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Review | Beyond Sunset (PC)

O Despertar em Néon e Cromo

Há uma chuva fina e digital que nunca cessa em Sunset City. Ela escorre pelos letreiros de néon, reflete em poças de óleo com as cores do arco-íris e serve como trilha sonora para um futuro que, de alguma forma, já parece antigo. Ligar Beyond Sunset pela primeira vez é como encontrar uma fita VHS perdida de um filme que você sempre sonhou em assistir, mas que nunca existiu. A tela pisca, um sintetizador pulsante começa a ditar o ritmo do seu coração, e você é jogado de cabeça nesse mundo. A primeira pergunta que me fiz, enquanto os pixels formavam arranha-céus e becos escuros, não foi “o que eu faço?”, mas sim “o que é isso?”. É uma carta de amor, sem dúvida, a um passado idealizado de jogos de tiro e a uma visão oitentista do futuro. Mas seria apenas uma cópia, uma homenagem bem-feita, ou haveria um fantasma real e pulsante dentro dessa máquina?

Desenvolvido sobre as fundações sagradas de Doom, o jogo da Metacorp não se contenta em ser apenas um “boomer shooter”. Ele aspira a mais. Ele quer ser o filho bastardo de Doom Eternal e Deus Ex, uma fusão de combate frenético e um mundo denso, recheado de histórias para contar. É uma ambição quase arrogante para uma equipe pequena, e é precisamente essa audácia que o torna fascinante. A questão que me acompanhou por cada corredor encharcado de chuva e cada tiroteio explosivo foi se essa fusão resultaria em um ciborgue perfeitamente funcional ou em uma quimera instável, com as costuras de seu código à mostra.

Fragmentos de uma Memória Sintética

A nossa porta de entrada para este mundo é Lucy, uma samurai de rua aprimorada que acorda de um sono criogênico com a clássica amnésia de protagonista. É um clichê, sim, um dos mais gastos do manual cyberpunk, mas aqui ele funciona. A mente de Lucy é uma tela em branco, e o jogo nos convida a preenchê-la não com longas e enfadonhas cenas de exposição, mas com fragmentos de informação espalhados pelo mundo. A história de Beyond Sunset não é algo que você assiste, é algo que você escava.

Você descobre a verdade sobre si mesma e sobre a cidade decadente conversando com NPCs de moralidade duvidosa em bares clandestinos, completando missões secundárias que te levam a zonas de quarentena infestadas de zumbis e hackeando terminais que revelam a podridão corporativa. Quando funciona, essa abordagem é brilhante. O segundo capítulo, por exemplo, te joga em um mapa aberto com a missão de caçar três alvos da Yakuza. A forma como a narrativa justifica a exploração livre é orgânica e imersiva. Você se sente como uma detetive particular em um futuro distópico, conectando os pontos.

Beyond Sunset

No entanto, a herança de Doom por vezes sabota essa ambição. Em outros momentos, a estrutura regride para a clássica “caça à chave colorida”, ainda que disfarçada de “encontre o braço desmembrado para passar pelo scanner biométrico”. Nesses momentos, a ilusão de um mundo vivo se quebra, e Sunset City se revela pelo que realmente é: um labirinto de pixels engenhosamente projetado. A narrativa e o design de níveis estão em um cabo de guerra constante. O jogo é melhor quando a história dita a arquitetura, mas por vezes a arquitetura de um jogo de 1993 grita mais alto, e a imersão paga o preço.

A Dança da Lâmina e da Bala

Se a história de Beyond Sunset é seu cérebro pensante, o combate é sua alma selvagem e furiosa. E que alma. A ação é uma coreografia de violência, um balé cinético onde ficar parado é um convite para a morte. Hordas de inimigos, capangas da Yakuza, robôs de segurança, mutantes disformes surgem em arenas, forçando você a um estado de movimento perpétuo.

A estrela indiscutível deste espetáculo sangrento é a sua katana. Em muitos jogos, a arma branca é um recurso de última hora, um acessório. Aqui, ela é o coração do sistema. Fatiar inimigos é visceral e imediato, mas a verdadeira genialidade está na capacidade de defletir projéteis. Com o timing certo, um clique do mouse transforma uma saraivada de balas inimigas em sua própria arma de contra-ataque. É uma mecânica que transforma a defesa em uma forma agressiva de ataque, e dominá-la é um dos maiores prazeres que o jogo oferece.

