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Review | Retro Motel Simulator (PS5)

O Esplendor do Neon e a Melancolia do Asfalto: Uma Odisseia em Retro Motel Simulator

A gente vive um tempo na cultura pop, e especialmente nos videogames, em que somos constantemente bombardeados por promessas de mundos abertos infinitos, gráficos que desafiam a retina e narrativas que tentam, a todo custo, ser o próximo grande romance americano. Mas, de vez em quando, surge algo que decide olhar para o outro lado. Algo que decide olhar para a poeira acumulada no canto de um quarto de motel barato, para o zumbido irritante de um letreiro de neon que insiste em piscar e para a beleza melancólica de uma estrada que ninguém mais percorre. É exatamente nesse lugar de nostalgia tátil e realismo ligeiramente torto que se situa Retro Motel Simulator, uma experiência que eu tive o prazer, e às vezes a crise de ansiedade, de explorar em sua versão para o PlayStation 5.

Eu preciso confessar que existe algo de profundamente hipnótico no gênero dos simuladores de trabalho braçal. Há quem olhe de fora e ache um absurdo você sair do seu emprego para sentar no sofá e trabalhar de novo, limpando banheiros virtuais e gerenciando orçamentos de lavanderia. Mas Retro Motel Simulator entende que o segredo não está no trabalho em si, mas na sensação de ordem que a gente impõe ao caos. Ele nos transporta para a era dourada da beira de estrada americana, os anos sessenta e setenta, onde o cromo brilhava, as cores eram em tons pastel e o sonho da liberdade passava necessariamente por uma rodovia poeirenta. É um jogo que abraça o papel de parede descascando e os móveis desatualizados com um carinho que chega a ser comovente.

Retro Motel Simulator

O que me fascinou nesta versão de PS5 foi como ela tenta elevar essa premissa através da tecnologia. Não se trata apenas de olhar para o passado, mas de senti-lo. A gente entra naquele ambiente e, juro para você, parece que o cheiro de cigarro antigo e desinfetante barato vai sair pelos alto-falantes do Fone de Ouvido. É uma proposta que mistura gestão estratégica com uma manutenção em primeira pessoa que é tão física quanto emocional. Você não é apenas o dono, você é a alma daquele lugar que se recusa a morrer sob o peso do progresso. É fascinante, é quase terapêutico, mas também é um lembrete constante de que o tempo é o senhor mais cruel de todos.

O Peso do Legado do Tio Hank

A história de Retro Motel Simulator é um clássico conto de cuidado com o que você deseja. A gente assume as botas gastas de um herdeiro que acaba de descobrir que o suposto negócio próspero do Tio Hank é, na verdade, um desastre de relações públicas e uma paragem à beira da estrada que viu dias melhores há pelo menos vinte anos. O motel consiste em apenas alguns quartos decrépitos, uma recepção que parou no tempo em 1970 e uma placa que estala melancolicamente ao vento, implorando por uma reforma que o Tio Hank claramente nunca teve coragem ou meios para fazer.

Mas é aqui que a narrativa mostra seu valor. Em vez de ser apenas um tutorial glorificado, o enredo se desenrola através dos hóspedes. E que hóspedes! A gente lida com um elenco rotativo de locais e viajantes que são, para dizer o mínimo, figuras pitorescas. A escrita do jogo é de uma competência notável, equilibrando um humor ácido com uma certa ternura pela decadência. Temos desde teóricos da conspiração que juram que o quarto sete é um portal para outra dimensão até motoqueiros que tratam suas máquinas como se fossem membros da família real. Existe uma humanidade latente ali, no meio daquela sujeira toda.

Retro Motel Simulator

Eu achei fascinante como o jogo usa esses personagens para construir o mundo. Eles deixam bilhetes, fazem pedidos absurdos e às vezes simplesmente desaparecem no meio da noite sem pagar a conta. Há uma alma ali. Você sente que cada mancha no carpete conta uma história de alguém que passou por aquela rodovia esquecida. O objetivo é claro: reconstruir a reputação desse lugar, transformando um barraco de beira de estrada em um marco histórico da Americana. É uma jornada pessoal, quase uma missão de redenção para a família, onde cada hóspede satisfeito é uma pequena vitória contra o esquecimento e contra a irrelevância que ameaça engolir o nosso pequeno império de asfalto.

A Poética da Faxina e do Cuidado

Quando a gente fala de gameplay em Retro Motel Simulator, a gente precisa falar de mãos sujas. O jogo brilha ao nos colocar em uma perspectiva de primeira pessoa para realizar as tarefas mais mundanas, e é surpreendente como isso se torna viciante. Você não apenas clica em um botão para limpar um quarto, você sente o processo. Há uma conexão tátil, quase íntima, com a sujeira e o progresso. A gente limpa manchas, recolhe lixo, combate pragas e, em um dos momentos mais satisfatórios, usa mini-games para consertar eletrodomésticos que parecem ter vida própria e uma vontade férrea de nos enlouquecer.

