É de uma coragem quase acintosa que a Square Enix, em pleno 2026, decida retomar aquele que talvez seja o capítulo mais árduo, mais labiríntico e, paradoxalmente, mais humano de sua franquia mais solar. Dragon Quest VII sempre foi visto como o patinho feio para o público ocidental, não por falta de mérito, mas por um excesso de alma que se traduzia em centenas de horas de uma jornada episódica e, muitas vezes, excruciante. Pois bem, esta nova versão, batizada com o sugestivo título de Reimagined, chega a nova geração não apenas como um restauro técnico, mas como uma reinterpretação poética de uma obra que fala sobre o tempo, a perda e a reconstrução do mundo através de fragmentos de pedra. O que encontrei nesta experiência foi algo que transcende o simples entretenimento digital. É uma joia de lapidação finíssima que, embora tenha perdido algumas de suas arestas mais brutas para se adequar ao dinamismo contemporâneo, mantém intacto o seu coração pulsante.
Digo isso com a convicção de quem passou madrugadas a fio navegando por mares que, inicialmente, nem existiam. Dragon Quest VII Reimagined não é apenas um jogo, é um exercício de paciência e uma lição de que o heroísmo nem sempre nasce de profecias grandiosas, mas de pequenos gestos de bondade espalhados por séculos de história. Eu me vi absorto em um mundo que, em sua versão original de 2000, exigia do jogador uma dedicação quase monástica, mas que aqui, no hardware da Sony, ganha uma fluidez que o torna acessível sem jamais ser superficial. É uma obra que respeita a inteligência do espectador, ou melhor, do jogador, ao mesmo tempo em que o acolhe com uma estética que remete às memórias mais puras da infância.

O Silêncio que Precede a Descoberta
A premissa de Dragon Quest VII Reimagined é de uma simplicidade que beira o sublime. Imagine que você vive em uma ilha chamada Estard, um pequeno pedaço de terra cercado por um oceano infinito, onde todos os habitantes acreditam piamente que não existe mais nada além daquele horizonte azul. Você é apenas o filho de um pescador, um rapaz sem grandes ambições, cujo maior drama é a rotina pacata da Baía de Pilchard. Mas há um incômodo, uma coceira na alma personificada pelo Príncipe Kiefer, o seu melhor amigo, que se recusa a aceitar que o mundo seja tão pequeno quanto os adultos dizem. Essa curiosidade juvenil os leva a um santuário proibido, o Santuário dos Mistérios, onde descobrem que o mundo não é vazio, ele foi, na verdade, esquecido e selado em pedaços de tábuas de pedra.
O que se segue é uma das estruturas narrativas mais fascinantes que o gênero já produziu. Ao completar esses tabletes, somos transportados para ilhas no passado, cada uma vivendo sua própria tragédia particular, seu próprio apocalipse em miniatura. Nós não estamos ali para salvar o universo de uma vez só, mas para salvar uma vila, um casal, uma criança, uma história por vez. É uma narrativa em mosaico, onde cada peça que resolvemos no passado faz com que uma ilha surja no presente, no mapa que antes era apenas água. Essa sensação de restauração, de ver o mundo crescer sob nossos pés graças aos nossos atos, é de uma gratificação emocional que poucos jogos conseguem replicar com tanta elegância.
Nesta versão, a escrita foi refinada para que o ritmo não seja tão glacial quanto no original, mas a melancolia permanece lá. Há algo de profundamente triste em visitar uma ilha no passado, resolver seus problemas e depois visitá-la no presente apenas para ver como o tempo tratou aquelas pessoas, muitas vezes apagando seus nomes, mas preservando o legado do que fizemos. A inclusão de um novo final, que depende das escolhas que fazemos ao longo dessa jornada hercúlea, é o toque de mestre que faltava para dar agência ao jogador em um conto que antes parecia imutável. É um convite para que olhemos com mais atenção para cada diálogo, pois agora o peso das nossas decisões pode moldar um desfecho inédito, nunca visto em iterações anteriores.

