Existe uma categoria muito particular de ambição que eu aprendi a encarar com um misto de admiração e pavor. É a ambição do prato que chega à mesa com dezessete ingredientes que não se conhecem, cada um gritando por atenção, prometendo uma sinfonia de sabores que, na prática, soa mais como uma briga de bar. Quando Space Chef pousou no meu PC, ele veio com essa mesma promessa audaciosa: um banquete de três pratos, como diziam os desenvolvedores da Blue Goo Games. Seria, ao mesmo tempo, um simulador de restaurante, um RPG de sobrevivência e um life sim de fazendinha. Tudo isso embrulhado em um pacote charmoso de exploração espacial 2D. Eu, que já vi muita promessa virar pó cósmico na indústria, ajeitei-me na cadeira, afiei meus talheres e me preparei para o que viesse. A pergunta que pairava no ar, mais densa que a atmosfera de um gigante gasoso, era simples: essa mistura ousada resultaria em uma obra-prima da culinária intergaláctica ou em uma indigestão monumental? Após horas navegando pela Nebulosa Ferradura, posso dizer que a resposta é tão complexa e confusa quanto a própria receita do jogo.
O Legado da Vovó e o Hambúrguer Corporativo
A premissa de Space Chef é tão familiar que chega a ser reconfortante, como uma receita de família que a gente sabe de cor. Você herda da sua avó não uma fazenda caindo aos pedaços, mas um trailer espacial igualmente surrado e, mais importante, seu lendário livro de receitas. Com esse legado em mãos, sua missão é desbravar a galáxia, descobrir ingredientes exóticos e se tornar o maior chef do universo. Como em toda boa história de Davi contra Golias do mundo indie, há uma megacorporação maligna no seu encalço: a Galactic Burger, uma rede de fast-food nefasta cuja chegada coincide, veja só que coincidência, com a misteriosa explosão de restaurantes locais.

É um esqueleto narrativo que já vimos em Stardew Valley e em uma dúzia de seus sucessores espirituais. O charme, portanto, não está na originalidade da trama, mas na carne que preenche esses ossos – os personagens. E aqui, Space Chef se esforça para ser excêntrico. Temos Zoe, a sucateira que vê tesouros no lixo; Jack Bronzon, um piloto espacial decadente com mais histórias do que horas de voo; e Zlurka, o bartender que, segundo a descrição oficial, “definitivamente não é um alienígena”. A intenção é clara: criar um elenco memorável que dê vida a este universo.
O problema é que a execução tropeça. As interações muitas vezes parecem superficiais, e os diálogos, embora tentem ser espirituosos, raramente arrancam mais do que um sorriso contido. Zlurka é uma piada de uma nota só que se esgota rapidamente. As missões que eles oferecem, incluindo as de romance, carecem da profundidade necessária para que eu realmente me importasse com seus dilemas. A rivalidade com a Galactic Burger, que deveria ser o motor da história, acaba funcionando mais como um ruído de fundo, uma ameaça distante que nunca se materializa de forma impactante. A história de Space Chef é como um suflê que não cresceu: a base de ingredientes é boa, mas falta o calor e a substância para transformá-la em algo memorável.
A Agridoce Rotina do Chef Galáctico
O coração de Space Chef pulsa em um ciclo de três etapas: Caçar, Cozinhar, Entregar. É um loop de jogabilidade que, no papel, soa como a mais pura e viciante das rotinas. Você pilota sua nave por cinco planetas alienígenas distintos, cada um com sua flora e fauna únicas, para coletar mais de uma centena de ingredientes. De posse desses tesouros – que vão de frutas cintilantes a bichos que se contorcem na sua geladeira –, você volta para a cozinha do seu trailer, experimenta mais de 140 receitas e serve os pratos para uma clientela faminta, seja por delivery ou em um restaurante improvisado.
Nas primeiras horas, essa rotina é genuinamente relaxante e satisfatória. Há um prazer inegável em pousar em um planeta verdejante, caçar uma criatura bizarra pela primeira vez, descobrir uma planta que brilha no escuro e voltar para casa para ver que prato exótico aquilo se tornará. A progressão é palpável: o dinheiro que entra permite comprar equipamentos melhores, que por sua vez permitem explorar planetas mais perigosos em busca de ingredientes mais raros para pratos mais lucrativos.

