Vamos ser honestos: a nossa área de trabalho é um campo de batalha. Entre planilhas que imploram por atenção, abas de navegador que se multiplicam como coelhos e a sirene constante das redes sociais, o espaço digital é um caos. É nesse cenário de desordem que Whimside se apresenta, não como mais um combatente na guerra pela nossa atenção, mas como um oásis. A promessa é sedutora: um “companheiro acolhedor e livre de estresse” que vive discretamente no rodapé do seu monitor, um pequeno terrário digital pronto para oferecer uma dose de serotonina sem exigir nada em troca. Ele se vende como o antídoto para a sobrecarga, um jardim secreto que floresce nos momentos intersticiais do nosso dia.
Essa é a promessa. E, por um tempo, eu acreditei nela. Whimside faz parte de uma nova e curiosa safra de jogos “de rodapé”, projetados para se integrarem à nossa rotina em vez de a dominarem. A ideia é que você possa trabalhar, estudar ou assistir a um vídeo enquanto, ali embaixo, um mundo de criaturinhas adoráveis vive a sua vida. Mas é aqui que a promessa começa a rachar. Este texto é a crônica de uma desilusão. É a investigação de um paradoxo que está no coração da experiência: será Whimside o companheiro passivo que ele jura ser, ou será que, por trás de sua fachada fofa e pixelada, se esconde um bichinho de estimação digital carente, cuja necessidade de atenção transforma o oásis prometido em mais uma fonte de ansiedade? A resposta, como descobri, é muito mais complicada do que um simples sim ou não.
O Grande e Adorável Vazio Narrativo
Se você abriu Whimside em busca de uma jornada épica, de um mistério a ser desvendado ou de personagens com arcos dramáticos, pode fechar a janela. Não há nada disso aqui. O jogo simplesmente… começa. Você não é um mestre colecionador, não há um professor Carvalho para lhe dar instruções, não há uma razão aparente para o que você está fazendo. O mundo de Whimside não tem lore, não tem contexto, não tem história. Ele apenas existe, um diorama animado e sem propósito definido.
E sabe de uma coisa? Isso não é uma falha. É uma decisão de design absolutamente deliberada e, de certa forma, genial. A ausência de uma narrativa é o que permite que o jogo cumpra, em parte, sua promessa de ser um companheiro de fundo. Uma história envolvente, por sua própria natureza, é intrusiva. Ela exige investimento cognitivo e emocional, exatamente o tipo de atenção que você deveria estar dedicando àquela sua planilha. Ao remover qualquer gancho narrativo, os desenvolvedores transformam Whimside em uma pura caixa de brinquedos. A única história que existe é aquela que você cria: a crônica da sua busca por uma criatura com orelhas de burro e rabo de esquilo, a evolução do seu jardim de um pedaço de grama para um parquinho decorado.

Essa abordagem, no entanto, é uma faca de dois gumes. Por um lado, ela cria uma atmosfera de relaxamento total. Não há pressão, não há objetivos urgentes, apenas a alegria intrínseca da descoberta e da criação. Por outro lado, com o passar das horas, esse vazio começa a pesar. Sem uma âncora narrativa para dar significado às suas ações, o ciclo de jogo, como veremos, torna-se perigosamente repetitivo. As criaturas, geradas proceduralmente, são visualmente únicas, mas carecem da personalidade que uma história, por mais simples que fosse, poderia lhes conferir. O resultado é um mundo esteticamente belo, mas existencialmente raso, um lugar encantador para se visitar, mas onde, talvez, não haja motivos para permanecer por muito tempo.
A Doce Tirania da Roleta Genética
O ciclo de Whimside é simples, viciante e se resume em quatro palavras: capturar, criar, coletar, repetir. Nos primeiros momentos, é pura magia. Uma criaturinha adorável, uma mistura bizarra de coelho com tubarão, passeia pela tela. Você clica. Um som de “squeak” satisfatório ecoa. Ela é sua. As primeiras horas são um deleite, um fluxo constante de dopamina enquanto você preenche seu diário com novas partes de corpos, cores e combinações bizarras. É como completar um álbum de figurinhas genético.
