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Review | Quarantine Zone: The Last Check (PC)

O Limiar da Humanidade e a Burocracia do Caos em Quarantine Zone The Last Check

Eu confesso que existe algo de profundamente hipnótico e ao mesmo tempo pavoroso na maneira como a civilização insiste em se organizar quando o abismo resolve olhar de volta para nós. Ao abrir Quarantine Zone The Last Check em meu computador, fui imediatamente transportado para um estado de espírito que eu não esperava encontrar em um simulador de posto de controle. Não é apenas o peso do portão de ferro que separa a segurança precária do caos absoluto, mas é o peso invisível de cada decisão que tomamos sentados atrás de um vidro blindado, armados apenas com um carimbo, algumas ferramentas médicas e uma bússola moral que começa a girar sem rumo conforme os dias passam. O jogo, desenvolvido pela Brigada Games e publicado pela Devolver Digital, nos coloca em uma posição que é o pesadelo de qualquer pessoa com um pingo de empatia, mas que exerce um fascínio irresistível sobre o nosso senso de ordem e dever.

A experiência começa com uma atmosfera carregada, um silêncio que só é quebrado pelo som das pás de um helicóptero e pelo briefing seco e autoritário de um Major que claramente já viu coisas demais para acreditar em milagres. Eu senti que o jogo não queria que eu fosse um herói de ação, mas sim uma engrenagem, um filtro humano encarregado de decidir quem merece respirar o ar filtrado do santuário e quem deve ser abandonado à própria sorte, ou algo pior, nas sombras da zona de exclusão. Essa proposta me capturou imediatamente porque ela mexe com um medo muito contemporâneo: a ideia de que, diante de uma catástrofe biológica, a nossa maior ameaça não são os monstros que rugem lá fora, mas a burocracia que nos desumaniza aqui dentro.

Quarantine Zone The Last Check review

Ao longo das horas que passei processando sobreviventes, percebi que Quarantine Zone The Last Check é um descendente direto de Papers Please, mas com uma roupagem tridimensional que adiciona uma camada de intimidade desconfortável ao processo de triagem. Eu não estou apenas olhando para passaportes, eu estou olhando nos olhos de pessoas que podem estar carregando o fim do mundo sob suas peles suadas e roupas rasgadas. É um jogo sobre o limiar, sobre aquele espaço cinzento onde a compaixão encontra o protocolo e, quase sempre, sai perdendo.

O eco do Major e a anatomia da desistência

A narrativa de Quarantine Zone The Last Check é construída com uma economia de meios que eu considero absolutamente brilhante. Não existem grandes cutscenes cinematográficas tentando nos convencer do horror, porque o horror está nos detalhes, nas entrelinhas das ordens que recebemos e na evolução melancólica do nosso posto de controle. Eu me vi imerso em uma história que se revela através da voz do Major, um personagem que personifica o cansaço sistêmico. A atuação de voz dele me chamou a atenção: ele soa como um homem que já desistiu da esperança há muito tempo e que agora se agarra apenas à eficiência operacional como uma última tábua de salvação antes do naufrágio total.

Quarantine Zone The Last Check review

O envolvimento emocional surge de forma orgânica quando percebi que eu não era apenas um juiz, mas também um zelador de uma base que desmorona a cada dia. A trama nos empurra para dilemas éticos que são genuinamente perturbadores. Em certo momento, fui introduzido ao laboratório, um lugar onde a busca pelo conhecimento científico se torna uma desculpa para atos de uma crueldade clínica. A ideia de que eu precisava sacrificar indivíduos com sintomas desconhecidos para colher amostras e entender as mutações do vírus é de uma amoralidade que me fez pausar o jogo por alguns instantes para refletir. O jogo nos pergunta, de forma muito direta, se a vida de um indivíduo vale menos do que o dado estatístico que pode, talvez, salvar a coletividade.

Eu achei fascinante como o ritmo narrativo acompanha a degradação da nossa própria sanidade dentro do jogo. O que começa como uma tarefa de inspeção quase rotineira, onde verificamos cortes e temperaturas, evolui para uma gestão de crise permanente onde temos que lidar com rebeliões, falta de comida e a pressão constante de superiores que não aceitam erros. Existe uma coerência temática muito forte aqui: o mundo lá fora está morto, e o mundo aqui dentro está morrendo de forma lenta, burocrática e extremamente organizada.

