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Review | UFOPHILIA (PS5)

O Abismo que nos Observa de Volta

É inovador e revolucionário? No sentido estrito da palavra, talvez UFOPHILIA não pretenda reinventar a roda do horror, mas a forma como ele escolhe girá-la é de uma precisão que, confesso, me deixou com uma pontinha de ansiedade genuína. O título do k148 Game Studio, que agora aterrissa no PlayStation 5, é um exercício de rendição. Em um mercado saturado por sustos coreografados e monstros que parecem saídos de um desfile de carnaval macabro, este jogo propõe algo muito mais insidioso: a paranoia da observação constante.

UFOPHILIA

Mergulhar em UFOPHILIA é aceitar que a sua presença em locais isolados é um erro de julgamento que será cobrado por inteligências que simplesmente não operam sob a nossa lógica. Aqui, o PlayStation 5 deixa de ser apenas um console e se transforma em uma janela para um abismo ufológico que é, simultaneamente, fascinante e repulsivo. Não estamos aqui para “vencer” alienígenas; estamos aqui para provar que eles existem, mesmo que isso custe cada grama da nossa sanidade.

A ARQUEOLOGIA DA OBSESSÃO

A narrativa de UFOPHILIA não se manifesta por longas exposições ou diálogos didáticos. Pelo contrário, ela é contada nos espaços vazios e no silêncio perturbador de acampamentos abandonados às pressas. Eu controlei um investigador cuja obsessão é o motor de tudo. Não é um herói, é um homem cujo discernimento foi corroído pela necessidade de documentar o impossível. Existe uma melancolia intrínseca nessa jornada; a sensação constante de que estamos sempre um passo atrás de um evento que já mudou o mundo, enquanto o resto da humanidade insiste em olhar para o lado.

UFOPHILIA

O que me fisgou de verdade foi o sistema de interrogatório. O jogo nos apresenta sete convidados, cada um com um depoimento que serve como uma peça de um quebra-cabeça traumático. Ao ouvir esses NPCs, eu não estava apenas coletando dados técnicos, eu estava mergulhando em traumas pessoais causados pelo contato imediato. É uma escolha narrativa brilhante: analisar as inconsistências nos relatos para deduzir qual das nove espécies de visitantes está assombrando a região. É um horror de dedução, onde o papel de detetive do oculto é levado a sério, e cada descoberta parece uma dívida de jogo que você nunca vai conseguir pagar por completo.

A CADÊNCIA DO MEDO

O ritmo de UFOPHILIA é um triunfo da paciência sobre o caos. O gameplay é estruturado em quatro fases que emulam o rigor de uma investigação científica sob pressão extrema. Começamos na segurança da van, escolhendo o local da missão, mas essa segurança é ilusória. A transição para a exploração de campo é onde o jogo começa a apertar o cerco. A necessidade de identificar o alienígena e localizar a zona de spawn exige uma mente analítica, algo que eu adorei encontrar num gênero que costuma privilegiar os reflexos rápidos.

UFOPHILIA

Mas é na Fase 4 que o jogo realmente mostra a que veio. Quando o alienígena finalmente se torna visível, a experiência deixa de ser um simulador de investigação e se transforma em um horror de sobrevivência puro. E aqui está o “pulo do gato”: não há combate. A sua única defesa é o conhecimento. Se você não estudou os padrões de comportamento da espécie que está caçando, você não é o investigador, você é a presa. É um sistema que recompensa a preparação e pune o descaso de forma severa, garantindo que cada fotografia capturada sob o risco de abdução tenha o peso de uma vitória monumental.

O PESO DA TECNOLOGIA

As mecânicas orbitam o uso de ferramentas que tentam quantificar o sobrenatural. Medidores de EMF, câmeras de visão noturna, microfones de longo alcance… é um arsenal que parece saído de um documentário do History Channel, mas com uma camada de profundidade que eu achei fascinante. O jogo não te pega pela mão. Existe uma sinergia entre os dispositivos que você precisa descobrir por conta própria. É gratificante perceber, por exemplo, que certos sensores funcionam melhor quando posicionados em ângulos específicos ou combinados com leituras de frequência cardíaca.