O motor que move essa brincadeira é a criação. Você pega duas de suas criaturas, chamadas “Whimlings”, coloca-as em um cercado de reprodução e espera. O resultado é um ovo que, ao chocar, revelará um filhote com uma combinação de traços dos pais. No início, isso parece um quebra-cabeça criativo e divertido. A progressão do jogo está atrelada a desbloquear novos biomas, da campina inicial a praias e florestas, e para isso é preciso satisfazer os caprichos de “altares” que exigem Whimlings com uma combinação genética específica. Isso dá ao jogador um objetivo claro e de curto prazo, um propósito para toda essa eugenia fofa.
É aqui, porém, que o encanto começa a se desgastar. O que antes era uma descoberta prazerosa lentamente se transforma em um trabalho. O ciclo, antes viciante, revela-se mecanicamente superficial. As “infinitas possibilidades” da geração procedural acabam se mostrando puramente cosméticas. Um Whimling com corpo de cogumelo e cauda de peixe se comporta exatamente da mesma maneira que um com corpo de abelha e cabeça de veado. Eles não desbloqueiam novas habilidades, não interagem com o cenário de formas diferentes, não fazem nada além de andar de um lado para o outro. A busca pelo espécime perfeito para o altar deixa de ser um quebra-cabeça e se torna uma cansativa roleta genética, uma sucessão de tentativas e erros que depende mais da sorte do que da estratégia. E, sim, há um humor sombrio em praticar cruzamentos consanguíneos e descartar dezenas de filhotes “imperfeitos” para atingir seu objetivo, uma camada de frieza científica por baixo de toda a fofura.
A Ilusão do Piloto Automático
Agora chegamos ao coração do problema, ao ponto onde a bela promessa de Whimside se desfaz por completo. Este jogo se vende como “idle”, um termo que sugere automação, progresso passivo. É uma mentira. Whimside não é um jogo passivo. É um jogo de microgerenciamento disfarçado de protetor de tela.
A principal evidência dessa traição é a tirania do alerta sonoro. Para completar sua coleção de partes genéticas, um pré-requisito para avançar, você precisa capturar Whimlings selvagens que possuam traços raros que você ainda não tem. A aparição dessas criaturas é anunciada por um som específico. Isso significa que, para progredir de forma eficiente, você precisa estar constantemente com um ouvido no jogo. Quer assistir a uma série? Ouvir um podcast? Participar de uma reunião? Azar o seu. Se você não estiver atento ao som, perderá a oportunidade, e seu progresso estagnará. A mecânica desenhada para criar momentos de excitação é a mesma que acorrenta o jogador ao jogo, destruindo a premissa de ser um companheiro de multitarefa.

Mas não para por aí. Os ninhos de criação têm um número limitado de espaços para ovos. Quando estão cheios, a produção para completamente até que você intervenha manualmente para chocar ou descartar os ovos. Quer deixar o jogo rodando durante a noite para acordar com dezenas de novas criaturas? Impossível. Você precisa ser uma babá constante para sua fazenda genética. Some a isso uma interface de usuário frustrante que não permite ter duas janelas abertas ao mesmo tempo, como a lista de exigências do altar e o menu de criação, forçando-o a memorizar combinações complexas ou, como eu fiz, a recorrer a papel e caneta. E a cereja no bolo do absurdo são os upgrades que parecem oferecer automação, mas não o fazem. Gastei mil preciosos cristais em um “coletor automático” para o jardim, apenas para descobrir que ele é, na verdade, um botão que eu ainda preciso clicar para coletar os cristais. É uma ilusão de piloto automático; o jogo lhe dá o painel de controle, mas exige que suas mãos nunca saiam do volante.
Uma Injeção de Serotonina Audiovisual
Depois de tanta crítica, é hora de ser justo. Se a mecânica de Whimside é sua maior falha, sua apresentação audiovisual é sua redenção. É a alma da experiência, o açúcar que faz o remédio amargo do grind descer. O jogo é, sem a menor sombra de dúvida, uma das coisas mais visualmente charmosas que já habitaram meu monitor.
