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Review | Side Effects (PC)

A Roleta da Carne e a Indiferença Clínica de Side Effects

Eu confesso que existe algo de profundamente perturbador na forma como a indústria independente tem explorado a nossa vulnerabilidade biológica ultimamente. Quando abri Side Effects pela primeira vez em meu PC, não pude deixar de sentir um calafrio familiar, aquele tipo de desconforto que surge quando percebemos que estamos prestes a nos tornar cobaias de um experimento que não solicitamos. O jogo, desenvolvido pelo coletivo liderado por hirohun e publicado pela sempre audaciosa Free Lives, apresenta-se como uma espécie de sucessor espiritual, ou talvez um primo distante e muito mais cruel, do fenômeno Buckshot Roulette. Mas aqui, a pólvora e o aço são substituídos pela química e pela fisiologia, o que, para mim, torna tudo infinitamente mais íntimo e apavorante.

A proposta é de uma crueza absoluta: você e mais três indivíduos, ou apenas você e uma inteligência artificial que parece gozar de um conhecimento proibido, sentam-se ao redor de uma mesa de metal frio em uma clínica que exala um abandono higienizado. O objetivo é sobreviver a uma roleta russa farmacêutica, onde cada rodada nos oferece uma bandeja de comprimidos que podem ser placebos, substâncias benéficas ou a morte instantânea. É uma experiência que me prendeu não pelo espetáculo, mas pelo que ela sussurra sobre a nossa própria fragilidade. Eu me vi ali, encarando avatares de olhos esbugalhados, sentindo que cada clique no mouse era menos um comando de videogame e mais uma assinatura em um termo de consentimento que eu nunca li por completo.

Side Effects

O que me impressiona imediatamente é como Side Effects consegue capturar a atenção sem precisar de grandes fanfarras. Ele nos joga em uma atmosfera densa, onde o perigo não vem de um monstro que salta das sombras, mas de algo que você aceita voluntariamente para dentro do seu organismo. É uma imersão sensorial que me fez questionar, em vários momentos, por que eu estava sentindo tanto prazer em uma situação tão inerentemente repulsiva. Vejam vocês, o jogo não tenta ser bonito; ele tenta ser visceral, e nesse aspecto, ele triunfa de uma forma que poucos títulos de terror psicológico conseguem alcançar hoje em dia.

O Enredo Escrito em Prontuários Inexistentes

Não esperem uma narrativa convencional, com diálogos expositivos ou uma jornada do herói clássica. Side Effects é silencioso em sua história, e é justamente nesse silêncio que ele se torna mais eloquente. A narrativa está impregnada nas paredes descascadas e na transformação física dos personagens, que funcionam como um prontuário visual do nosso declínio. Eu senti que a história aqui é sobre a perda da autonomia, sobre como nos tornamos apenas números em um experimento de uma corporação farmacêutica que já nos descartou antes mesmo da primeira rodada terminar.

Existe uma coerência temática admirável entre a falta de contexto e o sentimento de desamparo. O jogo nos coloca como sujeitos de teste anônimos, e essa anonimidade é o que permite que o horror se torne universal. Ao observar meus oponentes virtuais, eu não via apenas inimigos, mas companheiros de infortúnio, todos presos em uma lógica perversa de lucro e observação clínica. O ritmo da narrativa é ditado pelas mutações: um nariz de palhaço aqui, verrugas ali, olhos injetados que nos encaram com uma súplica silenciosa. É um enredo que se escreve na carne, e eu achei essa abordagem muito mais impactante do que qualquer documento de texto encontrado em um canto escuro.

Side Effects

O envolvimento emocional surge de forma inesperada, através da culpa. Quando eu usei um alicate para arrancar o dente de um oponente para diminuir sua resistência, senti um peso que não costumo sentir em jogos de tiro tradicionais. Há algo de profundamente errado e magnético em Side Effects, uma crítica velada à forma como a medicina pode ser desumanizada em nome de resultados. Para mim, essa é a verdadeira história do jogo: o momento em que deixamos de ser humanos para nos tornarmos apenas recipientes de efeitos colaterais.