Contudo, como uma música que toca em repetição, o encanto começa a se desgastar. A palavra “repetição” se torna a sombra que paira sobre cada viagem. A exploração, inicialmente um ato de descoberta, gradualmente se transforma em uma tarefa de coleta. Os planetas, embora visualmente distintos, não oferecem desafios ou segredos que justifiquem a exploração profunda. Para quebrar essa monotonia, o jogo introduz elementos de combate contra a fauna local e piratas espaciais. E é aqui que o prato realmente desanda. A caça é imprecisa, com hitboxes duvidosas e controles que parecem lutar contra você. O combate, que deveria ser um tempero excitante, acaba sendo um ingrediente amargo que contamina a experiência. Em vez de aliviar a sensação de rotina, ele a intensifica, transformando o que deveria ser uma aventura em uma tarefa frustrante.
Parafusos, Panelas e Pontos de Fricção
Se o gameplay de Space Chef sofre de repetição, suas mecânicas sofrem de uma condição ainda mais grave: uma teimosa falta de polimento. É aqui que a ambição do jogo colide de frente com a realidade da experiência do usuário, criando uma série de atritos que, somados, desgastam a paciência do jogador mais dedicado. A lista de problemas de qualidade de vida é longa e fundamental. A interface é, para ser gentil, desajeitada. Para aprender uma nova receita, por exemplo, é preciso abrir o inventário, clicar na receita, fechar o inventário, abrir de novo para aprender a próxima. É um processo desnecessariamente truncado.
As missões, que deveriam guiar o jogador, não aparecem na tela. Para verificar o próximo passo de qualquer tarefa, é preciso pausar o jogo e navegar até o diário de missões. É uma decisão de design que quebra o fluxo do jogo de maneira constante e irritante. A movimentação do personagem é lenta, e a ausência de um botão de corrida transforma a travessia de qualquer área em um teste de paciência. A interação com objetos é igualmente caprichosa, exigindo que você se posicione no pixel exato para que o comando funcione.

Esses não são problemas triviais. São falhas na fundação da experiência. É como tentar cozinhar um prato complexo com facas cegas e um fogão que não regula a temperatura. A boa vontade que o conceito do jogo gera é sistematicamente erodida por essas pequenas, mas incessantes, frustrações. Fica claro que os desenvolvedores priorizaram a quantidade de conteúdo – mais de 100 itens para criar, mais de 150 decorações – em detrimento da qualidade da interação central. O resultado é um jogo que tem muitas coisas para fazer, mas que torna o ato de “fazer” qualquer uma delas mais trabalhoso do que deveria. O maior vilão de Space Chef não é uma rede de hambúrgueres; é a sua própria interface.
Um Banquete (Inconstante) para os Sentidos
Visualmente, Space Chef é um deleite. O jogo adota uma estética de desenho à mão que é puro charme e calor. Cada planeta, cada criatura, cada interior do seu trailer customizável irradia personalidade. As animações podem ser simples, mas são fluidas e eficazes em dar vida a esse universo peculiar. É um estilo de arte que convida o jogador a entrar, a se sentir em casa, mesmo estando a anos-luz de distância. A iluminação, especialmente dentro da sua cozinha à noite, com o brilho suave dos equipamentos, cria uma atmosfera genuinamente aconchegante. Sem dúvida, a direção de arte é o ingrediente mais bem-sucedido e consistente de toda a receita.

