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Review | Enigma do Medo (PC)

O Peso do Invisível: Uma Imersão Crítica em Enigma do Medo

Existe uma qualidade quase tangível na ambição, uma eletricidade que percorre obras que ousam carregar sobre os ombros não apenas a expectativa de um público, mas o peso de um universo inteiro. Ao iniciar Enigma do Medo, projeto monumental da Dumativa em colaboração com Rafael Lange, o Cellbit, fui imediatamente assaltado por essa sensação de gravidade. Não estamos falando apenas de um jogo, mas de um manifesto da capacidade criativa nacional, uma tradução interativa do fenômeno Ordem Paranormal que mobilizou legiões na internet. Entrar no “Perímetro”, esse não-lugar onde a realidade se esgarça, foi como aceitar um convite para um sonho lúcido, onde a beleza estética caminha de mãos dadas com a angústia narrativa. É uma obra que promete muito, que estufa o peito para mostrar a que veio, e que, em sua grandiosidade, inevitavelmente expõe as fissuras de sua própria execução.

Enigma do Medo review

A primeira impressão é a de estar diante de algo artesanal, feito com um cuidado que beira a obsessão. Há uma atmosfera densa, quase irrespirável, que se estabelece nos primeiros minutos. Não é o terror do susto fácil, do “jump scare” gratuito que satura o mercado; é um horror de atmosfera, de melancolia. Contudo, é impossível não sentir, desde o início, que o jogo caminha no fio da navalha entre a genialidade de sua direção de arte e as limitações técnicas que insistem em puxar o jogador de volta para a realidade fria do hardware. É uma experiência de contrastes violentos, onde momentos de pura poesia visual são interrompidos pela aspereza de um código que ainda busca seu equilíbrio.

Laços de Sangue e Tinta

A narrativa de Enigma do Medo é, sem sombra de dúvidas, o coração pulsante que mantém o sangue correndo nas veias dessa experiência. Acompanhamos Mia, uma protagonista que transcende o papel de simples avatar. Ela é um receptáculo de traumas, uma filha em busca de um pai, o lendário Senhor Veríssimo, que desapareceu nas entranhas desse lugar impossível. O que me capturou não foi apenas a “lore” expandida ou os documentos espalhados que explicam o Culto do Medo, mas a humanidade crua dessa busca. Há uma dor latente em cada descoberta, uma sensação de que estamos revirando não apenas gavetas e arquivos, mas as memórias dolorosas de uma família despedaçada pelo paranormal.

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A relação de Mia com seu pai é construída com uma delicadeza que contrasta brutalmente com o horror visceral que a cerca. Veríssimo não é apenas um líder de organização; ele é uma ausência que pesa, um fantasma que guia os passos da filha. E então temos Lupi. Ah, Lupi. Seria fácil descartar o cãozinho como um mero recurso de marketing ou uma mecânica de “fofura”, mas ele é muito mais. Lupi é a âncora de sanidade de Mia, o único elo com a pureza em um mundo corrompido. A mecânica de interagir com ele para recuperar a estabilidade emocional não é apenas funcional; é tematicamente brilhante. É o jogo nos dizendo que, diante do abismo, é o afeto simples e leal que nos impede de cair.

A estrutura não linear da narrativa é um acerto formidável. O jogo confia na minha inteligência, permitindo que eu monte o quebra-cabeça da história no meu próprio ritmo. Descobrir os segredos da Mansão Strach ou as tragédias ocultas no Cemitério não pareceu uma tarefa de preencher requisitos, mas uma investigação arqueológica de emoções. As revelações sobre o passado de Veríssimo e a verdadeira natureza do Perímetro são entregues em doses que instigam, criando um suspense psicológico que perdura muito depois de desligar o computador. É uma história que fica com você, que te faz ponderar sobre os sacrifícios que fazemos por aqueles que amamos e sobre como o medo, em última análise, é o reflexo distorcido do amor.