Essa abordagem tátil é o que realmente separa o jogo de simuladores mais genéricos e frios que vemos aos montes por aí. No PS5, essa sensação de esforço físico é amplificada. Cada vez que você pega a vassoura ou o spray de limpeza, o jogo te lembra que gerenciar um motel não é apenas olhar para planilhas frias em um monitor, é estar presente no campo de batalha do cotidiano. E existe uma satisfação genuína, quase infantil, em ver um quarto passar do estado de total abandono para um ambiente acolhedor, com cores pastel e móveis de cromo brilhando sob a luz suave. É a beleza do restauro.

Retro Motel Simulator

Mas o jogo não te deixa relaxar na sua bolha de limpeza por muito tempo. O gerenciamento de hóspedes é uma fonte constante de dilemas morais e práticos. Alguns hóspedes são o que eu chamaria carinhosamente de pavorosos. Eles destroem os quartos, fazem barulho e testam cada fibra da nossa paciência. E aí entra o sistema de reputação, que é a verdadeira moeda do jogo. Se você falha na limpeza, se o barulho é excessivo ou se você simplesmente não atende aos caprichos mais bizarros dos clientes, sua nota despenca nas avaliações. É um loop de feedback constante que nos mantém sempre em movimento, circulando pelo motel como um zelador incansável que sonha, talvez ingenuamente, em ser um magnata.

A Arquitetura da Sobrevivência e da Vaidade

As mecânicas de Retro Motel Simulator são um deleite para quem, como eu, tem um fraco por design de interiores e gestão de recursos sob pressão. O sistema de renovação é robusto e permite que você imprima sua personalidade em cada quarto. Você pode escolher entre estilos Tiki, Western, Neon Noir ou a clássica estética Roadside Americana. E o mais interessante é que essas escolhas não são meros caprichos estéticos para o seu prazer pessoal. Cada estilo atrai tipos específicos de viajantes, desde famílias em férias até hipsters em busca de uma experiência autêntica e instagramável antes mesmo do Instagram existir.

Eu achei de uma inteligência enorme como o jogo interliga a decoração com a funcionalidade mais básica. Certos layouts de móveis reduzem o ruído entre as paredes, o que é vital quando você tem um grupo de motoqueiros barulhentos ao lado de uma família com crianças pequenas. Além disso, a economia do jogo é apertada, especialmente nas primeiras horas. Você se vê constantemente diante de escolhas cruéis: comprar aquela nova máquina de lavar que vai facilitar sua vida ou investir em uma campanha de marketing para atrair clientes que pagam melhor? É a gestão da escassez em sua forma mais pura e desesperadora.

Retro Motel Simulator

Existe também o desafio de lidar com as demandas peculiares dos hóspedes, o que o jogo chama de eventos aleatórios. Às vezes, você se depara com o que os desenvolvedores chamam de blocos de clientes redneck que, ironicamente, começam a pedir itens de luxo como máscaras faciais e chinelos de banho de seda. É nesse tipo de contraste que o jogo encontra seu humor e sua identidade única. Você está ali, em um motel que mal tem água quente constante, tentando explicar para um viajante rude por que você ainda não tem pantufas de seda disponíveis na recepção. É um exercício de diplomacia de beira de estrada que eu achei simplesmente delicioso e, por vezes, hilário.

O Zumbido Hipnótico do Neon e a Estética do Ontem

Visualmente, Retro Motel Simulator no PlayStation 5 é uma pequena joia de direção de arte. Ele não tenta competir com os fotorrealismos de orçamentos milionários, mas sim criar um senso de estilo que é absoluto e inegociável. O uso de uma estética low-poly com detalhes retro cria um ambiente que é, ao mesmo tempo, estilizado e profundamente autêntico. Os neons desbotados, as luzes das máquinas de venda automática brilhando na escuridão do estacionamento e as sombras projetadas pelos faróis dos carros que passam pela rodovia criam uma atmosfera de uma beleza melancólica que é difícil de descrever sem parecer excessivamente poética.

A noite no jogo é o meu momento favorito, sem dúvida. Existe algo de reconfortante e, ao mesmo tempo, solitário em ver o motel iluminado no meio do nada, como um farol para os perdidos. O som ambiente é um espetáculo à parte: o zumbido dos insetos, o tráfego distante na rodovia que nunca para, o som abafado de uma jukebox vindo de algum quarto onde alguém celebra a própria solidão. O áudio é meticuloso, capturando texturas como o rangido das portas e o som do spray de limpeza de uma forma que aumenta a imersão tátil da experiência.