É uma pena, portanto, que a paisagem sonora não esteja à altura. A trilha sonora, embora agradável nas primeiras audições, é extremamente limitada. As mesmas poucas faixas se repetem incansavelmente, seja você explorando um pântano alienígena ou fritando um bife de besouro. Em um jogo projetado para sessões longas, onde a imersão é fundamental, uma trilha sonora repetitiva não é apenas um detalhe; é um problema grave. Ela se torna um lembrete constante da natureza cíclica do gameplay, quebrando a atmosfera que os visuais se esforçam tanto para construir. É uma apresentação em guerra consigo mesma: os olhos são convidados para um banquete, enquanto os ouvidos são forçados a ouvir a mesma música de elevador para sempre.
Motor Quente, Pratos Frios
Vamos à parte técnica. Eu joguei Space Chef em uma máquina mais do que capaz de levar qualquer jogo moderno ao seu limite: um processador Ryzen 7 5700x, uma placa de vídeo RTX 4060 e 32 GB de memória RAM. As especificações recomendadas para o jogo, em comparação, parecem uma relíquia de uma era passada. Portanto, minha expectativa era uma performance impecável, sólida como uma rocha, com telas de carregamento que mal piscassem na tela.

A realidade, mais uma vez, foi um pouco decepcionante. Embora o jogo na maior parte do tempo mantenha uma taxa de quadros estável, as telas de carregamento são notavelmente mais longas do que deveriam ser para um jogo 2D com essa simplicidade gráfica, mesmo rodando em um SSD NVMe. Ocasionalmente, encontrei pequenos engasgos e bugs visuais que, embora não quebrassem o jogo, denunciavam uma falta de otimização. Em um PC com essa potência, qualquer soluço técnico não é culpa do hardware, mas um atestado direto do estado do código do jogo. Para um título que depende de um fluxo suave e relaxante, essas interrupções, por menores que sejam, são como encontrar um fio de cabelo na sopa: não estragam a refeição inteira, mas abalam a confiança no chef.
O Sabor que Permanece
Ao final da minha jornada gastronômica pela galáxia, a sensação que fica é a de ter provado um prato com um potencial imenso, mas que foi traído por sua própria complexidade. Space Chef é um jogo de contradições profundas. É charmoso e desajeitado, ambicioso e inacabado, convidativo e frustrante. Ele acerta em cheio naquilo que atrai o olhar, sua arte calorosa e sua premissa cativante, mas falha nos fundamentos que sustentam a experiência a longo prazo: controles precisos, uma interface intuitiva e uma variedade que vá além da superfície.
A paixão da pequena equipe de desenvolvimento é evidente em cada pixel desenhado à mão. Eles sonharam com um universo vasto e cheio de possibilidades, e por esse sonho, merecem aplausos. Mas um jogo, assim como um prato, não é julgado pela sua receita, mas pelo seu sabor final. E o sabor que Space Chef deixa na boca é o do “quase”. É o gosto de uma ideia brilhante que se perdeu em meio a uma execução problemática. Não é uma obra-prima, tampouco um desastre completo. É, talvez, algo mais melancólico: um lembrete de que, na cozinha como no desenvolvimento de jogos, ter os melhores ingredientes do universo não garante um banquete memorável se a mão que os prepara ainda treme.
NOTA
CONSIDERAÇÕES
Space Chef serve um prato visualmente delicioso, com uma arte encantadora e uma premissa que mistura gêneros de forma promissora. No entanto, a experiência é prejudicada por um tempero que passa do ponto: mecânicas desajeitadas, uma interface frustrante e um ciclo de jogabilidade que, embora inicialmente relaxante, rapidamente se torna repetitivo. É um jogo com o coração no lugar certo e uma ambição notável, mas que tropeça na execução, parecendo mais um ensaio promissor do que o banquete intergaláctico que aspirava ser. Vale a pena para quem tem muita paciência e consegue ignorar os atritos em nome da atmosfera, mas para a maioria, o sabor final é o de potencial mal aproveitado.