A Dedução como Arte e o Combate como Fardo

Aqui entramos no terreno pantanoso onde Enigma do Medo mostra suas duas faces mais distintas. Se a investigação é uma dança elegante, o combate é um tropeço desajeitado. O sistema de “Mapa Mental” de Mia é, para mim, a joia da coroa deste design. A sensação de organizar pistas, conectar evidências visuais e deduzir a próxima localização é genuinamente gratificante. O jogo me fez sentir um detetive real, debruçado sobre anotações, buscando padrões no caos. É um sistema que respeita o jogador, que exige atenção e recompensa a curiosidade com aquele “clique” mental delicioso quando tudo se encaixa e a área do mapa fica verde, sinalizando que os mistérios ali foram exauridos.

No entanto, essa elegância é brutalmente interrompida quando o jogo decide que precisa ser um título de ação. O combate sente-se deslocado, um apêndice vestigial de um design que talvez não precisasse dele. A mecânica de tiro é imprecisa, a resposta dos inimigos é errática e os “hitboxes” parecem flutuar em uma realidade paralela. Enfrentar as criaturas do Medo deveria ser aterrorizante pela ameaça que representam à vida de Mia, não pela frustração que causam ao jogador que luta contra controles que não respondem com a fluidez necessária. Utilizar a lanterna para enfraquecer inimigos ou interagir com o ambiente em momentos de tensão torna-se um exercício de paciência, não de habilidade.

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A gestão de sanidade, embora temática, por vezes cai na repetição mecânica. A necessidade de parar para acariciar Lupi ou usar itens de cura mental quebra o ritmo, transformando a tensão em burocracia. Ainda assim, perdoo esses deslizes quando olho para a complexidade dos enigmas. Os puzzles são criativos, fugindo dos clichês desgastados do gênero. Eles exigem lógica, observação e, às vezes, um pensamento lateral que me fez sorrir de satisfação ao encontrar a solução. É nessa cerebralidade, nesse convite ao raciocínio, que o jogo brilha intensamente, ofuscando suas falhas de ação. O modo “Detetive”, que remove as rodinhas da bicicleta e exige anotações reais, é um presente para os puristas, embora o modo Normal já ofereça desafio suficiente para a maioria.

Luzes que Ferem, Sons que Curam

Esteticamente, Enigma do Medo é um triunfo indiscutível, uma prova de que a direção de arte supera a fidelidade gráfica bruta. A decisão de mesclar personagens em Pixel Art com cenários tridimensionais e uma iluminação dinâmica cria uma atmosfera que é, ao mesmo tempo, nostálgica e modernamente inquietante. Existe uma beleza melancólica nos ambientes, desde a decadência opulenta da mansão até a frieza opressiva das cavernas de cristal. O uso de luz e sombra não é apenas cosmético; é narrativo. A escuridão esconde perigos reais, e a lanterna de Mia corta esse breu com um realismo que impressiona, criando sombras dançantes que brincam com nossa paranoia e dão vida ao cenário.

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Mas o que realmente eleva a experiência a um patamar cinematográfico é o som. A dublagem é estelar, trazendo pesos pesados como Guilherme Briggs e Wendel Bezerra, que conferem uma gravidade e uma emoção que textos mudos jamais conseguiriam. A interpretação de Mia transmite vulnerabilidade e determinação em medidas iguais, enquanto as fitas e ecos do passado ressoam com uma veracidade assustadora. A trilha sonora, composta pela equipe da Dumativa, sabe exatamente quando calar para deixar o silêncio criar tensão e quando explodir em cacofonias que aceleram o coração. É um desenho de som que entende o silêncio como uma arma e a música como um condutor de emoções, guiando o jogador através dos picos e vales da narrativa.

