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Review | QANGA (PC)

O Eco do Silício e o Vácuo das Estrelas

Sempre me fascinou a audácia quase suicida de certos projetos independentes que decidem peitar os gigantes da indústria em seu próprio terreno de jogo. Quando eu me deparei com Qanga pela primeira vez, a sensação foi exatamente essa: a de observar um pequeno grupo de cinco desenvolvedores da iolaCorp Studio tentando construir, com as próprias mãos e muito suor digital, aquilo que corporações bilionárias ainda lutam para entregar com total coesão. É um projeto que carrega o rótulo inevitável de ser um Star Citizen feito em casa, mas que, ao invés de se perder em promessas infinitas, entrega uma experiência bruta, tátil e estranhamente melancólica sobre o que significa ser humano quando o corpo já não é mais carne. Eu me vi mergulhado em um simulador espacial que não pede licença para ser difícil e que, por meio de uma escala de um para dois de todo o nosso sistema solar, faz com que a gente se sinta tão minúsculo quanto realmente somos diante do cosmos. A proposta é clara: uma exploração sem interrupções, sem telas de carregamento, onde o horizonte que você vê da janela da sua nave é, de fato, um lugar onde você pode pousar.

Qanga

O Peso das Consciências Geladas

A narrativa de Qanga não é algo que se receba de bandeja por meio de cinemáticas pomposas ou diálogos expositivos intermináveis. Eu percebi que ela está impregnada no ar denso das estações e no silêncio das ruínas terrestres. O ano é 2755, mas a tragédia começou muito antes, em 2180, quando a humanidade finalmente esgotou o que a Terra tinha a oferecer e mergulhou em um conflito global que beirou a extinção. O que me tocou profundamente foi a premissa de que nós, os jogadores, somos consciências humanas preservadas pelo programa CRYO19 da ICLabs Industries, agora despertas em corpos sintéticos, ciborgues que servem como receptáculos para mentes que talvez devessem ter descansado séculos atrás. Existe uma tristeza intrínseca em caminhar por Yellow Wall City, aquela fortaleza monumental erguida sobre os oceanos, sabendo que ela é o último baluarte de uma espécie que agora depende de circuitos para continuar sonhando.

Qanga

O envolvimento emocional surge dessa solidão compartilhada com o metal. Eu senti que o jogo trata o tema da pós-humanidade com uma sobriedade rara, mostrando um mundo onde a natureza retomou o seu espaço, mas de uma forma distorcida e hostil. As Sanglines, aquelas criaturas nascidas de mutações bacterianas liberadas pelo degelo das calotas polares, não são apenas inimigos para serem abatidos, elas são o lembrete vivo de que o planeta seguiu em frente e nós somos agora os intrusos. A coerência desse universo me pareceu sólida justamente porque ele não tenta nos vender um heroísmo barato. Nós somos apenas operários de um futuro quebrado, tentando encontrar sentido em relíquias de um século vinte que agora parecem tão distantes quanto as estrelas que buscamos colonizar.

A Coreia da Solidão Espacial

Entrar no cockpit de uma nave em Qanga e sentir a transição contínua entre a atmosfera e o vácuo absoluto é uma das experiências mais libertadoras que eu já tive em um PC. O ritmo do jogo é deliberadamente lento, respeitando a inércia e a vastidão do espaço, o que pode afastar quem busca uma ação imediata e frenética. Eu notei que a sensação de controle é marcada por uma simulação fiel: cada manobra conta e a falta de domínio sobre os sistemas da nave pode resultar em um desastre silencioso contra a crosta de um asteroide ou a superfície de uma lua desolada. Essa decisão de design de não segurar a mão do jogador é o que confere ao título uma dignidade que muitos jogos de grande orçamento perderam na tentativa de serem acessíveis a todos.

