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Review | Diablo II: Resurrected – Reign of the Warlock (PS5)

O Evangelho das Sombras e o Peso da Memória

O tempo é um elemento curioso, ele tem essa capacidade quase cruel de transformar o que era apenas entretenimento em uma relíquia, em algo que guardamos em uma redoma de nostalgia e que, por vezes, temos um medo reverencial de tocar para não quebrar a magia. Quando eu soube que a Blizzard estava preparando Reign of the Warlock para o Diablo II: Resurrected, confesso que senti aquele frio na espinha que a gente sente quando alguém decide restaurar uma pintura renascentista de valor inestimável. Existe sempre o risco de se perder a alma no processo, de trocar o mistério pela conveniência. Mas o que eu encontrei, foi algo que desafia essa lógica, é uma renovação que não tenta esconder as rugas do clássico, mas que as ilumina com uma tecnologia que, há vinte e cinco anos, pareceria pura feitiçaria. É inovador e revolucionário? Em termos de estrutura, talvez não. Mas a forma como ele se acomoda é de uma competência tão atroz que nos faz questionar por que demoramos tanto para ter essa oitava classe entre nós.

Diablo II Reign of the Warlock

A proposta aqui não é apenas um pacote de expansão genérico, é uma intervenção profunda em um ecossistema que muitos consideravam sagrado e imutável. Reign of the Warlock traz o Warlock como o primeiro personagem inédito em décadas, e faz isso com uma autoridade que justifica cada minuto de espera. No PS5, essa jornada ganha um peso diferente, as cores são mais densas, os carregamentos são quase inexistentes e existe uma fluidez que nos faz mergulhar no Santuário sem as interrupções que costumavam quebrar o clima de terror gótico. Eu me vi novamente hipnotizada por aquele mundo, mas desta vez carregando um poder que cheira a enxofre e a segredos que nem mesmo os Horadrim ousariam sussurrar. É uma experiência que exige do jogador não apenas reflexos, mas uma disposição para entender que, no Santuário, o poder sempre cobra um preço alto demais.

O RETORNO AO SANTUÁRIO DE VIDRO

A introdução de Reign of the Warlock no PlayStation 5 funciona como um convite para um baile de máscaras onde o anfitrião é o próprio medo. O jogo se apresenta com aquela imponência de quem sabe que definiu um gênero, mas agora ele se veste com as sedas de uma resolução 4K que ressalta cada detalhe das poças de sangue e das runas esculpidas em pedra fria. Eu acho primoroso como a equipe de desenvolvimento conseguiu manter a jogabilidade um para um em relação ao original, enquanto injetava uma modernidade que não parece um corpo estranho. É uma coisa de louco pensar que estamos jogando o mesmo motor de décadas atrás sob essa maquiagem deslumbrante que o PS5 sustenta com tanta elegância.

Diablo II Reign of the Warlock

O que mais me impressiona logo de cara é a coragem de mexer na Mona Lisa. Eles não colocaram óculos escuros na pintura, eles apenas nos deram uma lanterna mais forte para enxergar o que já estava lá, escondido nas sombras do Ato 4 ou nas profundezas do Worldstone Keep. O Warlock surge como essa figura central, uma classe que não apenas preenche um espaço vazio no menu de seleção, mas que altera a gravidade de como encaramos o combate. No PS5, a experiência de iniciar uma nova campanha com esse mestre das artes proibidas é refrescante, é como reencontrar um velho amigo que voltou de uma viagem longa com histórias terríveis e fascinantes para contar, mas que agora carrega uma sombra que não lhe pertencia antes.

SEGREDOS DE UMA CASTA MALDITA

A história do Warlock em Diablo II é um mergulho profundo nas águas turvas do clã Vizjerei, aqueles magos que, em sua arrogância colossal, quase condenaram a humanidade ao tentar controlar demônios como se fossem meros animais de carga. Eu acho essa premissa narrativa de uma inteligência ímpar, porque ela não cria um herói reluzente de armadura branca, ela nos dá um estudioso pário, um idealista que acredita piamente que sua força de vontade é superior à dos seus antecessores. Ele não é o Necromante que busca o equilíbrio quase zen entre a vida e a morte, ele é agressivo, ele é ostensivo e ele usa o poder do Inferno como uma ferramenta bruta para moldar o mundo à sua própria imagem.

