Eu confesso que, ao me deparar com A Game About Digging A Hole no meu PlayStation 5, o meu primeiro instinto foi o desdém. Achei tão bobinho, achei tão sem graça, achei tão batido. Afinal, o que o mundo precisa de mais um simulador de tarefas mundanas? Mas eu estava redondamente enganado, e admito isso com o maior prazer. O que o estúdio Cyberwave entregou aqui, em um projeto que nasceu de um mero exercício criativo de catorze dias, é algo que transborda uma personalidade enorme. Não se deixe enganar pela estética simplista; estamos diante de uma obra que possui um critério absurdo na forma como manipula as nossas expectativas e a nossa própria ganância.

A experiência começa com uma transação que, nos dias de hoje, soa como um conto de fadas perverso. Eu comprei uma casa por dez mil dólares. Sim, dez mil. Em qualquer lugar do mundo real, esse valor não pagaria nem a fechadura de uma propriedade decente, mas aqui, ele me deu as chaves de um quintal que, segundo um anúncio de jornal carregado de uma simpatia suspeita, esconde um tesouro fabuloso. No momento em que eu pisei naquele gramado perfeitamente verde e vi aquele X gigante marcado no solo, eu senti uma curiosidade quase infantil. O jogo me entregou uma pá e disse: vá em frente, mude sua vida. E eu fui. O que se seguiu foi uma jornada em primeira pessoa que subverteu completamente a minha percepção de tempo. Começou como uma diversão despretensiosa para matar o tempo, mas rapidamente se transformou em uma busca obsessiva que me fez questionar por que eu sentia tanto prazer em ver números subindo enquanto o mundo ao meu redor se tornava cada vez mais escuro e claustrofóbico.
O CORRETOR DE IMÓVEIS E O TEATRO DO ABSURDO
A narrativa desse jogo é um daqueles casos fascinantes onde o que não é dito carrega o peso de uma tragédia grega. Não espere diálogos expositivos ou notas de rodapé explicando a lore do mundo. A história de A Game About Digging A Hole se revela na escala do buraco que você cria e na frieza do que você encontra escondido nas paredes de terra. Conforme eu ia descendo, o jogo me dava pistas visuais de que algo estava muito errado. Eu encontrei salas abandonadas, maletas de dinheiro e resquícios de minas que sugeriam que eu não era a primeira pessoa a cair naquele papo de corretor. O suspense ambiental é primoroso, criando uma tensão que vai se infiltrando na jogabilidade conforme o sol lá em cima desaparece.

Mas o que realmente me fez querer gritar de entusiasmo pelo roteiro foi o clímax. Quando eu finalmente atingi os cem metros de profundidade, o clima de simulador relaxante morreu de forma súbita para dar lugar a um horror de sobrevivência puro. Eu cheguei ao baú. O tão sonhado tesouro estava diante de mim. E, em um golpe de mestre do humor negro, ele estava vazio. Não havia ouro, não havia diamantes; havia apenas o vácuo da minha própria ganância. E, nesse exato momento de decepção absoluta, eu fui cercada por três toupeiras gigantes, criaturas grotescas de olhos vermelhos que me eliminaram sem a menor piedade. A revelação final é de uma inteligência narrativa avassaladora: o corretor de imóveis e as toupeiras estão em conluio. Ele vende a casa, você cava até a morte, as toupeiras te devoram e ele simplesmente coloca a placa de vende-se novamente. O corretor é o que eu chamo de vilão para a eternidade, um Karma Houdini que escapa impune, lucrando infinitamente sobre a esperança alheia. É uma sátira cruel e coesa sobre o capitalismo predatório que me deixou sem palavras.
A COREOGRAFIA DO R2 ENTRE O LAZER E O PAVOR
O gameplay de A Game About Digging A Hole é, na sua essência, uma meditação sobre a repetição. No PlayStation 5, essa repetição se transforma em uma forma de arte tátil graças ao uso magistral do controle. Para cavar, eu segurava o botão R2, mas não era apenas um comando mecânico. Eu sentia a resistência do solo nos gatilhos adaptáveis. A vibração hática me permitia diferenciar a terra macia das rochas mais duras, criando uma conexão visceral com o ato físico de escavar. É uma delícia quando as nossas expectativas são superadas por um detalhismo técnico que demonstra que, apesar do curto tempo de produção, houve um carinho imenso na transposição para o console da Sony.

