo. No final das contas, Stone Simulator não é uma janela para a vida de uma pedra. É um espelho que nos obriga a encarar a criatura mais inquieta, barulhenta e faminta por distrações que existe: nós mesmos. E a verdade é que, às vezes, a gente precisa de uma pedra para nos ensinar a ficar quietos.
NOTA
CONSIDERAÇÕES
Stone Simulator é uma obra-prima do absurdo, um "anti-jogo" que se revela tanto uma ferramenta de meditação surpreendentemente eficaz quanto uma piada conceitual brilhante. Ele não pede para ser jogado, mas sim testemunhado. Para quem busca uma fuga do barulho incessante dos jogos modernos e está disposto a abraçar o silêncio, encontrará uma experiência visualmente deslumbrante, tecnicamente impecável e, paradoxalmente, muito mais profunda e memorável do que se poderia esperar de uma simples pedra.