UFOPHILIA

O gerenciamento de inventário é outro ponto que eleva a tensão. Você só pode carregar duas ferramentas por vez. Isso me forçou a fazer constantes viagens de volta à van, aumentando a minha exposição ao perigo e reforçando a sensação de isolamento. O software UFOPHILIA, que rodamos no laptop, é o centro nervoso da experiência. Cruzar dados para estreitar as possibilidades de identificação é um processo quase meditativo, se não fosse pelo fato de que algo está arranhando a lataria do seu veículo enquanto você tenta ler os gráficos.

UMA SINFONIA DE SOMBRAS

Visualmente, UFOPHILIA no PS5 faz um uso soberbo da iluminação global. Os sete cenários — que vão de casas rurais claustrofóbicas a delegacias desertas — são desenhados para que o que você não vê seja tão aterrorizante quanto o que está diante dos seus olhos. O design dos alienígenas foge dos clichês de “homenzinhos verdes”, apresentando formas que variam de entidades etéreas a criaturas com uma fisicalidade perturbadora que parece desafiar as leis da biologia.

UFOPHILIA

No entanto, é no design de áudio que o jogo atinge o ápice da imersão. É uma tapeçaria sonora de ruídos sutis, estalidos de interferência e sussurros que parecem vir de lugares impossíveis. O suporte ao áudio 3D do PS5 é, francamente, covardia. Eu conseguia localizar exatamente de onde vinha aquele som de passos metálicos no telhado, o que só servia para aumentar o meu pânico. A trilha sonora é contida, pontuando apenas os momentos de desespero absoluto, deixando que o silêncio e o chiado do rádio façam o trabalho pesado de destruir os seus nervos.

A RESPOSTA TÁTIL DO HORROR

No PlayStation 5, o desempenho técnico é impecável, mas o verdadeiro destaque é a implementação do DualSense. A resposta tátil transforma o controle em uma extensão sensorial das suas ferramentas. Quando o medidor de EMF detecta uma anomalia, você sente uma vibração pulsante e direcional que é de uma precisão impressionante. Os gatilhos adaptáveis também brilham, oferecendo resistência ao focar a lente da câmera ou ao operar equipamentos que exigem calibração. É aquela camada extra de imersão que faz você sentir a tensão física do seu personagem.

UFOPHILIA

O jogo roda com uma estabilidade de 60 FPS que é essencial para a precisão exigida nos encontros finais. Os carregamentos são praticamente instantâneos graças ao SSD, o que mantém o ciclo de investigação fluido e sem interrupções que poderiam quebrar a atmosfera. É um produto tecnicamente sólido, polido e pensado para extrair o melhor do hardware da Sony, garantindo que o seu foco permaneça inteiramente na paranoia ufológica.

UFOPHILIA

O ABISMO QUE NOS HABITA

UFOPHILIA é uma obra que nos ensina algo fundamental sobre a curiosidade humana: ela pode ser a nossa maior virtude ou a nossa ruína definitiva. É uma experiência que trata o folclore ufológico com uma seriedade artística rara, elevando o tema de simples conspiração para um terror existencial profundo. Ao final de cada missão, seja você coroado como um Agente de Roswell ou humilhado como um simples teórico de fórum, a sensação que fica é a de uma marca indelével na sua percepção do mundo.

UFOPHILIA

O jogo nos lembra que o verdadeiro horror não é o encontro com o alienígena, mas a descoberta de que nunca estivemos sozinhos e que, durante milênios, fomos apenas figurantes em uma peça escrita por estrelas indiferentes. Para quem tem a coragem de olhar para o céu e a disciplina de manter a lente focada enquanto a realidade se desfaz, UFOPHILIA é obrigatório. É um convite para o abismo que, depois de tanto tempo sendo ignorado, finalmente decidiu nos observar de volta — e ele não parece nem um pouco satisfeito com o que viu.

NOTA

8.5
★★★★★★★★★★

CONSIDERAÇÕES

UFOPHILIA é um exercício primoroso de atmosfera, que troca o susto fácil pela paranoia constante de ser o objeto de estudo de algo que desafia a nossa lógica humana. É um título que recompensa a paciência e a observação minuciosa, utilizando o hardware do PS5 para transformar uma investigação técnica em um fardo físico e psicológico quase palpável. No fim das contas, é uma obra que nos lembra que a curiosidade é uma faca de dois gumes, especialmente quando o abismo resolve, enfim, acender as luzes e nos observar de volta.

Gustavo Feltes
Gustavo Feltes
Eu amo jogar, jogar é uma parte de mim. Cada história, momento, universo e gameplay me encantam. Eu não tenho restrições de jogos, cada célula do meu corpo clama por isso.
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