As armas de fogo, como a fiel pistola de munição infinita, a espingarda devastadora e a submetralhadora ágil, servem como um elenco de apoio competente. A munição é deliberadamente escassa, o que te força a ser tático e a retornar constantemente à dança da lâmina. A variedade de inimigos exige que você troque de abordagem constantemente: o tiro carregado da pistola é essencial para quebrar os escudos de soldados mais parrudos, enquanto a espingarda limpa uma sala de inimigos mais fracos com uma eficiência brutal. A inteligência artificial, reescrita para evitar os padrões de zigue-zague da era Doom, garante que os inimigos sejam uma ameaça genuína, capazes de flanquear e pressionar, tornando cada confronto um teste de reflexos e estratégia.

Sob a Pele do Jogo: Engrenagens e Fantasmas

Analisando as engrenagens que movem Beyond Sunset, encontramos um design que é ao mesmo tempo elegante e assombrado por fantasmas do passado. A movimentação é o pilar da experiência. O pulo duplo, o deslize e o dash aéreo se combinam para criar um sistema acrobático que te permite navegar pelas arenas de combate com uma fluidez impressionante. Contudo, é aqui que o fantasma do motor GZDoom se manifesta com mais força. O pulo tem uma sensação estranhamente “flutuante”, e colidir com paredes, mesmo que de raspão, reduz sua velocidade a um rastejar patético. Em um jogo onde a mobilidade é vida, essa peculiaridade da física pode ser incrivelmente frustrante e, muitas vezes, fatal.

Beyond Sunset

O motor que impulsiona o combate é a mecânica de “Powerkill”. Matar inimigos preenche uma barra que, uma vez cheia, permite uma execução com a katana que não só elimina um alvo instantaneamente, mas também restaura uma quantidade generosa de vida e munição. Este é o ciclo que define o jogo: você gasta recursos para matar, o que te permite matar mais para recuperar recursos. É um sistema de risco e recompensa brilhante que te incentiva a mergulhar no meio da briga quando sua saúde está baixa. Minha única crítica é que, talvez, a barra se encha rápido demais, o que pode trivializar alguns dos encontros mais difíceis ao oferecer um “botão de pânico” com muita frequência.

O jogo também tenta aprofundar suas mecânicas com elementos de RPG, como upgrades para armas e habilidades, e seções de hacking. Os upgrades são funcionais, adicionando uma camada bem-vinda de progressão. Já os minigames de hacking, que te transportam para um ciberespaço para resolver quebra-cabeças, são, para ser direto, um desastre. São obtusos, quebram completamente o ritmo frenético do jogo e parecem uma ideia que soou melhor no papel. É como puxar o freio de mão a 200 km/h em plena autobahn; uma interrupção brusca e desnecessária no fluxo primoroso da ação.

Sinfonia para um Futuro Esquecido

Se há uma área onde Beyond Sunset atinge a perfeição quase absoluta, é em sua apresentação audiovisual. A direção de arte é um triunfo. A estética “lo-fi”, com seu pixel art nítido e detalhado, combinado com um sistema de iluminação moderno que banha o mundo em tons de magenta, ciano e âmbar, é de tirar o fôlego. Cada cena parece um quadro, uma capa de um romance cyberpunk que você desesperadamente quer ler. É a prova de que a beleza não reside na contagem de polígonos, mas na coesão e na força da visão artística.

Beyond Sunset

E então, há a música. A trilha sonora de Karl Vincent não é apenas um acompanhamento; é uma personagem principal. A synthwave pulsante que embala os tiroteios injeta adrenalina pura em suas veias, enquanto as melodias mais melancólicas e atmosféricas que tocam durante a exploração dão a Sunset City uma alma triste e nostálgica. É, sem exagero, uma das melhores trilhas sonoras que ouvi em um jogo indie nos últimos anos, um “banger” absoluto que eu me peguei ouvindo mesmo com o jogo em pausa.

Infelizmente, o design de som não acompanha essa excelência. Os efeitos sonoros são o elo fraco da apresentação. Algumas armas, como a pistola inicial, soam fracas, sem o impacto que sua performance visual sugere. Pior ainda, a ausência de sons básicos de imersão, como o dos passos de Lucy ou o silvo da katana cortando o ar, é gritante. É um pequeno detalhe, mas que por vezes quebra a imersão, lembrando-nos que, por baixo de toda a sua ambição estilística, ainda existe a estrutura de um mod de Doom.

