É absolutamente fascinante observar como certas obras conseguem florescer no caos, e High on Life 2 é o exemplo perfeito dessa resiliência quase desaforada. Eu confesso que entrei nessa experiência com uma pontinha de ceticismo, afinal, como a Squanch Games sobreviveria à saída traumática de seu criador e voz mais proeminente em meados de 2023? Mas veja bem, o que encontrei aqui, não é apenas uma sequência que tenta mimetizar o sucesso anterior por puro instinto de sobrevivência. É um jogo que parece ter encontrado sua própria maturidade dentro do absurdo, uma obra que sabe exatamente que é polarizadora e, por isso mesmo, decide dobrar a aposta em sua própria identidade ácida.

A introdução nos coloca em um pedestal de glória um tanto quanto desconfortável, celebrando o caçador de recompensas que salvou a humanidade no primeiro título. Há montagens de fama, participações em talk shows e uma sensação de “já ganhei” que me fizeram rir com um misto de vergonha e admiração pela coragem do roteiro. É uma abertura que transborda personalidade e que estabelece, desde os primeiros segundos, que este universo não perdeu seu brilho cáustico. O jogo não pede licença para ser bizarro, ele simplesmente te puxa para dentro de sua alucinação colorida com uma confiança que muitos títulos de grande orçamento hoje em dia parecem ter perdido em prol de fórmulas seguras e higienizadas. É refrescante, de uma maneira quase agressiva, ver um estúdio que não tenta agradar a todos, focando em entregar uma experiência que é, acima de tudo, autêntica e visceral em sua proposta de comédia.

O Capitalismo como a Droga da Vez
A história de High on Life 2 me surpreendeu por ser muito mais do que apenas uma sucessão de piadas escatológicas ou humor de choque. Se o primeiro jogo mirava em um cartel de drogas intergaláctico de forma mais linear, esta sequência decide apontar seus canhões para algo muito mais insidioso e real: a ganância corporativa absoluta. O novo antagonista é a Big Pharma, uma empresa farmacêutica corrupta que pretende nada menos do que legalizar o uso de seres humanos como substâncias narcóticas em uma audiência judicial de proporções galácticas. É uma sátira anticapitalista com dentes muito mais afiados, que brinca habilmente com a lealdade cega às marcas e a adoração quase religiosa que as massas têm por figuras de autoridade corporativa e bilionários excêntricos.

Eu me vi mergulhado em uma trama que, embora mantenha uma estrutura episódica, sustenta um ritmo frenético enquanto caçamos os executivos dessa organização para chegar ao CEO. O que me tocou foi o quanto o aspecto pessoal foi elevado nesta narrativa. Quando uma figura do passado ressurge e coloca um preço pela cabeça da nossa irmã, Lizzie, o jogo ganha um peso emocional que eu honestamente não esperava encontrar entre um disparo de uma arma falante e outro. As missões são de uma criatividade que beira o genial, como resolver um mistério de assassinato em um iate de luxo pertencente a Larry Pinkstock ou participar de um torneio de morte na MurderCon, um cenário de laser tag neon que é puro deleite visual e narrativo. A escrita é rápida, as piadas vêm como metralhadoras e, mesmo que nem todas acertem o alvo de primeira, a intenção por trás de cada diálogo é de uma inteligência que merece ser celebrada em um meio tão carente de roteiros autorais.
Rodinhas que Mudam o Destino
Mas vamos falar do que realmente faz o coração deste jogo bater mais forte: a mecânica de gameplay. A Squanch Games tomou uma decisão que, no papel, poderia parecer um simples truque de marketing, mas que na prática transforma completamente a experiência: a introdução do skate. O skate substitui o sprint tradicional e se torna o pilar central de toda a movimentação e combate. E é de uma fluidez maravilhosa, eu diria até hipnotizante. Deslizar por trilhos, realizar manobras para ganhar impulso e usar a prancha para alcançar novas alturas em níveis que agora seguem uma estrutura de Metroidvania, com três grandes hubs interconectados, dá ao jogo uma verticalidade e uma velocidade que o título anterior jamais sonhou em possuir.

