Sempre tive um fascínio peculiar por jogos que transformam a monotonia burocrática em entretenimento de alta tensão. Existe algo quase hipnótico na ordem, na papelada e no poder absoluto de decidir quem entra e quem fica de fora. Quando comecei a jogar Contraband Police no meu PlayStation 5, esperava apenas uma variação tridimensional daquele clássico indie de verificação de passaportes que todos conhecemos. O que encontrei, no entanto, foi algo muito mais visceral, sujo e surpreendentemente humano.
Estamos em 1981, na fictícia República Popular de Acaristan. Eu não sou um herói de ação, pelo menos não no sentido tradicional. Sou um estagiário de fronteira, enviado para o posto de Karikatka, um lugar esquecido por Deus onde as montanhas parecem fechar o cerco sobre nós e a cor das árvores reflete a austeridade do regime comunista. A transição deste título para o console da Sony, lançada em novembro de 2025, trouxe essa atmosfera opressiva para a sala de estar, e eu precisava descobrir se a tradução dos controles e da performance conseguiria sustentar o peso daquela cortina de ferro digital.

O jogo se vende como um simulador, mas rotulá-lo apenas assim seria um desserviço. Ele é uma mistura caótica e encantadora de gerenciamento, investigação policial, tiro em primeira pessoa e, claro, muita burocracia.
Conspiração e Moralidade
A narrativa de Acaristan não é entregue em bandejas de prata ou através de longas exposições cinematográficas. Ela está na sujeira das estradas, nos cartazes de propaganda que exigem lealdade cega e, principalmente, nos olhos cansados dos motoristas que param na minha guarita. A trama gira em torno de um conflito civil latente entre o governo totalitário e o grupo rebelde Punho de Sangue.
O que mais me impressionou foi como o jogo me forçou a tomar partido não através de menus, mas através de ações. Em vários momentos, me vi paralisado com um documento na mão. Devo prender este homem que está claramente contrabandeando comida para sua família faminta, ou devo seguir a lei à risca para garantir que meu próprio salário seja pago? Acaristan é um lugar onde a moralidade é um luxo caro.

Eu senti uma conexão genuína com os personagens secundários, como o comissário que late ordens pelo rádio ou os colegas que defendem o posto ao meu lado. A história tem uma textura rugosa, cheia de arestas, onde não existem heróis imaculados. Os rebeldes, que a princípio parecem lutar pela liberdade, muitas vezes recorrem a uma brutalidade que me fez questionar se valia a pena ajudá-los. Essa ambiguidade narrativa é o que mantém você investido. Eu não queria apenas “zerar” o jogo; eu queria saber o que aconteceria com aquele país quebrado se eu tomasse a decisão errada. É uma escrita que entende que a política é feita de pessoas, e pessoas são falhas, o que torna tudo dolorosamente crível.
Entre Papéis e Balas
A estrutura do jogo é um ciclo viciante que oscila entre o tédio metódico e o pânico absoluto. Minha rotina começava sempre da mesma forma: abrir o portão, receber os documentos, verificar datas, nomes, carimbos e o estado do veículo. Pode parecer repetitivo, mas existe uma satisfação quase primitiva em encontrar uma discrepância. Quando eu negava a entrada de alguém por um pneu careca ou um passaporte vencido, sentia uma pontada de orgulho profissional misturada com a culpa de estar servindo a uma ditadura.

No entanto, o jogo não me deixou ficar confortável na minha cabine. A necessidade de sair, dirigir pelo mundo aberto para transportar prisioneiros ou entregar contrabando apreendido, quebrava essa rotina de forma brilhante. A condução dos veículos, aquelas latas velhas soviéticas que parecem pesar uma tonelada e ter a aerodinâmica de um tijolo, adiciona uma camada de tensão física. Cada curva naquelas estradas montanhosas era um desafio.
A gestão do posto fronteiriço também se tornou uma obsessão pessoal. Investir o dinheiro suado em novas viaturas ou em armamento melhor para os meus companheiros não era apenas uma mecânica de jogo, mas uma necessidade de sobrevivência. Eu sabia que, a qualquer momento, uma sirene poderia tocar avisando sobre um ataque rebelde, e se eu não tivesse investido naquelas cercas ou naquele rifle novo, tudo estaria perdido. É um gameplay que te mantém sempre na ponta do sofá, nunca permitindo que você relaxe completamente.
O Tato da Lei
Aqui entramos no território onde a adaptação para o PlayStation 5 mostra suas garras e suas limitações. Adaptar um jogo que nasceu no PC, com a precisão do mouse para clicar em pequenos textos e carimbos, para um controle, é uma tarefa hercúlea. A solução encontrada foi um sistema de cursor magnético que tenta adivinhar para onde você quer olhar.
Eu confesso que, nas primeiras horas, briguei com o controle. Navegar entre o passaporte, a carta de entrada e o manifesto de carga usando os analógicos parecia, às vezes, como tentar montar um relógio usando luvas de boxe. Faltava aquela agilidade cirúrgica do mouse. No entanto, com o tempo, desenvolvi uma memória muscular. O jogo exige que você seja metódico, e o ritmo um pouco mais lento do controle acabou, curiosamente, combinando com a atmosfera burocrática.