A pixel art é impecável. As paletas de cores pastel, as linhas limpas, as animações fluidas e, claro, o design adorável das criaturas são um triunfo estético. Cada bioma é um pequeno quadro, vibrante e cheio de detalhes. É o tipo de arte que justifica a existência do jogo por si só. Você se pega apenas observando, hipnotizado pela beleza simples daquele mundo em miniatura.
E a trilha sonora… ah, a trilha sonora. É uma obra-prima de música ambiente. Quente, lúdica e imersiva, ela cria a atmosfera “cozy” perfeita. É o tipo de música que acalma a alma e faz com que o ato repetitivo de clicar em criaturas pareça uma forma de meditação. O design de som também é excelente, desde o já mencionado “squeak” dos Whimlings até o chilrear dos pássaros. O único problema é que os sons ambientes estão atrelados ao mesmo controle de volume da música, uma pequena falha de design. No fim das contas, a apresentação de Whimside é tão poderosa que ela quase consegue carregar o jogo inteiro nas costas. É a injeção de serotonina que te faz perdoar, ou pelo menos tolerar, as mecânicas frustrantes. É um caso clássico de estilo sobre substância, mas que estilo!
Leve como uma Pluma Digital na Ventania de uma RTX 4060
Vamos tirar isso do caminho rapidamente. Eu joguei Whimside em uma máquina mais do que capaz: um Ryzen 7 5700x, uma RTX 4060 e 32 GB de RAM. Dizer que o jogo rodou bem seria um eufemismo. Ele flutuou. Os requisitos de sistema são tão baixos que provavelmente rodaria em uma torradeira com um monitor acoplado.
Um Belo Vaso de Flores que Exige ser Regado a Cada Cinco Minutos
Ao final desta jornada, a verdade sobre Whimside se torna clara: é um jogo em guerra consigo mesmo. Ele possui a alma de um ornamento passivo e relaxante, mas as mecânicas de um animal de estimação carente e exigente. É uma criação tecnicamente impecável, artisticamente deslumbrante, mas que fundamentalmente falha em compreender a promessa que faz ao jogador.
A melhor metáfora que encontrei é a de um belo vaso de flores digitais. Ele enfeita sua área de trabalho, traz cor e vida para o caos. Mas, ao contrário de uma decoração estática, este vaso exige ser regado a cada cinco minutos. Você precisa podar suas folhas, girá-lo para pegar sol, conversar com ele. Se você o ignora, ele não morre, mas deixa de progredir, e a beleza pela qual você o adquiriu se torna estagnada.

Whimside não é para todos. Não é para o jogador que busca profundidade, nem para o profissional que busca uma companhia verdadeiramente passiva. Ele foi feito para um nicho muito específico: a pessoa que deseja uma distração constante, de baixo risco e esteticamente agradável. É para quem encontra no ato do gerenciamento gentil e contínuo uma forma de relaxamento. É uma dose de dopamina para o colecionador que valoriza mais o processo do que o progresso.
No fim, Whimside não é um fracasso, mas um experimento fascinante e falho. É um testemunho do poder da estética pura e um conto de advertência sobre a dificuldade de se criar para a atenção fraturada da vida moderna. Ele pode não ser o companheiro discreto que promete, mas, para a pessoa certa, será uma obsessão da qual ela não conseguirá – e nem vai querer – se livrar. É um monstrinho lindo, tanto na tela quanto nas demandas que ele impõe sobre o seu tempo.
NOTA
CONSIDERAÇÕES
Whimside é uma contradição ambulante: um jogo visualmente deslumbrante e acusticamente relaxante que se sabota com mecânicas que exigem atenção constante, traindo sua promessa de ser um companheiro "idle". É uma experiência superficial, mais um tamagotchi carente do que um jardim zen autossuficiente. Seu charme é inegável, mas sua jogabilidade é uma armadilha para quem busca uma distração verdadeiramente passiva.