Diablo II Reign of the Warlock

Ao caminhar pelas areias escaldantes de Lut Gholein ou pelas ruas decadentes e úmidas de Kurast, eu senti que a presença do Warlock trazia um peso novo para as interações. Existe uma melancolia intrínseca na sua jornada, a busca por um conhecimento que todos ao redor temem e desprezam. A narrativa se expande através do sistema The Chronicle, que funciona como um diário de bordo compartilhado entre todos os seus personagens, registrando cada item único e cada runa encontrada. Isso transforma a nossa busca obsessiva por loot em uma história documentada de conquista e desespero. É uma delícia ver como a lore se entrelaça com o desejo puramente humano de colecionar, de deixar uma marca permanente em um mundo que está constantemente tentando nos apagar da existência.

A COREOGRAFIA DO CAOS

Falar da gameplay do Warlock é falar de uma dança macabra que se beneficia enormemente do controle DualSense. Eu sei que houve quem reclamasse da intensidade do feedback, mas eu achei de uma sutileza elegante. Você sente a resistência das trevas quando conjura uma habilidade de vácuo e o impacto seco quando uma arma atinge o alvo. A grande estrela aqui é a árvore de habilidades Chaos, que transforma o Warlock em um conjurador de uma potência avassaladora, lançando feitiços como Abyss, que rasga o tecido da realidade e suga os inimigos para um centro de destruição absoluta. É um espetáculo visual ver as correntes ultravioletas do Miasma Chain ligando o meu personagem aos monstros, drenando a vida deles enquanto eu me posiciono estrategicamente pelo cenário.

Diablo II Reign of the Warlock

A mecânica de empunhar armas de duas mãos em apenas uma, enquanto a outra mão segura um Grimoire ou um Livro de feitiços, é algo que eu achei simplesmente genial. Isso quebra uma regra de ouro de Diablo II e abre um leque de possibilidades de builds que me deixou tonto de tanta empolgação. Eu me vi usando palavras rúnicas poderosas em adagas e armaduras, criando uma personagem que era, ao mesmo tempo, uma fortaleza defensiva e uma fonte inesgotável de dano mágico. A fluidez do combate no controle, com a movimentação direta pelo analógico, torna a experiência muito mais orgânica do que o clique repetitivo do mouse, permitindo desvios de última hora que salvam a nossa vida em dificuldades mais altas como o Hell, onde qualquer erro é punido com a morte imediata.

O ELO DO MEDO

Entrar nas mecânicas profundas do Warlock é como abrir uma caixa de Pandora que você sabe que não deveria, mas não consegue evitar. O sistema de Bind Demon é de uma complexidade que me deixou boquiaberta. São inúmeras combinações de demônios que você pode escravizar ou consumir. Diferente do Necromante, cujos esqueletos são quase como móveis que andam e batem, os demônios do Warlock são ferramentas táticas de precisão. Você pode consumi-los para ganhar bônus instantâneos de vida, velocidade ou mana, ou pode mantê-los ativos para que eles espalhem o dano entre o bando inimigo. Eu achei essa dinâmica muito mais envolvente, pois exige que o jogador tome decisões em tempo real sobre quando sacrificar o seu servo para sobreviver a um ataque de um chefe como Diablo ou Baal.

Diablo II Reign of the Warlock

Além disso, as novas Terror Zones no PS5 são um desafio à parte que eu não canso de elogiar. Elas agora rotacionam com uma frequência maior e os monstros ganham afixos que podem transformar uma caminhada tranquila em um pesadelo sem fim. E o que dizer dos Colossal Ancients? Essa nova batalha de pináculo é de uma ferocidade que eu não via há muito tempo. Enfrentar versões agigantadas daqueles guerreiros lendários exige que a sua build esteja impecável e que os seus reflexos estejam afiados como uma navalha. É um conteúdo que respeita o jogador veterano, oferecendo recompensas que são um deleite para qualquer um que busca a perfeição no seu equipamento. É o tipo de desafio que te faz suar, mas que te entrega uma satisfação quase catártica ao ser vencido.

A ESTÉTICA DA RUÍNA

No departamento visual e sonoro, Diablo II: Resurrected no PlayStation 5 continua sendo um marco absoluto de como se fazer uma remasterização. A resolução 4K a 60 quadros por segundo é de uma nitidez que faz com que cada textura de metal enferrujado ou pele apodrecida salte aos olhos. Eu achei as novas animações das magias do Warlock de um bom gosto extraordinário. Existe um peso visual no feitiço Apocalypse e uma elegância sombria no Sigil of Death que combina perfeitamente com a estética decadente do jogo. A iluminação dinâmica, especialmente quando estamos em cavernas escuras sendo perseguidos por Heralds of Terror, cria uma tensão constante que o hardware do PS5 sustenta com uma facilidade invejável.

