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Review | Roadside Research (PC)

A Anatomia do Absurdo sob uma Máscara de Papel

Eu me peguei pensando, enquanto limpava uma mancha de fluido intergaláctico do piso de linóleo barato, sobre o que realmente nos define como humanos. Existe uma melancolia operária em Roadside Research que me pegou totalmente desprevenido. No papel, a Cybernetic Walrus e a Oro Interactive nos entregam um simulador de posto de gasolina com uma camada de ficção científica satírica. Mas, na prática, o que experimentei foi uma das críticas mais ferozes e hilárias à nossa própria banalidade. Nós somos alienígenas que cruzaram o vácuo do espaço, donos de tecnologias que desafiam a física, apenas para acabar atrás de um balcão vendendo salgadinhos superfaturados e tentando entender por que os humanos ficam tão bravos quando o preço do combustível sobe alguns centavos. É um exercício de humilhação cósmica que, curiosamente, se torna a experiência mais refrescante que tive no PC este ano.

Roadside Research review

O jogo não pede licença para ser esquisito. Ele nos joga nesse oásis de asfalto e luzes de neon com uma missão que soa como uma piada de mau gosto: pesquisar a humanidade através do consumo. Eu entrei nessa jornada esperando um gerenciamento burocrático, mas encontrei uma performance artística sobre o pertencimento. A abertura do jogo já estabelece que a nossa maior arma contra o governo não é um canhão de plasma, mas a nossa capacidade de desenhar uma cara de “gente feliz” num pedaço de papel e grampear no rosto. Existe algo de profundamente tocante nesse esforço patético de parecer normal.

O Teatro da Invasão Invisível

A narrativa de Roadside Research é uma crônica do esforço inútil. Não há grandes discursos ou vilões megalomaníacos. O conflito mora na suspeita. Eu senti o peso da história não em cutscenes, mas no silêncio perturbador de um cliente me encarando enquanto eu demorava um segundo a mais para processar um pagamento. A trama se constrói na tensão de ser um impostor em um mundo que você mal compreende. Nós estamos ali para coletar dados, para escanear cérebros e roubar lixo humano para análise, mas a verdadeira história é o que acontece entre as bombas de combustível.

Roadside Research review

Eu percebi que o ritmo do jogo dita um tipo de urgência muito específica. Não é a urgência de um combate, mas a ansiedade de manter as aparências. Cada decisão de design na narrativa serve para reforçar que somos estranhos em uma terra estranha, tentando desesperadamente não deixar a nossa natureza “vazar”. Quando os agentes do governo aparecem, o jogo se transforma em um teste de nervos onde a nossa única defesa é agir da forma mais medíocre possível. É uma inversão brilhante do gênero de invasão alienígena. Aqui, a vitória não é a conquista, mas a sobrevivência através da invisibilidade social.

A Coreografia do Caos e da Vergonha

Se a história nos coloca a máscara, a jogabilidade é o que nos faz tropeçar nela. Eu joguei Roadside Research com mais três amigos, e o que era para ser uma operação de espionagem cirúrgica rapidamente se transformou em um episódio de comédia física pastelão. O controle dos personagens tem uma inércia proposital, uma sensação de que estamos operando um corpo que não é nosso, o que gera situações de um ridículo sublime. Houve momentos em que estávamos todos empenhados em um roleplay quase sagrado, falando bobagens para fingir que não éramos alienígenas, enquanto um de nós, por puro erro de cálculo, era arremessado para o outro lado da rodovia ao ser atingido em cheio por um sedã em alta velocidade.

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Morrer atropelado em Roadside Research é, sem exagero, um dos pontos altos da diversão. É súbito, é estúpido e é absolutamente engraçado. Ver o corpo do seu parceiro de invasão voando enquanto ele tentava desesperadamente não ser “suspeito” quebra qualquer barreira de seriedade que o jogo pudesse ter. O ritmo é essa oscilação maníaca entre o tédio de repor prateleiras de refrigerante e o pânico absoluto de ter que limpar uma poça de “goop” verde antes que o próximo cliente a veja. A interação com o mundo é tátil e desastrosa. Nós não apenas operamos o posto, nós lutamos contra ele. A decisão de design de permitir que joguemos latas nos clientes para nocauteá-los é o tipo de liberdade caótica que transforma um simples simulador em um laboratório de anarquia social.

GlorpTech e a Fisiologia do Erro

As mecânicas centrais de Roadside Research são um lembrete constante da nossa inadequação biológica. O sistema de “goop”, essa gosma que os alienígenas excretam periodicamente, é uma das mecânicas mais viscerais e desconfortáveis que já vi. Não é apenas sujeira, é a falha do nosso disfarce manifestada de forma física. Eu me vi em situações de puro desespero, tentando esconder um rastro de fluido verde enquanto um agente federal caminhava lentamente em minha direção. É aqui que o jogo brilha ao fugir do tecnicismo frio. As mecânicas não são apenas números, elas são gatilhos para emoções reais: culpa, vergonha e um riso nervoso que não para.