Essa sensação de inevitabilidade é reforçada por encontros com personagens únicos, como o sobrevivente esqueleto, uma figura que parece saída de um pesadelo febril e que traz um toque de bizarrice que só a cena indie consegue proporcionar com tanta propriedade. Encontrar essas figuras no meio da massa de refugiados anônimos me lembrou que, mesmo no fim dos tempos, a individualidade ainda tenta se manifestar, ainda que o meu papel fosse justamente esmagá-la em favor de um checklist de sintomas. A narrativa de Quarantine Zone não é sobre a cura, mas sobre a manutenção da ordem enquanto o relógio da humanidade marca seus últimos segundos.

A coreografia da desconfiança entre a lupa e o martelo

No gameplay de Quarantine Zone The Last Check, a minha interação com o mundo é pautada por uma desconfiança metódica que beira a paranoia. Eu me senti operando em um ritmo que oscila entre a monotonia hipnótica da rotina e picos de adrenalina causados pela descoberta de uma irregularidade. A sensação de controle é um elemento muito bem trabalhado: eu tenho em minhas mãos ferramentas que me permitem invadir a privacidade dos outros de formas extremas, desde scanners de raio-X que revelam contrabando escondido em órgãos internos até matioscometros que analisam as profundezas do globo ocular em busca de parasitas.

A interação física com os modelos 3D dos sobreviventes adiciona uma camada de realismo que eu considerei essencial. Eu tinha que girar os corpos, pedir para que levantassem os braços, verificar se existiam marcas de mordidas escondidas sob roupas sujas ou se aquela mancha na pele era apenas sujeira ou o início de uma necrose viral. O design do jogo me forçou a ser minucioso, pois cada falha na inspeção resultava em multas pesadas ou, pior, em um surto de infectados dentro da zona segura que eu deveria proteger. Essa mecânica de causa e efeito imediato me manteve sempre alerta, transformando o ato de olhar para uma tela de computador em um exercício de vigilância constante.

Quarantine Zone The Last Check review

No entanto, o ritmo do jogo sofre com algumas decisões de design que podem ser frustrantes. Por volta do décimo primeiro dia, a dificuldade dá um salto que eu achei um tanto quanto desequilibrado. De repente, inspeções que eu considerava perfeitas eram classificadas como pobres ou competentes sem um feedback claro do que eu havia deixado passar. Essa falta de clareza pedagógica me fez sentir, em alguns momentos, que o jogo estava me punindo por regras que ele ainda não havia me explicado direito. É uma escolha arriscada, pois pode quebrar a imersão de quem está tentando levar o simulador a sério.

Gerenciar a base também exige um malabarismo constante. Eu não estava apenas ali para carimbar papéis: eu tinha que decidir como gastar os recursos parcos que recebia. Manter o gerador funcionando, garantir que a cantina tivesse comida e que a ala médica estivesse suprida com kits de primeiros socorros tornou-se uma tarefa paralela que consumia meu tempo entre as sessões de inspeção. Eu achei interessante como o jogo simplificou essa gestão para alguns cliques em menus, o que me permitiu focar no que realmente importa, que é a interação com os sobreviventes. Mas essa simplicidade também tira um pouco da profundidade estratégica que eu esperava encontrar em um jogo de sobrevivência de grande escala.

A ciência fria das feridas e o peso das ferramentas

As mecânicas de Quarantine Zone The Last Check são o coração pulsante dessa experiência e elas funcionam como um lembrete constante da nossa perda de sensibilidade. O uso do martelo neurológico é, talvez, a minha mecânica favorita pela sua estranheza inerente. Bater no joelho de um sobrevivente para verificar se o reflexo está correto ou se ele apresenta um reflexo cruzado, sinal clássico de infecção no jogo, é de uma satisfação mecânica curiosa. Mas o jogo vai além e nos permite usar o martelo para coisas menos nobres, como silenciar ratos ou dar um corretivo em sobreviventes mais agressivos, o que confere ao título um tom de brutalidade cotidiana que eu achei muito coerente com o cenário apocalíptico.