Qanga

A interação com o mundo é pautada por uma necessidade constante de exploração e coleta de recursos, o que cria um ciclo de jogo que alterna entre a contemplação espacial e a tensão terrestre. Eu me vi vagando por planetas como Marte e Vênus, cada um com sua gravidade e atmosfera únicas, sentindo que o ambiente é o meu maior adversário. O jogador não apenas viaja, ele habita aquele sistema solar, construindo bases em locais improváveis e tentando gerenciar a escassa Matéria que mantém o seu corpo cibernético funcional. É um gameplay que exige paciência e uma certa disposição para abraçar a aspereza técnica de um projeto que ainda está em fase de acesso antecipado, com todas as suas idiossincrasias e momentos de estranheza.

O Elo Frágil da Matéria

Ao descer aos detalhes das mecânicas, o que mais me surpreendeu foi o sistema de drones. Em Qanga, a visão em terceira pessoa não é apenas um ajuste de câmera, é uma ferramenta tecnológica. O drone que nos acompanha permite uma perspectiva tática essencial para sobreviver aos combates, mas ele é destrutível. Eu perdi a conta de quantas vezes me senti genuinamente vulnerável ao ver meu drone ser abatido, sendo forçado a retornar à visão limitada em primeira pessoa no meio de um tiroteio contra as Sanglines. É uma mecânica que traz um peso real para a tecnologia que nos sustenta. No entanto, nem tudo são flores na engenharia da iolaCorp. A mecânica de movimentação terrestre, especialmente com o hoverbike, é uma fonte constante de frustração. Ele tem uma tendência irritante de capotar ao encontrar qualquer pequena irregularidade no terreno, o que quebra o fluxo de exploração e me fez desejar, por vezes, apenas caminhar para evitar o estresse.

Qanga

A gestão da Matéria, o recurso que regenera nosso corpo e alimenta o jetpack, é o que realmente dita o tom da sobrevivência. Eu achei fascinante como o jogo nos obriga a reciclar lixo do passado para continuar operando no futuro. Encontrar itens cotidianos do século vinte em lojas de penhores e transformá-los em energia para um ciborgue cria uma conexão temática poderosa com a história do jogo. O sistema de construção de bases também é ambicioso, permitindo que a gente transforme qualquer pedaço de rocha espacial em um posto avançado, embora a interface para tal ainda sofra com uma certa falta de polimento que torna o processo mais burocrático do que deveria ser. É uma experiência que cansa pela repetição em alguns momentos, mas que surpreende pela liberdade absoluta que oferece.

O Brilho Sujo do Amanhã

Visualmente, Qanga é um paradoxo que me encantou. Ele utiliza o motor Unreal Engine com uma sensibilidade que prioriza a atmosfera sobre a perfeição técnica. A iluminação via Lumen cria horizontes que são verdadeiras pinturas de um futuro desolado, com uma névoa volumétrica que dá peso aos ambientes de Yellow Wall City e das torres de reabastecimento. A direção artística foge do futurismo limpo e abraça um realismo sujo, onde o metal está enferrujado e as cidades parecem estar em um estado de decadência perpétua. Eu senti que a identidade visual do jogo comunica muito bem a ideia de uma humanidade que está apenas tentando sobreviver com as sobras do que um dia foi grandioso.

Já o áudio é um ponto que me causou um certo desconforto, embora eu entenda as limitações da equipe. A trilha sonora consegue capturar a melancolia do espaço, mas a utilização confessada de inteligência artificial para as vozes e algumas composições musicais tira um pouco da alma que um projeto tão autoral deveria ter. Há algo de robótico demais nas interações, o que, ironicamente, até faz sentido para um mundo de ciborgues, mas que falha em entregar o calor humano que tornaria os raros encontros com outros sobreviventes mais impactantes. A ambientação sonora dos cockpits e dos planetas, contudo, é muito bem executada, com ruídos de sistemas falhando e o vento cortante de mundos gelados contribuindo para uma imersão sensorial que compensa as falhas das dublagens sintéticas.