A gestão de recursos é o que mantém a pressão constante. A bateria da minha ferramenta não era uma conveniência; era o meu oxigênio virtual. O fato de a pá detonar nas minhas mãos caso a energia acabasse retirava qualquer possibilidade de eu me sentir segura nas profundezas. Isso transformava cada metro adicional em uma decisão estratégica de alto risco. E o jetpack! Eu não consigo descrever o alívio que era acionar aquele motor para controlar a minha descida ou para voar de volta para a luz do dia após uma jornada produtiva. No entanto, o balanceamento tem seus pecados. Eu percebi que, se você for um minerador metódico, terá todos os upgrades máximos muito antes de chegar perto do final, o que retira um pouco do incentivo financeiro na reta final da descida. Mas o jogo compensa isso com a mudança drástica de ritmo na caverna das toupeiras, onde eu precisei usar o sigilo e a observação de sombras para sobreviver. É uma quebra de paradigma que me tirou da zona de conforto e me lembrou que, naquele abismo, eu nunca fui o caçador, mas sim a presa.
O ARSENAL DO ESCAVADOR MODERNO
As mecânicas funcionam com a precisão de um relógio suíço: simples, mas perfeitamente sincronizadas para criar um movimento contínuo de progressão. O sistema de upgrades é o coração pulsante da experiência, oferecendo sessenta e nove melhorias que vão desde a potência da ferramenta até a eficiência do jetpack. Mas o que me fascina é como cada upgrade altera a minha relação com o mundo. Começar com uma pá manual lenta e terminar com uma broca industrial que mastiga o solo como se fosse manteiga é um prazer quase divino. Ver o ambiente sendo terraformado em tempo real é uma mudança de paradigma mecânico que traz uma satisfação imensa, quase terapêutica.

A inteligência do design se manifesta em detalhes como o detector de metais integrado. Ele não é um ponteiro genérico na tela; ele emite bipes que aumentam de frequência conforme eu me aproximava de salas secretas ou das chaves escondidas. Isso transformava a escavação cega em uma caça ao tesouro guiada inteiramente pelo som, o que conversa perfeitamente com a imersão auditiva do PS5. E o urânio, com sua mecânica de decaimento de XP, criava uma urgência frenética que me forçava a continuar cavando para manter os meus ganhos. É um conjunto de regras impiedosas que demonstram uma compreensão profunda de como manter o jogador engajado através de micro-objetivos e feedbacks táteis constantes. Mesmo sendo um projeto de catorze dias, há mais competência aqui do que em muitos jogos que levam anos para serem concluídos.
O SOM DO VAZIO E AS CORES DA INOCÊNCIA
No campo estético, o jogo usa a Unreal Engine 5 para criar um contraste que eu achei simplesmente soberbo. O estilo visual é cartunesco, vibrante, com cores sólidas que exalam uma inocência quase infantil. Mas esse charme é a armadilha perfeita. Ele nos atrai com uma promessa de conforto para depois nos mergulhar em uma escuridão absoluta. No PlayStation 5, as cores saltam da tela, e o contraste entre o verde do gramado lá no topo e as profundezas iluminadas apenas pelo brilho azulado dos diamantes é de uma beleza melancólica. Não é um jogo de contagem de polígonos, mas sim de uma coesão artística admirável.