Eu me emocionei, de verdade, ao perceber que o jogo não tem pressa de me apresentar o seu grande vilão. O antagonismo em Dragon Quest VII é, durante muito tempo, a própria ausência. É o vazio de um mundo que sumiu. E quando finalmente começamos a entender quem é o Rei Demônio Orgodemir e por que ele isolou cada continente, a jornada já nos marcou de tal forma que o combate final não é apenas uma obrigação mecânica, mas um acerto de contas emocional com tudo o que vimos ser destruído e, posteriormente, reconstruído.
A história de Dragon Quest VII Reimagined se desdobra como uma série de contos de fadas, mas contos de fadas dos irmãos Grimm, onde nem sempre o final é feliz. Eu me peguei refletindo sobre a coragem de Kiefer em abandonar sua linhagem real em busca de algo que desse sentido à sua existência. O Príncipe não é o estereótipo do herói perfeito, ele é, de certa forma, um egoísta sonhador, mas a sua partida do grupo, no meio da jornada, dói como a perda de um amigo real. E ver que o remake permite, dependendo das nossas ações, uma forma de reencontro ou um fechamento mais digno para o seu arco é um presente para os veteranos que carregam essa mágoa desde o PlayStation original.
As personagens femininas também ganham um brilho novo. Maribel, com sua língua ferina e sua arrogância de filha de prefeito, esconde uma lealdade inabalável que se revela nos momentos de maior desespero. Ruff, o menino lobo que carrega consigo a ingenuidade da natureza, é o contraponto perfeito para a seriedade dos temas abordados. E a chegada tardia de Sir Mervyn e Aishe traz uma camada de tradição e dever que ancora o grupo em sua missão divina. A cada nova ilha, eu era apresentado a um novo drama humano. O vilarejo que foi transformado em pedra, a cidade que vive em um loop temporal de agonia, os amantes separados pelo preconceito entre tribos. Não são apenas missões, são vinhetas sobre a condição humana.
Nesta versão Reimagined, houve um cuidado especial em aparar as arestas que tornavam a narrativa cansativa. Alguns episódios menos relevantes foram cortados para favorecer o fluxo principal, mas sem perder a essência melancólica que define o jogo. É como se tivessem pegado um livro de mil páginas e, com uma edição primorosa, o transformassem em uma obra de setecentas páginas que bate muito mais forte no peito. A narrativa não me enrolou, ela me envolveu por completo em cada pequeno conto de sofrimento e redenção.
A Fluidez de um Mundo Reconstruído
Se a história é o espírito, a jogabilidade de Reimagined é o corpo que finalmente aprendeu a correr. O sistema de combate por turnos, o pilar sagrado da série, recebeu atualizações que o tornam uma delícia de se manipular. A maior novidade, e vejam que escolha acertada, é o sistema de Moonlighting. Agora, não estamos mais restritos a uma única vocação por vez. Podemos equipar duas classes simultaneamente, permitindo combinações que antes eram apenas sonhos de fãs devotos. Eu pude criar um Guerreiro que também carregava as magias de um Mago, ou um Sacerdote que dominava as artes de um Ladino, acelerando imensamente o aprendizado de novas habilidades.

Isso remove aquela sensação de fragilidade que ocorria toda vez que trocávamos de profissão nas versões antigas. Em Dragon Quest VII Reimagined, a experimentação é encorajada. Você pode manter sua profissão principal maximizada para não perder poder de fogo enquanto desenvolve uma secundária. É um sistema que respeita o tempo do jogador e elimina boa parte do grind tedioso que afastava os menos pacientes. A progressão é sentida a cada batalha, e a interface limpa ajuda a entender exatamente para onde o seu personagem está evoluindo.
As habilidades Let Loose são outro acréscimo primoroso. Cada vocação possui um movimento especial, uma espécie de trunfo que pode virar o jogo em momentos de desespero. Eu usei a devoção oceânica do meu protagonista para neutralizar ataques inimigos inteiros, enquanto a perspicácia da Maribel me permitia enxergar as resistências elementais dos monstros, tornando meus ataques muito mais cirúrgicos. É um sistema que recompensa a inteligência tática sem se tornar excessivamente complexo ou punitivo. É o equilíbrio raro entre a tradição dos turnos e a conveniência moderna.