O Silício sob Pressão

Eu testei Qanga exclusivamente em uma configuração que considero um excelente equilíbrio para o jogador de PC moderno: um Ryzen 7 5700X, uma RTX 4060 e 32 GB de RAM. Devo ser honesto, a otimização atual é um desafio mesmo para esse hardware. O processador da AMD lida bem com a carga de processamento do universo persistente, mas a RTX 4060 é exigida ao máximo para manter a fluidez em áreas densas como a capital terrestre. Em 1080p, com as configurações no alto e o DLSS ativado, eu consegui uma experiência estável na maior parte do tempo, mas os picos de temperatura tanto na CPU quanto na GPU são reais e exigem uma boa ventilação do gabinete. O jogo é um devorador de VRAM e os 8 GB da 4060 são o limite absoluto para não sofrer com engasgos durante as transições planetárias.

Qanga

Os 32 GB de RAM se provaram essenciais. Eu percebi que o jogo aloca uma quantidade generosa de memória para garantir que as transições entre o espaço e a superfície dos planetas ocorram sem aquelas famosas travadinhas de carregamento de ativos. Em termos práticos, a experiência é fluida o suficiente para ser aproveitada, mas o jogador precisa estar ciente de que Qanga ainda é um software bruto. Houve momentos em que a taxa de quadros caiu bruscamente ao me aproximar de Yellow Wall City, sugerindo que a otimização dos polígonos e das texturas dos ativos comprados em lojas digitais ainda não está no nível de um produto finalizado. É uma performance honesta para o que se propõe, mas que deixa claro que o poder bruto do silício não substitui o trabalho de refinamento que a equipe ainda tem pela frente.

O Eco nas Estrelas

Ao final da minha jornada, o que fica de Qanga não são os bugs ocasionais ou a interface que às vezes parece lutar contra o jogador, mas sim a coragem de sua existência. É um jogo que me fez refletir sobre a persistência da memória e sobre como a tecnologia, por mais avançada que seja, nunca conseguirá preencher totalmente o vazio deixado pela perda da nossa conexão com a terra firme. A conclusão que eu tiro é a de que estamos diante de um título que, apesar de suas arestas cortantes, possui uma dignidade que falta em muitas superproduções vazias. Ele é um lembrete de que a exploração espacial é, em sua essência, um ato de solidão e de busca por algo que talvez tenhamos deixado para trás há muito tempo.

Qanga

A iolaCorp Studio entregou algo que é mais do que a soma de suas partes técnicas. Qanga é um estado de espírito, uma elegia cibernética para um sistema solar que parou de nos esperar. Eu saio dessa experiência convencido de que, para quem tem a paciência de aprender suas regras e a sensibilidade de enxergar a beleza em meio ao metal enferrujado, há um universo de descobertas que vale cada minuto de frustração. É uma obra que não busca a perfeição, mas sim a verdade de sua própria ambição. No silêncio entre os planetas, enquanto eu observava a luz de um sol distante refletida no meu visor sintético, eu senti que, apesar de tudo, ainda havia algo de profundamente humano naquele emaranhado de cabos e silício. E é exatamente esse eco de humanidade que torna Qanga uma experiência impossível de esquecer.

NOTA

7.0
★★★★★★★★★★

CONSIDERAÇÕES

Qanga é um milagre de ambição técnica e solidão poética, operado por uma equipe de apenas cinco desenvolvedores que conseguiram entregar uma escala que gigantes da indústria ainda prometem. É uma experiência obrigatória para quem valoriza a liberdade absoluta e o silêncio do cosmos, mas que ainda exige uma boa dose de paciência para lidar com a aspereza técnica e o "jank" inevitáveis de um acesso antecipado. O jogo tem alma, mas ela ainda está tentando se encontrar em meio ao metal e às vozes sintéticas.

Gustavo Feltes
Gustavo Feltes
Eu amo jogar, jogar é uma parte de mim. Cada história, momento, universo e gameplay me encantam. Eu não tenho restrições de jogos, cada célula do meu corpo clama por isso.
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