Retro Motel Simulator

E a trilha sonora? Ah, que escolha maravilhosa eles fizeram! Ela flutua entre o dedilhar suave de guitarras que evocam o deserto, sintetizadores inspirados nos anos setenta e até uma orquestra ao vivo dos anos sessenta que toca enquanto os hóspedes dançam na recepção em momentos de alta popularidade. É um cuidado sonoro que a gente raramente vê em produções independentes desse porte. O jogo não quer apenas que você jogue, ele quer que você habite aquele espaço, que você sinta a vibração daquela era através da música e dos ruídos cotidianos que compõem a sinfonia da beira de estrada.

O Pulso do Silício e o Toque do DualSense

Falando especificamente do desempenho no PlayStation 5, eu preciso destacar como o controle DualSense é utilizado de forma brilhante para quebrar a barreira entre o jogador e o trabalho virtual. O feedback háptico é um diferencial que transforma cada tarefa. Você sente a resistência do gatilho ao pintar as paredes, a vibração específica de cada martelada e até o movimento sutil da vassoura no chão. É uma implementação que traz uma fisicalidade ao jogo que eu achei genuinamente inovadora para o gênero, provando que a imersão pode vir de gestos simples.

Tecnicamente, o jogo se comporta muito bem no console. As luzes de neon e as sombras dinâmicas ganham uma nitidez que ajuda muito na imersão noturna, fazendo com que cada reflexo nas poças de óleo no estacionamento pareça uma pintura. Além disso, os tempos de carregamento são praticamente inexistentes graças ao SSD, o que é uma benção em um jogo onde você está constantemente entrando e saindo de quartos e menus de gestão.

Retro Motel Simulator

Entretanto, nem tudo é perfeição tecnológica no nosso paraíso de neon. O jogo ainda sofre com alguns problemas de navegação dos hóspedes, que às vezes decidem que ficar parados contra uma parede encarando o nada é a melhor forma de passar a noite. A automação dos funcionários também pode ser um pouco temperamental, exigindo que você intervenha mais do que o esperado em momentos de pico para evitar o colapso total. Mas são pequenos soluços em uma experiência que, no geral, é de uma competência técnica muito satisfatória e que respeita profundamente o hardware em que está rodando, extraindo dele o que há de melhor para a imersão.

A Redenção na Beira da Estrada

Retro Motel Simulator é uma daquelas surpresas que nos lembram por que a gente continua buscando novas experiências nos videogames. Ele é um jogo que entende o valor do pequeno, do pessoal e da beleza que existe na imperfeição. Ele nos convida a cuidar de algo que o mundo esqueceu, a transformar a poeira em brilho e a decadência em estilo. Não é apenas um simulador de gestão, é um exercício de paciência, criatividade e, de certa forma, de amor por uma era que não volta mais, mas que se recusa a desaparecer por completo dos nossos corações.

Eu saí dessa experiência com a sensação de que cada quarto reformado e cada hóspede satisfeito era uma pequena vitória contra a frieza do mundo moderno. No PlayStation 5, o jogo ganha uma dimensão tátil que o torna único, transformando o trabalho duro em uma coreografia de vibrações e sons que acalmam a alma. É inovador e revolucionário? Talvez não em sua estrutura básica, mas na forma como ele nos faz sentir responsáveis por aquele pequeno pedaço de asfalto e neon, ele é absolutamente extraordinário e necessário.

Retro Motel Simulator

Se você procura um jogo para desligar o mundo e mergulhar em uma nostalgia palpável, se você gosta da ideia de ser o guardião de um legado torto e se você aprecia a beleza de um letreiro de neon brilhando na escuridão do deserto, Retro Motel Simulator é um destino obrigatório. É uma experiência tátil, melancólica e profundamente recompensadora que vai ficar ecoando na sua cabeça como o som de uma jukebox antiga tocando sua música favorita no meio da noite. No fim das contas, a gente descobre que o Tio Hank estava certo de um jeito que ele mesmo não entendia: aquele motel não era apenas um negócio, era um lugar onde as histórias aconteciam, e cabe a nós garantir que a última luz nunca se apague.

NOTA

8.5
★★★★★★★★★★

CONSIDERAÇÕES

É inovador e revolucionário? Não. Mas o critério e o cuidado em transformar a decadência em algo tão reconfortante e tátil fazem dele uma experiência excepcional. Entre o zumbido do neon e o cheiro de desinfetante virtual, o jogo supera as expectativas ao nos dar um refúgio de nostalgia pura, apesar dos pequenos soluços técnicos que ainda pedem uma reforma. É, do meu ponto de vista pessoal, uma pequena obra-prima do cotidiano que merece sua atenção.

Gustavo Feltes
Gustavo Feltes
Eu amo jogar, jogar é uma parte de mim. Cada história, momento, universo e gameplay me encantam. Eu não tenho restrições de jogos, cada célula do meu corpo clama por isso.
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