E por falar em punição, os encontros aleatórios foram abolidos de vez. Agora, os monstros vagam pelo cenário, permitindo que eu decidisse quando lutar e quando apenas seguir caminho. Há inclusive uma função divina que permite derrotar monstros fracos instantaneamente no mapa mundo, sem precisar entrar em uma tela de batalha. É uma funcionalidade de uma conveniência que deveria ser padrão em todo RPG moderno, economizando horas de combates triviais que só serviam para inflar o tempo de jogo. O respeito pelo tempo de quem joga é, talvez, a maior melhoria mecânica desta versão.
Estratégia e Individualidade nas Vocações
O sistema de vocações é o coração da customização em Dragon Quest VII Reimagined. Começamos com classes exclusivas que definem a personalidade de cada personagem. O Protagonista como Fledgling Fisherman não é apenas um título, ele traz habilidades que remetem à sua origem humilde e sua conexão com o mar. Kiefer como Heir Apparent é uma máquina de dano físico bruto, enquanto Maribel como Mini Mayoress domina o campo com magias de controle. Ruff, por sua vez, traz o caos divertido do Wolf Boy, atacando duas vezes antes de cair no sono.
À medida que avançamos e desbloqueamos a Abadia de Alltrades, o jogo se abre de forma avassaladora. As classes iniciais como Guerreiro, Mago e Sacerdote são apenas a porta de entrada para vocações intermediárias e avançadas, como Gladiador, Sábio e Paladino. O sistema de Moonlighting permite que você planeje builds híbridas complexas. Eu passei horas combinando as habilidades de um Trovador com as de um Dançarino para criar um suporte imbatível, ou fundindo um Marinheiro com um Lutador para criar um personagem rápido e devastador.
Uma mudança significativa foi a transformação das vocações de monstros em acessórios através dos Monster Hearts. Embora alguns puristas sintam falta de transformar fisicamente os personagens em monstros, essa mudança limpa o sistema de vocações e torna a progressão mais focada nas classes humanas, que agora possuem designs visuais únicos para cada personagem. Os corações de monstros agora oferecem bônus passivos valiosos e habilidades específicas que complementam as vocações principais, adicionando uma camada extra de estratégia sem poluir a interface.

Tudo isso é gerido através de uma interface de usuário redesenhada, que é limpa, rápida e intuitiva. Gerenciar o inventário compartilhado é um alívio, adeus às bolsas individuais limitadas, e a possibilidade de mudar táticas de IA no meio da batalha permite que os combates contra inimigos comuns sejam automatizados de forma inteligente, deixando o controle total para os chefes desafiadores. É a prova de que se pode modernizar um clássico sem vender sua alma ao mercado de ação frenética.
Um Teatro de Marionetes sob a Luz de Outrora
Visualmente, Dragon Quest VII Reimagined no PS5 é uma das coisas mais charmosas que já tive o prazer de testemunhar. Esqueça o realismo fotográfico ou a obsessão por texturas brutas que domina a indústria atual. O que a HexaDrive fez aqui foi criar um mundo que parece um diorama vivo, um teatro de bonecos de uma delicadeza tocante. Os personagens, desenhados pelo imortal Akira Toriyama, têm uma aparência de bonecos esculpidos, com proporções que remetem ao estilo artístico japonês mais clássico, mas com um nível de detalhe nas roupas e expressões que só o poder do hardware atual permitiria.
Eu conseguia ver a trama do tecido dos chapéus, o brilho da cerâmica nas vilas e a iluminação que banha os cenários com uma nostalgia palpável. A direção de arte optou por tons levemente mais suaves, o que combina perfeitamente com a atmosfera frequentemente melancólica das histórias das ilhas. Cada nova região que desbloqueamos parece uma pequena maquete detalhada, cheia de vida e personalidade. É um visual que abraça o lúdico para contar histórias que são, por vezes, brutais.
A trilha sonora é um capítulo à parte. Totalmente orquestrada pela Orquestra Sinfônica de Tóquio, ela tem uma opulência que preenche a sala. As composições de Koichi Sugiyama, que sempre foram a alma da série, ganham aqui uma profundidade emocional que as versões sintetizadas jamais poderiam alcançar. Ouvir o tema de abertura ou as marchas militares enquanto exploramos os castelos é uma experiência que arrepia a pele e conforta o coração. É a música que nos guia por esse oceano de memórias.