O Pulso da Máquina

Minha jornada por Sunset City foi a bordo de uma máquina mais do que capaz: um PC equipado com um Ryzen 7 5700x, uma RTX 4060 e 32 GB de RAM. Como esperado de um jogo com uma estética retrô, a experiência foi, na maior parte do tempo, impecavelmente fluida. No entanto, o motor GZDoom tem suas idiossincrasias. A primeira e mais importante lição: use a API gráfica Vulkan. A opção de rodar em OpenGL existe, mas em meu sistema, resultou em engasgos e uma instabilidade que o Vulkan eliminou completamente, entregando uma taxa de quadros sólida e constante.

Beyond Sunset

Mesmo com hardware de ponta e a API correta, não estive totalmente livre de problemas. Encontrei alguns bugs menores e um estranho “input lag” no mouse que parecia não ser afetado por nenhuma configuração de V-Sync ou limite de FPS. Não foi algo que quebrou o jogo, mas foi uma pequena pedra no sapato da fluidez do combate. Dito isso, para um jogo desenvolvido por uma equipe tão pequena, o estado técnico é impressionante. Os problemas existem, mas são pequenos arranhões na lataria de cromo de uma máquina que, no geral, funciona muito bem.

Além do Pôr do Sol: Um Veredito

Ao final da minha jornada, a pergunta que me fiz na primeira hora de jogo encontrou sua resposta. Beyond Sunset não é uma quimera instável, mas também não é um ciborgue perfeito. É algo no meio, e talvez mais interessante por isso. É um jogo de dualidades: sua narrativa brilha quando abraça a exploração livre, mas tropeça quando regride a estruturas arcaicas; seu combate é uma sinfonia de movimento e violência, mas é assombrado pela física peculiar de seu motor ancestral; sua apresentação visual e musical é uma obra de arte, mas é levemente manchada por um design de som funcional, porém sem brilho.

Apesar de suas falhas, a experiência é inesquecível. Beyond Sunset é um testemunho da paixão que define a cena indie. É a prova de que uma visão artística forte e uma mecânica de combate central sólida podem carregar um jogo muito além de suas limitações técnicas. É como dirigir um carro clássico dos anos 80, lindamente restaurado, mas com um motor de foguete adaptado sob o capô. A direção é um pouco instável, alguns parafusos parecem soltos e há um cheiro constante de ozônio, mas a velocidade, o estilo e a pura audácia da coisa toda te proporcionam uma das viagens mais emocionantes da sua vida. Beyond Sunset não é perfeito, mas é vibrante, ousado e, o mais importante, tem uma alma que pulsa em tons de néon. E isso, em um mundo de futuros corporativos e estéreis, vale mais do que qualquer perfeição técnica.

NOTA

8.0
★★★★★★★★★★

CONSIDERAÇÕES

Beyond Sunset é uma joia imperfeita e pulsante. É um jogo de tiro audacioso que acerta em cheio no que mais importa: um combate visceral e estiloso, uma direção de arte deslumbrante e uma trilha sonora espetacular. Apesar de ser assombrado por fantasmas de seu motor antigo — como uma movimentação por vezes frustrante e um design de som que não acompanha a excelência do resto — sua paixão, ambição e alma cyberpunk brilham intensamente. É uma experiência inesquecível que prova que uma visão forte pode superar qualquer limitação técnica.

Gustavo Feltes
Gustavo Felteshttps://theoutpost.com.br
Meu nome é Gustavo Feltes e sou apaixonado por videogames. Desde cedo, os jogos fazem parte da minha vida e sempre foram muito mais do que apenas uma forma de entretenimento para mim.O que mais me fascina nos videogames é a capacidade que eles têm de criar universos únicos e contar histórias envolventes. Cada jogo representa uma nova experiência: mundos para explorar, personagens para conhecer e desafios que despertam curiosidade e emoção.Ao longo dos anos, essa paixão cresceu e se tornou parte importante de quem eu sou. Jogar, descobrir novos títulos e acompanhar a evolução da indústria dos games se transformou em algo natural no meu dia a dia.Hoje continuo explorando diferentes estilos de jogos, sempre interessado em novas experiências e em tudo o que esse universo pode oferecer. Para mim, os videogames são uma das formas mais ricas de entretenimento e expressão criativa da atualidade.
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