O sistema de laboratório e a pesquisa de sintomas desconhecidos são onde a mecânica encontra o horror existencial. Eu me vi operando lasers para extrair órgãos de pessoas que ainda estavam vivas, tudo em nome de uma ciência desesperada. A descoberta de novos sintomas, como o ocular helminth ou a necrose plume, exige que sejamos exploradores de corpos doentes, e a recompensa por esse trabalho é o acesso a ferramentas mais avançadas. É uma progressão que funciona bem para nos manter interessados, mas que também nos desgasta emocionalmente conforme percebemos o que estamos nos tornando.

Quarantine Zone The Last Check review

A introdução do drone de defesa é um momento de surpresa que quebra a rotina do escritório. Pilotar uma máquina armada para impedir que hordas de zumbis escalem os muros da base é divertido, mas eu senti que essa mecânica carece de um pouco mais de polimento. O controle do drone é um pouco rígido e as missões acabam sendo repetitivas, servindo mais como um intervalo de ação do que como uma parte integrada da estratégia de sobrevivência. Senti falta de uma conexão maior entre o meu desempenho nas inspeções e a facilidade ou dificuldade dessas missões de defesa.

O que realmente pode cansar o jogador é a repetição de alguns padrões visuais e sonoros após algumas horas de gameplay. Embora os sintomas sejam variados, os modelos de personagens e as suas reações começam a se repetir, o que acaba tirando o peso individual de cada encontro. Eu comecei a ver os sobreviventes como problemas lógicos a serem resolvidos e não como seres humanos em perigo, o que, ironicamente, é exatamente o que o jogo quer que sintamos, mas que mecanicamente pode tornar a experiência um pouco monótona em sessões mais longas. O jogo surpreende com missões secundárias como o Modern Prometheus, onde ajudamos um cientista a coletar partes de zumbis, mas esses momentos são raros diante da avalanche de triagens burocráticas.

A paleta do mofo e o som do último suspiro

Visualmente, Quarantine Zone The Last Check não tenta competir com os grandes blockbusters da indústria, e eu acho que essa é a sua maior virtude. Existe uma estética que eu chamaria de realismo sujo, pautada por uma paleta de cores lavadas, muitos tons de cinza, verde oliva e marrom enferrujado. A direção artística consegue transmitir uma sensação de abandono e degradação que é palpável. O posto de controle parece um lugar onde a luz do sol nunca entra de verdade, onde tudo está coberto por uma fina camada de poeira e desespero.

A modelagem dos sobreviventes tem aquela rigidez característica das produções indie, mas a atenção dada aos sintomas médicos é impressionante. Eu tive que olhar de perto para rashes cutâneos, olhos injetados e feridas purulentas que eram representadas com uma crueza quase repulsiva. Essa fidelidade visual ao que é doente e grotesco é fundamental para o gameplay, pois nos obriga a confrontar a realidade física da infecção. A ambientação é reforçada por detalhes como a iluminação bruxuleante e o design funcionalista dos equipamentos tecnológicos, que parecem relíquias de uma era mais avançada tentando funcionar em um mundo que retrocedeu décadas.

Quarantine Zone The Last Check review

A parte sonora é, para mim, o elemento que realmente sela a atmosfera do jogo. Não há uma trilha sonora épica nos distraindo: o que temos é uma paisagem sonora composta por barulhos industriais, o som constante do gerador, o chiado do rádio e, o mais importante, os sons biológicos dos sobreviventes. Ouvir uma respiração curta e sibilante através do estetoscópio ou o bater acelerado de um coração doente me trouxe uma tensão que nenhum susto visual conseguiria. O som do carimbo batendo no papel tem um peso quase judicial: ele encerra uma conversa e decide um destino com uma autoridade seca e final. Eu senti que cada ruído dentro da cabine de inspeção estava ali para me lembrar da gravidade da minha tarefa.

A identidade visual e auditiva do jogo contribuem para uma experiência que eu descreveria como silenciosamente desconfortável. O jogo não precisa gritar para nos assustar: ele apenas nos coloca em um ambiente frio, ruidoso e visualmente opressor e nos pede para trabalhar. É uma decisão artística corajosa que separa Quarantine Zone de outros jogos de zumbi que focam apenas no espetáculo da violência. Aqui, a violência é administrativa e o seu som é o de uma caneta riscando um relatório.