A dublagem também merece aplausos calorosos. O elenco traz uma interpretação cheia de sotaques e nuances que dão um sabor regional a cada ilha visitada. Kiefer soa exatamente como o príncipe rebelde e carismático que eu imaginava, e Maribel tem aquela ponta de arrogância juvenil que esconde um coração de ouro. É um trabalho de localização e atuação que eleva o texto a um patamar de obra teatral, tornando cada diálogo um momento de prazer e não apenas um obstáculo entre batalhas. A personalidade transborda em cada linha de áudio.
A Potência e a Ausência no Hardware da Sony
Rodando no PlayStation 5, Dragon Quest VII Reimagined é um exemplo de polimento técnico, embora com ressalvas pontuais que precisam ser ditas. A fluidez é absoluta, e os tempos de carregamento, que eram o pesadelo de quem jogava no PlayStation original, praticamente desapareceram. É possível entrar e sair de vilas e masmorras com uma agilidade que mantém o ritmo da aventura sempre lá no alto.
Além disso, percebi alguns problemas leves com o desenho de sombras e o efeito de profundidade de campo. Em certas áreas abertas, as sombras parecem ser desenhadas conforme nos aproximamos, o que gera um efeito de pop-in que quebra levemente a ilusão daquele diorama perfeito. E o efeito de desfoque ao fundo, embora tente simular a estética de uma maquete, às vezes exagera na dose, tornando difícil apreciar a beleza dos horizontes mais distantes. São manchas pequenas em um quadro belíssimo, mas que um olhar mais atento certamente irá notar.
O Que Fica Quando o Mapa se Completa
Ao final dessa jornada, o que Dragon Quest VII Reimagined nos entrega é algo raro no mercado de hoje. Ele não tenta ser um jogo de ação frenético, nem se rende às tendências de mundos abertos vazios. Ele é um jogo sobre a paciência, sobre o valor de olhar para trás e entender que o presente só existe porque alguém, em algum momento, lutou para preservá-lo. É uma celebração do conto de fadas, mas de um conto de fadas que não tem medo da tragédia, que sabe que o sacrifício faz parte da vida e que a amizade é a única bússola capaz de nos guiar através de um oceano de esquecimento.

Esta versão de PlayStation 5 é, sem dúvida, a melhor forma de experimentar essa história, superando em muito as limitações técnicas das versões anteriores. Mesmo com as ausências técnicas do DualSense e os cortes pontuais de conteúdo, o que resta é a essência mais pura do que torna Dragon Quest uma série eterna: a sua humanidade inabalável. É um jogo que me fez sentir criança novamente, sentada no chão da sala, descobrindo que o mundo é vasto, misterioso e terrivelmente bonito.
A conclusão deste épico é algo que ficará ecoando na minha mente por muito tempo. Quando finalmente vemos o mapa mundi completo, cada ilha em seu devido lugar, não vemos apenas um cenário de jogo. Vemos um testemunho da nossa própria jornada, das dores que curamos e das memórias que resgatamos do abismo do tempo. O novo final, condicionado pelas nossas escolhas, oferece um fechamento que parece muito mais pessoal e recompensador do que a conclusão linear que conhecíamos.
Dragon Quest VII Reimagined é um abraço caloroso em forma de código, um lembrete de que nada está perdido para sempre se houver alguém disposto a carregar os fragmentos e montá-los novamente. É uma obra essencial, magnífica e, acima de tudo, necessária. Se você tiver a chance, por favor, não a deixe passar. É um daqueles raros momentos em que os videogames nos mostram que, sim, eles podem ter alma. E que alma imensa esta joia possui. No fim das contas, reconstruir o mundo é um ato de amor, e este jogo é a prova mais bonita disso.
NOTA
CONSIDERAÇÕES
Dragon Quest VII Reimagined é um triunfo da restauração emocional que consegue o impensável: transformar um clássico de ritmo originalmente glacial em uma jornada dinâmica e pulsante, sem jamais sacrificar sua melancolia intrínseca. É o encontro feliz entre o charme artesanal de Akira Toriyama e a fluidez do PlayStation 5, resultando em uma experiência que não apenas reconstrói um mundo esquecido, mas resgata a própria alma do JRPG para a modernidade. Uma joia essencial e comovente.