O combate se beneficia diretamente dessa agilidade recém-adquirida. Eu me senti em um daqueles shooters de arena clássicos, mas com um toque de deboche moderno enquanto explodia alienígenas em pleno ar após um kickflip bem executado. As armas, ou Gatlians, continuam sendo as estrelas indiscutíveis do show. O retorno de figuras queridas como Gus e Sweezy é confortante, como reencontrar velhos amigos ranzinzas, mas as novas adições são o que realmente elevam o arsenal a outro patamar. Sheath, por exemplo, é um rifle que dispara estacas eletrificadas capazes de criar tirolesas e resolver quebra-cabeças complexos de eletricidade, unindo utilidade e destruição de forma soberba. Já Travis, a pistola com uma crise existencial sobre seu casamento fracassado, traz um arco narrativo paralelo que é ao mesmo tempo hilário e estranhamente tocante. O design das armas e como elas interagem com o mundo é de uma engenhosidade que mostra um amadurecimento mecânico impressionante por parte dos desenvolvedores.
O Brilho e o Borrão do Futuro
No PlayStation 5, a estética visual de High on Life 2 é uma faca de dois gumes, e aqui precisamos ser honestos. Por um lado, o uso do Unreal Engine 5 proporciona cenários vibrantes, com uma iluminação global que cria ambientes densos e cheios de detalhes alienígenas fascinantes. A direção de arte é impecável, entregando cores saturadas e designs que parecem saltar da tela com uma vivacidade quase tátil. No entanto, a realidade técnica é um pouco mais dura para quem tem olhos treinados. O console renderiza o jogo em uma resolução interna que muitas vezes parece baixa demais, resultando em uma imagem que, em muitos momentos, carece daquela nitidez cristalina que esperamos desta geração. Especialmente quando as luzes neon dominam a cena, há um certo efeito “macio” na imagem que pode distrair os mais exigentes.

O áudio, contudo, é onde eu encontrei um dos meus refúgios favoritos. A trilha sonora é uma obra-prima de sintetizadores experimentais que capturam perfeitamente a estranheza e a psicodelia deste universo. As faixas pontuam o caos com uma energia sintética que é simplesmente viciante, criando uma atmosfera que oscila entre o futurismo retrô e o puro surrealismo. E o trabalho de dublagem, veja bem, é sem dúvida um dos melhores da indústria atual. Contar com talentos que entregam cada linha de diálogo com uma convicção invejável eleva o roteiro a um patamar de entretenimento de primeira linha. Cada arma tem uma voz, uma alma e um tempo cômico que fazem com que você se sinta parte de uma trupe de desajustados espaciais, e não apenas um jogador solitário em frente à TV.

O Desafio da Performance no Console
Infelizmente, preciso falar sobre o desempenho técnico, que é onde a experiência no PlayStation 5 encontra seus maiores obstáculos. O jogo mira nos 60 quadros por segundo, mas a verdade é que ele raramente consegue manter essa meta com a estabilidade que um jogo de tiro tão rápido exige. Em áreas urbanas povoadas ou durante confrontos intensos contra chefes, a taxa de quadros oscila de maneira perceptível, o que pode ser um tanto frustrante quando você está tentando encadear manobras de skate com disparos precisos.

Além disso, eu encontrei uma quantidade considerável de pequenos problemas técnicos, como bugs de colisão e alguns glitches de script que ocasionalmente travavam o progresso de uma missão. Há uma sensação latente de que o jogo precisava de mais algumas camadas de polimento final.
O Eco de uma Alucinação Necessária
High on Life 2 é uma jornada que me deixou com um sorriso no rosto e um gosto agridoce na boca, não por falhas de caráter da obra, mas por ela ser tão corajosa em um mercado saturado de shooters genéricos e sem alma. Ele é um jogo que entende suas próprias imperfeições e as abraça com um desdém charmoso, transformando o absurdo e o “politicamente incorreto” em suas maiores virtudes. O estúdio provou, com louvor, que existe vida inteligente e extremamente engraçada após as turbulências de bastidores, entregando uma sequência que não apenas honra o legado do original, mas o supera em quase todos os aspectos criativos e mecânicos.

A conclusão que tiro é que, apesar dos pesares técnicos e da resolução que às vezes nos obriga a forçar a vista para enxergar a beleza por trás do borrão, o jogo é um triunfo do design de entretenimento puro. Ele nos recorda que, às vezes, tudo o que precisamos para escapar da realidade cinzenta é de uma prancha de skate voadora, uma arma que reclama constantemente do nosso desempenho medíocre e um universo inteiro para salvar das garras de uma corporação farmacêutica maligna. No final das contas, High on Life 2 não é apenas um videogame; é um manifesto barulhento, colorido e absolutamente necessário sobre a importância de nunca perdermos a nossa capacidade de rir do ridículo, mesmo quando o mundo parece estar desmoronando, ou sendo transformado em narcótico, ao nosso redor. É uma alucinação da qual eu, sinceramente, não queria ter acordado tão cedo.
NOTA
CONSIDERAÇÕES
High on Life 2 é aquele tipo de experiência que nos deixa num impasse emocional quase literário. Eu confesso que saio dessa jornada com uma pontinha de melancolia por causa da sua roupagem técnica no PlayStation 5, que muitas vezes parece um borrão de outra era, carecendo daquela nitidez que a gente espera de um console dessa magnitude. No entanto, o que pulsa aqui é uma alma vibrante e uma coragem narrativa que desafia a mesmice corporativa de forma absoluta, com uma sátira que realmente tem dentes e não tem medo de morder. É um acerto visceral que nos lembra que, entre uma manobra de skate e um diálogo insolente de uma arma ranzinza, o videogame ainda pode ser um espaço de autêntica anarquia criativa e diversão pura. No fim, é um jogo que não quer apenas a sua atenção, ele quer a sua cumplicidade no meio do caos.
