Sabe aquela sensação, quase física, de que o mercado de jogos está girando em círculos, tentando nos convencer de que o “mais do mesmo” é refrescante? Pois bem. Eu me sentei diante do meu PC para testar a demonstração de VANRAN e o que encontrei foi uma experiência que me deixou em um estado de absoluto fascínio e, simultaneamente, em uma crise de ansiedade técnica. VANRAN, assinado pela coreana Becuzus, é um RPG de ação que tenta equilibrar a elegância da fantasia sombria com o rigor punitivo do gênero soulslike. É ambicioso, é denso e é, acima de tudo, uma promessa que ainda luta para não tropeçar nos próprios pés.

A Poética da Tortura e a Busca pela Redenção
A história me tocou de uma maneira muito particular. Nós assumimos o papel de Kaleb, um antigo nobre que foi destituído de tudo e jogado nas profundezas de um submundo corrompido como um escravo caído. Ele carrega uma lâmina selada, um objeto que é tanto sua ferramenta de libertação quanto o símbolo de sua condenação eterna. O que acho primoroso é como a Becuzus utiliza referências à Divina Comédia e ao mito de Orfeu para dar peso a cada passo. A narrativa não é um acessório; ela escorre pelo cenário e é tecida diretamente na exploração e nas escolhas morais que moldam múltiplos finais: vingança ou salvação?

A Coreografia do Aço e os Titãs Colossais
Na gameplay, VANRAN abandona a cadência lenta dos soulslikes tradicionais para abraçar uma agilidade febril. O “Chain System” é o coração pulsante aqui. Ele permite que Kaleb se movimente pelo ar e use ganchos para se conectar aos inimigos com uma fluidez que é um deslumbre. É inovador e revolucionário? Talvez não na essência, mas a forma como escala a verticalidade, especialmente nas batalhas contra os Titãs, onde você precisa literalmente escalar o corpo do chefe, traz uma urgência que poucos jogos conseguem replicar. É um balé violento que recompensa o ímpeto e castiga severamente a hesitação.

O Algoritmo do Crescimento Orgânico
Mecanicamente, o jogo faz uma aposta corajosa com o sistema de “Auto-growth”. Em vez de nos perder em tabelas infinitas de atributos, o personagem evolui organicamente com base no nosso estilo de jogo. Se você joga de forma agressiva, sua força cresce naturalmente. Somado a isso, temos as masmorras geradas proceduralmente, garantindo que cada descida ao submundo seja única. É uma tentativa louvável de reduzir a fricção técnica para quem quer focar no combate, embora a aleatoriedade ainda precise de um pouco mais de “alma” no design.

A Estética do Abismo e a Pataquada Sonora
Visualmente, a Unreal Engine cria ambientes que parecem pinturas de um apocalipse gótico. As sombras são profundas e os designs dos inimigos são grotescos. Mas agora, vejam bem, precisamos falar sobre o áudio. É uma pataquada sem tamanho que um jogo com tamanha ambição sofra com falhas tão básicas. Na demo, sons fundamentais como o impacto de lâminas simplesmente desapareciam, criando um vácuo sensorial que quebrava totalmente a imersão e o timing do combate. O som de VANRAN ainda é um silêncio que grita por polimento.

O Embate Tecnológico: Ryzen e o Fantasma do Stuttering
Eu joguei essa demo no meu Ryzen 7 5700x, com uma RTX 4060 e 32 GB de RAM. E o diagnóstico técnico é complicado. Mesmo com um hardware competente, o jogo apresentou um stuttering janky e quedas de quadros irritantes. O uso do motor de otimização híbrido proprietário da Becuzus ainda parece uma promessa não cumprida, e a latência de entrada transformava o parry em uma loteria. É um projeto pesado que precisa urgentemente de uma dieta de código e de um suporte decente para controles.
O Veredito de uma Alma em Chamas
VANRAN é um projeto que transborda paixão, mas que ainda luta para domar a própria escala técnica. O que fica na minha cabeça é a imagem de Kaleb enfrentando o impossível com uma vontade de rebelar-se que é, no fundo, o que nos torna humanos. Se a Becuzus conseguir polir as arestas e entregar a fluidez que o sistema de correntes exige, estaremos diante de uma obra-prima. Por enquanto, é um “pagar para ver” que me deixou intrigado e querendo voltar para aquele inferno.