A Dança Macabra entre a Escolha e a Sorte

Falar do gameplay de Side Effects é falar sobre a gestão da ansiedade. O jogo é baseado em turnos, o que nos dá todo o tempo do mundo para agonizar sobre cada decisão. O ritmo é deliberadamente arrastado em certos momentos, forçando o jogador a absorver a tensão da mesa antes de agir. Eu percebi que a sensação de controle é a maior ferramenta de manipulação do design: o jogo nos oferece itens experimentais para tentar trapacear a sorte, mas a sorte, essa senhora cruel, sempre tem a última palavra.

A interação com o mundo é minimalista, concentrada inteiramente na superfície da mesa e nos objetos que nela repousam. Eu achei fascinante como cada pílula que cai sobre o tampo de metal produz um som que reverbera na nossa própria espinha. O controle é simples, operado quase exclusivamente pelo mouse, o que reforça a ideia de que somos apenas observadores e executores de uma vontade maior. Mas não se enganem com a simplicidade; existe uma profundidade estratégica genuína em observar o que os outros fazem. Quando um oponente usa um scanner em uma pílula e decide não tomá-la, o jogo se transforma instantaneamente em uma partida de pôquer de alto risco, onde o blefe pode ser a diferença entre a vida e um saco de cadáveres.

Side Effects

As decisões de design são focadas em criar um ambiente onde a informação é a moeda mais valiosa. Eu me vi constantemente pesando o custo de oportunidade de usar um item agora ou guardá-lo para uma rodada onde a concentração de pílulas letais fosse maior. O jogo nos pune pela pressa e nos recompensa pela observação clínica, o que cria um fluxo de jogo que é ao mesmo tempo exaustivo e viciante. É uma coreografia da incerteza que me deixou com as mãos suadas mesmo em rodadas que duravam apenas quinze minutos.

A Farmacopeia do Absurdo e suas Engrenagens

Entrando nos detalhes das mecânicas, Side Effects nos apresenta dois medidores que definem nossa existência: a saúde, em forma de corações, e a resistência, em forma de escudos. O funcionamento é brilhante em sua simplicidade: a maioria das pílulas corrói sua resistência, mas se você não tiver mais escudos, o próximo impacto vai direto para o coração. Eu achei essa dinâmica de camadas de proteção muito mais interessante do que uma barra de vida tradicional, pois ela nos permite gerenciar o dano de forma muito mais tátil.

Os itens são o que realmente injetam personalidade nas mecânicas. Eu fiquei surpreso com a variedade, desde scanners que revelam a natureza do remédio até martelos que destroem pílulas suspeitas, passando por replicadores que copiam itens alheios. Alguns itens, como o soro que anula efeitos negativos, funcionam como um suspiro de alívio, enquanto outros, como o alicate de dentes ou o extrator de olhos, servem para sabotar a resistência alheia de forma brutal. O que me cansa um pouco é a dependência ocasional de sequências de sorte puramente negativas, onde nenhum item parece ser capaz de salvar você de uma distribuição estatística desfavorável, mas talvez isso faça parte da experiência pretendida.

Side Effects

Eu sinto que o jogo surpreende quando nos permite subverter a ordem natural das coisas. A mecânica de devolução de pílulas à pilha após um teste é uma jogada de mestre do design psicológico. Ela transforma um jogo de azar em um jogo de mentes. Por outro lado, o modo de jogo infinito, apropriadamente batizado de Free Healthcare, oferece um desafio de resistência que testa os limites da nossa paciência e sanidade. É um sistema mecânico que funciona como um relógio bem lubrificado, onde cada engrenagem está lá para nos lembrar que, no final das contas, somos apenas estatística.

A Estética do Abjeto e o Som do Desconforto

A direção artística de Side Effects é um triunfo do grotesco. O jogo não tem interesse no fotorrealismo, preferindo uma identidade visual que mistura o clínico com o macabro. Eu fiquei hipnotizado pela forma como os personagens se deterioram; não é apenas uma mudança de textura, é uma agressão visual que reflete o estado interno das cobaias. Ver um oponente desenvolver deformidades como olhos de sapo ou manchas cutâneas após ingerir uma pílula amarela é de uma sensibilidade estética perturbadora.

A ambientação sonora é outro ponto onde o jogo demonstra uma maturidade incrível. Não existe uma trilha sonora que nos guie emocionalmente; em vez disso, temos uma colagem de sons ambientes que reforçam o isolamento. O som metálico das pílulas caindo na mesa, o chiado de máquinas distantes e os gemidos abafados dos personagens criam uma paisagem sonora que eu descreveria como uma orquestra do desespero silencioso. A ausência de chat de voz é uma decisão artística acertada, pois nos obriga a encarar o outro não como um jogador, mas como uma presença física e mutante do outro lado da mesa.