Diablo II Reign of the Warlock

O áudio é outra joia desta coroa. A trilha sonora foi remasterizada para envolver o jogador em uma sinfonia de agonia e mistério que ecoa pelos corredores do tempo. No PS5, o som espacial permite que a gente identifique de onde vem o rosnado de um demônio antes mesmo dele aparecer na tela, o que é fundamental para a sobrevivência em áreas mais densas. As dublagens do Warlock são de uma competência atroz, ele fala com uma arrogância que nos faz acreditar que ele realmente tem o controle da situação, mesmo quando o mundo ao seu redor está desmoronando. É uma experiência sensorial completa, onde o som e a imagem trabalham em conjunto para nos lembrar que Santuário é um lugar onde a esperança foi enterrada há muito tempo, mas onde a beleza ainda reside na crueza da sobrevivência.

O PESO DO HARDWARE

Quando falamos de desempenho no PS5, precisamos ser honestos sobre as cicatrizes que essa atualização tão ambiciosa trouxe. Embora a maior parte do tempo o jogo corra com uma suavidade de seda, o lançamento de Reign of the Warlock introduziu alguns soluços técnicos que me incomodaram. Existe um pequeno congelamento, coisa de frações de segundo, quando Deckard Cain decide identificar o nosso saque acumulado, ou quando cruzamos portais em áreas muito povoadas das novas Terror Zones. A Blizzard já começou a lançar correções para tentar estancar esse sangue, e embora tenha melhorado a interface, ainda sinto que o motor antigo está lutando bravamente para processar tanta informação nova de uma só vez.

Diablo II Reign of the Warlock

O FIM É APENAS O RECOMEÇO

Diablo II: Resurrected – Reign of the Warlock no PlayStation 5 é, em última análise, um ato de amor e de uma ousadia tremenda. Eu saí dessa experiência com a alma pesada, mas com o coração cheio, porque é raro ver um jogo de tamanha importância ser tratado com esse nível de cuidado e ambição após tanto tempo. O Warlock não é apenas uma adição mecânica, ele é uma reafirmação de que o design original de Diablo II é tão sólido que pode suportar inovações que em qualquer outro jogo pareceriam absurdas ou deslocadas. É um título que exige paciência, que demanda critério e que recompensa o jogador com momentos de uma glória sombria que nenhum outro RPG de ação moderno consegue replicar com a mesma alma.

Diablo II Reign of the Warlock

Eu acredito que a grande lição de Reign of the Warlock é que o passado não precisa ser uma prisão de vidro onde só podemos olhar sem tocar. Ele pode ser um alicerce para algo novo e vibrante, contanto que se tenha o respeito necessário pela obra que veio antes. Se você tem um jeito de jogar Diablo II e ainda guarda no peito aquela chama negra que nos move a enfrentar o mal em busca de uma runa perfeita ou de uma joia lendária, esta expansão é absolutamente obrigatória. No final das contas, o abismo não apenas nos olha de volta, ele nos convida para entrar e governar. E com o Warlock, nós finalmente temos as chaves para dominar o que antes apenas temíamos. É uma jornada exaustiva, por vezes frustrante devido a pequenos detalhes técnicos, mas é, acima de tudo, extraordinária. Uma prova definitiva de que em Santuário, até mesmo a morte pode ser apenas o início de uma nova e terrível era de poder absoluto.

NOTA

9.0
★★★★★★★★★★

CONSIDERAÇÕES

É um daqueles casos raros onde a renovação não agride a alma da obra original. O Warlock é uma adição primorosa que se encaixa na engrenagem de Diablo II com uma naturalidade assustadora, como se estivesse lá desde o início esperando o momento certo de emergir. No PlayStation 5, o jogo atinge seu ápice sensorial, transformando o combate em algo quase tátil e visceral graças ao uso inteligente do DualSense. Tirando os pequenos soluços técnicos de lançamento que ainda pedem um pouco mais de polimento, há que se tirar o chapéu para o critério e a competência técnica demonstrados. É, sem dúvida, a forma definitiva e mais elegante de se perder novamente para o abismo.

Gustavo Feltes
Gustavo Feltes
Eu amo jogar, jogar é uma parte de mim. Cada história, momento, universo e gameplay me encantam. Eu não tenho restrições de jogos, cada célula do meu corpo clama por isso.
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