O vigor do silício diante da praga no PC

Para realizar esta análise, eu utilizei uma configuração que considero o equilíbrio ideal para os dias de hoje: um processador Ryzen 7 5700X, uma placa de vídeo RTX 4060 e generosos 32 GB de RAM. Rodando o jogo no PC, a minha experiência foi de uma fluidez absoluta na maior parte do tempo, o que é vital para um título onde precisamos observar detalhes minuciosos em texturas de pele e documentos. Em 1080p, com todas as configurações no máximo, o jogo manteve uma taxa de quadros estável, permitindo que as transições entre a cabine de inspeção e a visão geral da base fossem rápidas e sem engasgos.

Quarantine Zone The Last Check review

No entanto, como nem tudo são flores no fim do mundo, eu notei algumas instabilidades que parecem ser inerentes ao software e não ao meu hardware. Houve momentos em que a física dos personagens agiu de forma estranha, com NPCs dando saltos inexplicáveis ou colidindo com objetos de forma bizarra. Também encontrei alguns bugs visuais onde certos sintomas demoravam um pouco para carregar nas texturas, o que pode levar a um erro de diagnóstico se o jogador for apressado. Mas nada disso chegou a comprometer a jogabilidade de forma fatal. A estabilidade geral é boa: o jogo não apresentou crashes e se comportou de forma previsível durante as minhas longas sessões de triagem.

O veredito do carimbo e o que sobra da alma

Quarantine Zone The Last Check é uma jornada exaustiva, incômoda e absolutamente necessária para quem gosta de jogos que nos desafiam a pensar sobre a nossa própria humanidade. Ele não é apenas um simulador de posto de controle: é um ensaio sobre a facilidade com que podemos nos tornar indiferentes à dor alheia quando estamos protegidos por um uniforme e um manual de procedimentos. Eu terminei a campanha sentindo um cansaço que não era físico, mas moral: o peso de centenas de destinos que eu decidi com a ponta de uma caneta e o bater de um martelo.

Quarantine Zone The Last Check review

O jogo nos entrega uma experiência que é impactante porque é verossímil dentro do seu absurdo. Ele nos mostra que a linha entre a segurança e o horror é mantida por pessoas comuns, falíveis e muitas vezes aterrorizadas, que tentam fazer o seu trabalho enquanto o mundo acaba. A conclusão, com a voz cansada do Major e a incerteza do que virá a seguir, me deixou com uma sensação de melancolia que persistiu muito depois de eu fechar o jogo. Não existem vitórias gloriosas aqui: existem apenas dias em que sobrevivemos para fazer tudo de novo na manhã seguinte.

Embora tenha suas arestas técnicas e momentos de repetição, a força da sua proposta narrativa e a profundidade dos seus dilemas éticos fazem de Quarantine Zone The Last Check um título inesquecível. É um jogo que nos obriga a olhar para as nossas próprias sombras e a perguntar: quem seríamos nós se fôssemos o último filtro entre a vida e a morte? No fim das contas, a maior ameaça em Quarantine Zone não é o vírus, mas a frieza que permitimos crescer em nossos corações para poder cumprir o dever. É uma obra poderosa, sombria e essencial que merece ser experimentada com toda a atenção e sensibilidade que o fim do mundo exige de nós.

NOTA

8.0
★★★★★★★★★★

CONSIDERAÇÕES

Quarantine Zone: The Last Check é um exemplo brilhante de como transformar a burocracia em um suspense psicológico, sustentado por uma atmosfera opressora e dilemas morais que realmente pesam no jogador. Embora brilhe na ambientação e no loop principal de triagem, ele acaba perdendo fôlego devido à repetição mecânica a longo prazo e a certas instabilidades técnicas que ainda precisam de polimento para que a experiência seja impecável.

Gustavo Feltes
Gustavo Feltes
Eu amo jogar, jogar é uma parte de mim. Cada história, momento, universo e gameplay me encantam. Eu não tenho restrições de jogos, cada célula do meu corpo clama por isso.
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