Tudo na imagem e no som contribui para uma sensação de asfixia. O uso de cores lavadas, interrompidas apenas pelo brilho artificial das pílulas coloridas, cria um contraste que me fez sentir como se estivesse sob luzes fluorescentes de um hospital de péssima qualidade. É uma experiência sensorial que não busca o conforto, mas a verdade incômoda da decomposição. Eu achei o design visual dos personagens particularmente eficaz, pois embora comecem iguais, terminam como amálgamas únicas de seus próprios fracassos farmacêuticos.

O Silício sob o Efeito de Psicotrópicos

Analisar o desempenho de Side Effects na configuração que utilizei, um Ryzen 7 5700X com uma RTX 4060 e 32 GB de RAM, é quase uma tarefa de luxo diante da simplicidade técnica do jogo. O título, que exige suporte à API Vulkan, rodou com uma fluidez absoluta em 1080p, sem qualquer sinal de gagueira ou instabilidade, mesmo nos momentos em que os efeitos visuais de alucinação e distorção de tela estavam no auge. Eu percebi que a otimização foi feita com cuidado, permitindo que a atmosfera não seja quebrada por falhas técnicas.

Side Effects

O desempenho no PC é prático e honesto, como deveria ser em qualquer jogo independente que prioriza a arte sobre a força bruta gráfica. A estabilidade das partidas multiplayer foi surpreendente; mesmo jogando com pessoas em outros continentes, não senti atrasos que prejudicassem a tomada de decisão ou a fluidez das animações de sabotagem. Em suma, nesta máquina, Side Effects é uma experiência técnica impecável, permitindo que o jogador se concentre inteiramente no horror de sua própria sorte.

O Amargor que Resta na Língua

Ao final de cada partida de Side Effects, eu me vi encarando o reflexo da tela com uma pergunta incômoda: o que exatamente estamos celebrando aqui? O jogo é um exercício magistral de cinismo, uma roleta russa que nos despe de nossa dignidade em troca de mais alguns minutos de respiração assistida. Ele não nos oferece redenção ou uma saída fácil; ele nos oferece apenas a próxima pílula. E é nessa insistência no inevitável que ele encontra sua força mais profunda e inesquecível.

Eu sinto que Side Effects vai além de ser apenas um jogo de estratégia; ele é uma reflexão sobre a nossa submissão a sistemas que não compreendemos totalmente. Seja a sorte cega dos dados ou a frieza dos lucros corporativos, estamos todos sentados àquela mesa, esperando que o próximo efeito colateral seja um pouco menos doloroso que o anterior. A conclusão de cada rodada, seja ela uma vitória amarga ou uma morte gráfica, deixa uma marca na mente que não se apaga facilmente.

Não é uma experiência apressada ou óbvia. É uma obra que exige estômago e, mais do que isso, exige a coragem de se olhar no espelho e reconhecer a cobaia que existe em cada um de nós. Side Effects é um lembrete visceral de que, em um mundo de incertezas, a única coisa que realmente possuímos é a nossa escolha, por mais limitada e medicada que ela possa ser. E vejam vocês, no final, talvez o maior efeito colateral de todos seja a percepção de que, naquela sala de testes, o único sobrevivente real é o jogo, que continuará esperando pelo próximo voluntário ansioso.

NOTA

8.0
★★★★★★★★★★

CONSIDERAÇÕES

Side Effects é uma experiência visceral e perturbadoramente viciante que transforma o simples ato de ingerir medicamentos em uma metáfora sombria sobre a perda de autonomia e o cinismo corporativo. Embora não possua uma narrativa profunda em termos convencionais, o jogo triunfa ao criar uma atmosfera de tensão constante e um multiplayer genuinamente envolvente, consolidando-se como uma evolução madura e macabra do gênero de roleta-russa estratégica.

Gustavo Feltes
Gustavo Feltes
Eu amo jogar, jogar é uma parte de mim. Cada história, momento, universo e gameplay me encantam. Eu não tenho restrições de jogos, cada célula do meu corpo clama por isso.
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