Onde a versão de PS5 realmente brilha é no uso do DualSense. A implementação dos gatilhos adaptativos transformou a experiência de combate e inspeção. Quando eu puxava o gatilho da minha AK-47 enferrujada para repelir um ataque, eu sentia a resistência, o “coice” da arma vibrando nas minhas mãos. Da mesma forma, ao usar uma faca para rasgar o estofamento de um banco suspeito em busca de cigarros ou dinheiro, o feedback háptico me passava a sensação de estar realmente cortando tecido. Essa fisicalidade trouxe um peso para as ações que eu não esperava, tornando a tarefa manual de desmantelar um carro uma experiência quase tátil e incrivelmente satisfatória.
Sinfonia Soviética e a Estética do Declínio
Visualmente, Contraband Police não tenta ser uma vitrine de tecnologia de ponta, e isso joga a seu favor. A direção de arte abraça uma estética “suja”, com cores dessaturadas, neblina constante e uma arquitetura brutalista que grita Leste Europeu dos anos 80. Existe uma beleza melancólica em ver o sol nascer sobre as montanhas de Karikatka enquanto você fuma um cigarro virtual antes do turno começar. A iluminação dinâmica, especialmente durante as inspeções noturnas onde eu dependia apenas da minha lanterna e dos holofotes do posto, cria uma atmosfera de filme noir soviético que é deliciosa de se ver.

No departamento sonoro, o jogo é um triunfo de imersão. A decisão de criar uma língua fictícia para Acaristan foi um golpe de mestre. É uma mistura sonora que lembra o polonês ou o russo, mas não é nenhum dos dois, o que evita aquele efeito estranho de ouvir sotaques forçados em inglês. Isso me fez sentir verdadeiramente como um estrangeiro, ou melhor, como um nativo daquele mundo estranho.
A trilha sonora merece um parágrafo à parte. As músicas que tocam no rádio do carro ou nos alto-falantes do posto são melodias folclóricas e rock da era soviética que grudam na cabeça. O som ambiente, do vento uivando nos desfiladeiros ao som seco do carimbo batendo no papel, constrói uma solidão povoada que define a experiência de jogar. Eu me sentia isolado, mas nunca sozinho, sempre vigiado pelos sons daquele mundo.
Engrenagens Enferrujadas
Agora precisamos ter uma conversa franca sobre como essa máquina roda no PS5. O jogo utiliza a Unity Engine, um motor que é conhecido por ser versátil, mas temperamental em consoles. A meta de 60 quadros por segundo é atingida na maior parte do tempo, especialmente quando estou dentro do escritório verificando papéis. A fluidez nessas horas é impecável.
Entretanto, quando a ação escala para o mundo aberto, com perseguições de carro, explosões e tiroteios com múltiplos inimigos, a “crocância” técnica aparece. Notei quedas de quadros perceptíveis em momentos de caos intenso. Além disso, presenciei alguns bugs visuais que me tiraram momentaneamente da imersão, como sombras que piscavam de forma errática em certas superfícies ou texturas de vegetação que demoravam um segundo a mais para carregar quando eu viajava rápido.

Houve momentos em que a inteligência artificial dos motoristas também deixou a desejar, criando engarrafamentos inexplicáveis na entrada do posto que eu precisava resolver na base da paciência. Não é algo que quebre o jogo, longe disso, mas são arestas que mostram que este é um título ambicioso feito por uma equipe menor, tentando socar um mundo de complexidade dentro de um hardware fixo. O carregamento rápido do SSD do PS5, felizmente, mitiga muito da frustração, tornando o reinício após uma morte ou falha quase instantâneo.
Glória a Acaristan?
Ao final da minha jornada em Karikatka, larguei o controle com uma sensação mista de exaustão e realização. Contraband Police no PlayStation 5 é uma obra imperfeita, cheia de arestas técnicas e controles que exigem adaptação, mas é dotada de uma alma vibrante que falta em muitas superproduções polidas e estéreis de hoje em dia.
Ele captura com maestria a angústia de ser uma pequena engrenagem em uma máquina estatal gigante. A transição para o console trouxe a imersão tátil que faltava, transformando a burocracia em algo que você pode sentir na ponta dos dedos. A narrativa me prendeu não por ser grandiosa, mas por ser pessoal, colocando o peso de vidas inteiras sobre um simples carimbo de “Aprovado” ou “Negado”.
Se você procura perfeição técnica, talvez se frustre. Mas se você busca uma experiência que tenha textura, que te desafie moralmente e que ofereça momentos de tensão genuína intercalados com a satisfação metódica do trabalho bem feito, este jogo é imprescindível. Acaristan pode ser um lugar terrível para se viver, mas é um lugar fascinante para se visitar. E acredite em mim, depois de algumas horas, você vai sentir falta do som daquele carimbo batendo na mesa.
É um jogo que fica na cabeça, não pelos gráficos, mas pela forma como ele faz você se sentir poderoso e impotente ao mesmo tempo. Uma joia bruta, suja de graxa e pólvora, que merece ser jogada.
NOTA
CONSIDERAÇÕES
Contraband Police no PS5 é o exemplo perfeito de que um jogo não precisa ser tecnicamente impecável para ser marcante. Ele vence pela personalidade e pela "crocância" de sua proposta: uma mistura viciante de simulador de trabalho, suspense político e ação desenfreada. A adaptação para o console brilha no uso imersivo do DualSense, que dá peso físico à burocracia, mas tropeça na navegação de menus e na performance instável em momentos de caos. É uma experiência rugosa e por vezes frustrante, mas dotada de uma alma vibrante que falta em muitos títulos grandes. Se você tiver paciência para perdoar seus defeitos, encontrará aqui uma das jornadas mais originais e tensas da geração.