O áudio, contudo, é o verdadeiro protagonista da imersão. O trabalho sonoro é de uma competência que faz muitos estúdios AAA passarem vergonha. O som do vento uivando conforme eu descia mais e mais me fez sentir o frio do subsolo de forma física. Cada batida da pá na terra tinha um peso auditivo específico, e eu conseguia notar a diferença nos sons de caminhada dependendo da superfície, fosse na pedra da garagem ou na terra solta do buraco. É o tipo de detalhismo que eu chamo de bom gosto. No final, quando eu entrei na caverna das toupeiras e os sons das ferramentas silenciaram, o silêncio se tornou a minha maior ameaça. Eu passei a ouvir apenas os ruídos viscerais das criaturas, criando uma tensão que foi orquestrada inteiramente através do som. É extraordinário como o que não ouvimos pode ser tão poderoso quanto o que ouvimos.
O SOLUÇO DA UNREAL ENGINE 5
Falar de desempenho no hardware da Sony é esperar a perfeição, mas a realidade de A Game About Digging A Hole é um pouco mais matizada. Na maior parte do tempo, a experiência é de uma suavidade deliciosa, com taxas de quadros estáveis que tornam o ato de cavar algo hipnótico. No entanto, eu percebi alguns pequenos soluços técnicos. O jogo apresentava engasgos e travamentos específicos durante o carregamento de novas texturas ou na geração das camadas de voxels quando eu me movia rápido demais com o jetpack. Em um momento crítico, eu quase perdi a vida porque o frame rate deu um pulinho enquanto eu tentava desviar de uma pedra de magma. Foi frustrante, confesso, mas não o suficiente para arruinar a jornada.

A grande vitória técnica, sem dúvida, é o uso do SSD. As telas de carregamento são praticamente inexistentes, permitindo que a transição entre as profundezas do abismo e a garagem fosse feita sem costuras. Em um jogo baseado em um loop constante de ida e volta, essa fluidez é a espinha dorsal da experiência. E o controle DualSense é, novamente, o astro oculto. A vibração hática não é usada de forma genérica; eu senti o motor da broca vibrando de forma diferente conforme a resistência dos materiais, algo que adiciona uma camada de presença que o PC dificilmente replica com a mesma fidelidade. Ocupando pouco mais de trezentos megabytes, o jogo é um testemunho de eficiência e otimização, provando que não é preciso um tamanho colossal para entregar uma qualidade profissional.
A VALETA QUE CAVAMOS PARA NÓS MESMOS
O que resta quando a pá finalmente silencia e o buraco está feito? A Game About Digging A Hole é uma das surpresas mais genuínas e desconcertantes. Ele começa como um brinquedo, mas termina como um espelho que reflete as nossas maiores fragilidades. Eu achei de uma inteligência extraordinária a forma como o jogo usa a nossa própria sede de acúmulo contra nós, nos conduzindo pelo nariz até um final que é um verdadeiro soco no estômago. No PlayStation 5, ele encontrou a sua forma definitiva, transformando um simulador minimalista em uma obra de arte visceral sobre o isolamento e a exploração humana.

O estúdio Cyberwave demonstrou um critério e um cuidado que são raros hoje em dia, provando que catorze dias de paixão valem muito mais do que anos de desenvolvimento burocrático e sem alma. Eles criaram uma jornada que é curta, sim, mas que possui uma baita presença e que fica ressoando na mente muito depois dos créditos subirem. A imagem final do corretor de imóveis marcando a nossa morte como apenas mais uma estatística de lucro é a conclusão perfeita para esta fábula moderna. Nós somos os clientes, as vítimas e os jogadores que, ironicamente, cavariam tudo de novo apenas pela satisfação de ver a terra ceder. Dê a este jogo o tempo de um café, pois ele vai te entregar uma experiência que nenhum expresso no mundo seria capaz de proporcionar. Que jornada deliciosa, mundo. Que jornada extraordinariamente perturbadora.
NOTA
CONSIDERAÇÕES
A Game About Digging A Hole representa o triunfo do minimalismo sobre o excesso, transformando uma premissa mundana em uma experiência hipnótica e absolutamente visceral. No PlayStation 5, essa jornada de uma a três horas atinge sua forma definitiva através da resposta tátil do DualSense e da agilidade do SSD, culminando em uma sátira cruel sobre a ganância humana que é tão ridícula quanto satisfatória. É uma obra curta, mas carregada de uma alma imensa e de um critério técnico que faz cada centímetro de terra removida valer a pena.
