Olha, é fascinante e, confesso, um tanto inquietante o que acontece quando abrimos a porta para o desconhecido. Codex Mortis não se apresenta apenas como um jogo; ele se impõe como um sintoma agudo de uma era que ainda não sabemos muito bem como batizar. O título, assinado pelo desenvolvedor Grolaf, carrega consigo uma audácia quase acintosa: a promessa de ser o primeiro “100% gerado por inteligência artificial”. Ao sentar diante do meu PC para essas primeiras impressões, senti aquela curiosidade mórbida que nos acomete diante de algo que desafia a nossa própria definição de autoria. É um bullet hell de sobrevivência necromântica que tenta, com cálculos precisos e uma estética febril, mimetizar a centelha da criatividade humana.

Fragmentos de uma Memória Inventada
A premissa narrativa de Codex Mortis funciona como uma moldura gótica para o caos absoluto. Assumimos o papel de um necromante — uma escolha de classe deliciosamente irônica, já que estamos aqui tentando reanimar códigos e artes gerados por algoritmos — que precisa reunir cinco páginas antigas de um tomo proibido. O objetivo é derrotar o guardião do portal, mas o que realmente injeta urgência na experiência é Lothar, um caçador imortal que nos persegue de forma implacável. Existe uma poesia trágica nesse enredo: a busca por conhecimento proibido enquanto se foge de uma ameaça que nunca cansa. É funcional, é direto, mas carrega uma melancolia de um mundo que parece ter sido “sonhado” por uma máquina que nunca dormiu.

A Orquestra do Caos Sistêmico
No que diz respeito ao ato de jogar, estamos em um território familiar, mas com um tempero de estranheza. O ciclo de gameplay remete imediatamente a sucessos como Vampire Survivors, mas com um foco muito mais agudo na fase de preparação. Antes de a carnificina começar, você precisa montar seu “esquadrão da morte”. O jogo te convida a ser um arquiteto da destruição, planejando como cada feitiço vai reagir ao próximo. É dinâmico, é barulhento e, acima de tudo, exige uma capacidade estratégica de gerenciar o redemoinho de projéteis que domina a tela. Não é apenas sobre sobreviver; é sobre ver se a sua lógica de combate resiste à avalanche de mortos-vivos que o algoritmo lança em sua direção.

Alquimia e Sinergias Proibidas
As mecânicas se dividem em cinco escolas de magia negra: Necromancia, Invocação, Magia de Sangue, Magia de Almas e Maldições. O que me chamou a atenção nessas primeiras horas foi a profundidade das sinergias. Quando você combina Magia de Sangue com Necromancia, o resultado são explosões incinerantes que limpam a tela em segundos. É uma “alquimia digital” que funciona surpreendentemente bem. O sistema de rituais e a coleta de urnas de heróis caídos adicionam camadas de progressão que mantêm o interesse vivo. É gratificante ver o plano que você traçou se desdobrar em uma sinfonia de ossos e luzes, provando que, mecanicamente, o jogo sabe exatamente onde quer chegar.
O Vale da Estranheza Estética
Visualmente e sonoramente, Codex Mortis habita o que chamamos de “vale da estranheza”. A pixel art tem uma qualidade onírica, mas é repleta de artefatos típicos da geração por IA. As animações, por exemplo, não são frames desenhados, mas um “balanço” via shaders que dá a tudo um aspecto gelatinoso e inquietante. A trilha sonora é uma massa sonora de tensão constante, mas que carece de um tema que você assobiaria depois de desligar o monitor. É uma beleza bruta, um tanto fragmentada, que nos lembra a cada segundo que não houve uma mão humana decidindo onde cada sombra deveria cair. É fascinante, mas deixa um certo vazio estético que só o erro humano consegue preencher.
O Vigor do Silício no Hardware
Tive o privilégio de rodar essa experiência em um Ryzen 7 5700X, com uma RTX 4060 e generosos 32 GB de RAM. O resultado, como não poderia deixar de ser, foi de uma fluidez absoluta. O jogo é extremamente leve e responde aos comandos com uma precisão cirúrgica, o que é vital para um gênero onde o caos pode se tornar ilegível em segundos. Não houve engasgos, nem quedas de quadros, mesmo quando a tela estava saturada de partículas e hordas inimigas. É uma performance impecável que permite que você se concentre totalmente na coreografia da morte que está sendo encenada.

O Crepúsculo da Intenção
Concluir sobre Codex Mortis nestas primeiras impressões é aceitar que estamos diante de um marco zero. Ele não é a obra-prima que salvará o gênero, nem o vilão que destruirá a indústria, mas é um espelho. Ele reflete a nossa sede por eficiência e o nosso medo da obsolescência. O que fica na memória não são os sprites trêmulos, mas o peso do precedente. Se este é o primeiro passo de uma inteligência que “vibra” códigos e artes, o que nos resta é o papel de observadores e jogadores. Codex Mortis nos desafia a olhar para o abismo do silício e perguntar: quando as máquinas puderem sonhar com necromantes, ainda haverá espaço para os nossos próprios fantasmas? É uma experiência que incomoda tanto quanto diverte, e talvez seja exatamente esse o seu maior triunfo.