A Realidade da Máquina

Agora, preciso despir-me da admiração artística para falar sobre a realidade técnica, que foi, infelizmente, uma montanha-russa. Joguei Enigma do Medo em uma configuração robusta: um processador Ryzen 7 5700X acompanhado de uma placa de vídeo RTX 4060. Teoricamente, uma máquina mais do que capaz de lidar com um jogo indie que mistura 2D e 3D. No entanto, a performance foi inconsistente a ponto de quebrar a imersão em momentos cruciais. É frustrante notar que, mesmo com hardware competente, o jogo sofre de problemas sérios de otimização, típicos de implementações da Unreal Engine que lutam com a compilação de shaders.

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O famigerado “stuttering” foi um companheiro constante e indesejado, especialmente ao entrar em novas áreas ou durante transições rápidas de cenário. Houve momentos em que a taxa de quadros, que deveria ser estável acima de 60 ou até 100 FPS dada a força bruta da RTX 4060, despencava inexplicavelmente, transformando a fluidez do movimento em um slide-show momentâneo. A culpada, em muitos casos, parecia ser a neblina volumétrica. Embora visualmente impressionante, ela cobra um preço alto demais do hardware. Desativar a neblina, uma opção, resultou em um ganho de performance desproporcional, sugerindo que este efeito específico não está adequadamente otimizado para a geometria do jogo.

O Veredito do Medo

Ao final dessa jornada exaustiva e emocional, Enigma do Medo revela-se como uma obra de paradoxos fascinantes. É um jogo que eu quero amar incondicionalmente, pela sua coragem, pela sua estética deslumbrante e pela sua narrativa que toca na alma com uma sensibilidade rara. Ele traz o “tempero brasileiro” para o horror de uma forma que nos enche de orgulho, mostrando que temos criatividade e talento para competir globalmente, criando mitologias próprias que não devem nada às grandes produções internacionais. A sensação de desvendar os mistérios do Perímetro, de conectar as pontas soltas da história de Veríssimo e de proteger Lupi, é algo que vou carregar comigo como uma memória vivida, não apenas como um jogo zerado.

Enigma do Medo review

Contudo, não posso fechar os olhos para as arestas que ferem. O combate desajeitado e a otimização precária são âncoras que impedem o jogo de alçar o voo perfeito que ele merecia. Para o jogador que busca apenas ação frenética ou polimento técnico impecável, Enigma do Medo pode ser uma fonte de frustração. Mas para aquele que, como eu, valoriza a atmosfera, a história e a dedução, e que tem paciência para perdoar os tropeços técnicos em nome de uma experiência artística superior, este jogo é, sim, imperdível. É uma joia bruta, com falhas visíveis, mas que brilha com uma luz intensa e única no cenário dos jogos nacionais. É a prova de que, mesmo no medo, existe uma beleza terrível esperando para ser descoberta, se tivermos a coragem de olhar para ela de frente.

NOTA

8.5
★★★★★★★★★★

CONSIDERAÇÕES

Enigma do Medo é um triunfo artístico e narrativo que carrega a identidade do horror nacional com maestria, oferecendo uma investigação envolvente e um peso emocional genuíno que poucos jogos alcançam. No entanto, a experiência é inegavelmente marcada por falhas técnicas de otimização e um combate pouco refinado que podem frustrar o ritmo da jornada. É uma "joia bruta": imperfeita, mas valiosa demais para ser ignorada por quem busca uma boa história de mistério.

Gustavo Feltes
Gustavo Feltes
Eu amo jogar, jogar é uma parte de mim. Cada história, momento, universo e gameplay me encantam. Eu não tenho restrições de jogos, cada célula do meu corpo clama por isso.
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Enigma do Medo é um triunfo artístico e narrativo que carrega a identidade do horror nacional com maestria, oferecendo uma investigação envolvente e um peso emocional genuíno que poucos jogos alcançam. No entanto, a experiência é inegavelmente marcada por falhas técnicas de otimização e um combate pouco refinado que podem frustrar o ritmo da jornada. É uma "joia bruta": imperfeita, mas valiosa demais para ser ignorada por quem busca uma boa história de mistério.Review | Enigma do Medo (PC)