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O uso da GlorpTech, a nossa tecnologia avançada, é um jogo perigoso de custo e benefício. O Brain Washer ou o Replicator facilitam a vida, aumentam o lucro e aceleram a pesquisa, mas cada uso é um convite para o desastre. O medidor de suspeita é uma sombra que nunca nos deixa. Eu adorei como o jogo nos força a gerenciar não apenas recursos financeiros, mas a nossa própria reputação de “humanidade”. A customização, embora pareça um detalhe cosmético, é parte crucial dessa mecânica de decepção. Decidir quantos dedos ter ou qual cor de pele esconder sob a máscara de papel é um ato de rebeldia silenciosa contra a vigilância. O que funciona aqui é o sentimento de que estamos sempre a um passo de sermos “derretidos” pelos agentes se não provarmos, através de minijogos nervosos, que somos tão humanos quanto qualquer outro atendente exausto.

A Sinfonia do Squelch e o Brilho do Neon

Visualmente, o jogo faz uma escolha estética corajosa. Ele se recusa a ser bonito no sentido tradicional, optando por uma direção artística que privilegia o estranhamento. A iluminação é o que realmente vende a atmosfera. Estar sozinho, ou com amigos, naquele posto iluminado por lâmpadas fluorescentes que zunem, cercado pela escuridão impenetrável da estrada, cria um sentimento de isolamento que é quase palpável. A identidade visual é suja, saturada e perfeitamente sintonizada com a ideia de uma Terra vista por olhos que não pertencem a ela.

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Mas é no áudio que Roadside Research realmente agride os sentidos da melhor forma possível. O design de som é focado no que eu chamaria de “fisiologia do nojo”. Os ruídos de sucção, os estalos das juntas alienígenas e o som úmido de cada passo são perturbadores. Isso cria um contraste fascinante com a trilha sonora, que flutua entre um jazz de elevador e batidas eletrônicas espaciais que parecem saídas de um sonho febril. O áudio não é apenas um acompanhamento, é um lembrete auditivo constante de que você é um monstro escondido. Quando um carro se aproxima, o som do motor na estrada deserta traz uma sensação de invasão, o que é irônico, já que o invasor é você. É uma experiência sensorial que prefere a textura e o sentimento à perfeição técnica.

O Desempenho no Silício

Rodar Roadside Research no PC foi uma experiência de uma fluidez admirável. No meu setup, um Ryzen 7 5700X com uma RTX 4060 e generosos 32 GB de RAM, o jogo se comportou com a estabilidade de um relógio suíço, mesmo que o que estivesse na tela fosse o caos mais absoluto. Em um título onde a física dos objetos é tão central e imprevisível, qualquer queda de frames poderia arruinar o timing cômico de um atropelamento ou de um arremesso de lata de lixo. Felizmente, a otimização está em um nível que muitos grandes estúdios deveriam invejar.

O Espelho Verde da Humanidade

Ao fechar Roadside Research, a sensação que fica não é a de ter vencido um jogo, mas a de ter sobrevivido a uma experiência antropológica transformadora. Ele nos faz rir da nossa própria rotina ao colocá-la sob a perspectiva de seres que a enxergam como uma tarefa alienígena e exaustiva. A genialidade mora no fato de que, para sermos bons alienígenas, precisamos ser humanos medíocres. O roleplay com os amigos, o pânico de ser pego com a mão na massa, ou na gosma, e a absoluta hilaridade de ver um companheiro de missão ser obliterado por um caminhão na rodovia enquanto tentava fingir normalidade, tudo isso cria uma tapeçaria de momentos inesquecíveis.

Roadside Research review

Este não é apenas mais um simulador para passar o tempo. É um título que exige a sua participação emocional no absurdo. Ele nos convida a tirar a nossa própria máscara de papel por algumas horas e abraçar o fato de que, no fundo, todos nós estamos apenas tentando não ser descobertos em nossas próprias esquisitices enquanto cumprimos nossos turnos na vida. Roadside Research é crítico, é sujo, é barulhento e é, sem dúvida, uma das experiências mais humanas que já tive em frente a um computador. Se o marketing deles for inteligente, eles não vão vender apenas um jogo de alienígenas em um posto de gasolina. Eles vão vender a chance de você rir do desastre que é tentar ser normal. No fim do dia, todos nós deixamos um pouco de goop verde pelo caminho, e Roadside Research é o único jogo que tem a coragem de nos dar um esfregão e nos fazer rir disso.

NOTA

9.0
★★★★★★★★★★

CONSIDERAÇÕES

Roadside Research é o triunfo do caos planejado sobre a monotonia do cotidiano. É um jogo que entende que a diversão não precisa ser complexa, apenas honesta em sua bizarrice. No hardware testado, é um deleite de fluidez que sustenta cada atropelamento improvável e cada sessão de roleplay improvisado com amigos. Uma obra que nos faz olhar para o espelho social e perguntar quem é o verdadeiro alienígena nessa história. É obrigatório para quem busca rir do absurdo da nossa própria existência.

Gustavo Feltes
Gustavo Feltes
Eu amo jogar, jogar é uma parte de mim. Cada história, momento, universo e gameplay me encantam. Eu não tenho restrições de jogos, cada célula do meu corpo clama por isso.
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