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Review | Farming Simulator 25: Highlands Fishing (PS5)

O Peso da Chuva e a Leveza do Código em Kinlaig

Esqueça por um momento a ideia de que jogos servem apenas para fugir da realidade. Farming Simulator 25: Highlands Fishing Edition no PlayStation 5 não é uma fuga. É um convite para abraçar uma outra realidade, uma mais fria, úmida e metodicamente lenta. Quando pisei pela primeira vez no solo virtual de Kinlaig, a nova região inspirada na Escócia, não senti aquela empolgação juvenil de quem vai salvar o mundo. Senti o peso da responsabilidade e a promessa de um trabalho árduo. A Giants Software tentou capturar a alma das Terras Altas, aquele misto de beleza agressiva e solidão pastoril, e transportá-la para a nossa sala de estar.

Farming Simulator 25: Highlands Fishing

A proposta aqui é audaciosa. Sair da segurança da terra firme e domar as águas gélidas através da pesca comercial e da aquicultura parecia ser o passo evolutivo que a franquia precisava desesperadamente. Mas a realidade de jogar isso no console da Sony é um teste de fé. Você se vê constantemente maravilhado pela ambição artística do projeto e, no minuto seguinte, completamente enraivecido pela execução técnica claudicante. É como comprar um carro de luxo clássico que é lindo de se ver na garagem, mas que engasga toda vez que você tenta subir uma ladeira. A atmosfera te puxa para dentro, te seduz com a neblina e o verde musgo, mas o jogo em si parece lutar contra a sua imersão a cada passo do caminho. Não estamos falando apenas de plantar e colher aqui. Estamos falando de tentar encontrar ordem no caos de um código que, por vezes, parece ter sido escrito por alguém que odeia fazendeiros e pescadores em igual medida.

Arqueologia de um Mundo Sem Gente

Pode parecer estranho falar de narrativa em um simulador onde sua maior interação social é vender soja para um armazém sem rosto. Contudo, Kinlaig possui uma história, e ela é contada pelas pedras. A narrativa ambiental aqui é de uma sofisticação que me pegou desprevenido. Ao explorar o mapa, você não está apenas dirigindo de um ponto A ao ponto B; você está atravessando séculos de história humana e arquitetônica. As ruínas que pontilham a paisagem não são meros enfeites de cenário. Elas são cicatrizes de um passado que o jogo te convida a descobrir.

Farming Simulator 25: Highlands Fishing

Existe uma missão silenciosa, quase uma caça ao tesouro pessoal, que envolve encontrar doze garrafas com mensagens espalhadas pelo mapa. Cada mensagem recuperada é um fragmento de vida, uma peça de um quebra-cabeça que compõe a história local e que é imortalizada em um livro no castelo da cidade. E falando em castelo, a possibilidade de restaurar uma dessas fortalezas antigas é talvez o arco narrativo mais gratificante que já vi na série. Não é apenas juntar dinheiro. É preciso fornecer cimento, pedras, telhas e vigas de madeira em quantidades industriais. Ver aquela estrutura se reerguer graças ao seu esforço logístico cria um senso de propósito que vai muito além do lucro financeiro.

O problema reside no fato de que este cenário rico e cheio de história é habitado por fantasmas digitais. Os NPCs que vagam por Kinlaig são desconcertantes. Eles quebram a magia que o cenário constrói. Você sente que está em um museu incrivelmente detalhado à noite, cercado por manequins que ocasionalmente se movem. A desconexão entre a profundidade histórica do mapa e a superficialidade dos seus habitantes vivos cria uma atmosfera de isolamento que oscila entre a paz monástica e a solidão pós-apocalíptica.

Anzóis, Cebolas e a Revolta das Máquinas

Vamos direto ao ponto nevrálgico desta edição: a jogabilidade. A grande promessa era a pesca, a “Highlands Fishing” que dá nome ao pacote. Eu esperava uma simulação robusta, algo que exigisse leitura das marés, escolha de iscas e compreensão do comportamento dos peixes. O que recebi foi um insulto à inteligência do jogador. A mecânica de pesca é rasa, resumindo-se a segurar um botão e soltá-lo no momento certo. Parece um minigame barato de celular portado às pressas para um console de nova geração. Não há luta, não há estratégia, apenas uma barra de progresso glorificada.

E se a pesca a pé é decepcionante, a experiência náutica é um desastre de física. Os barcos comportam-se de maneira bizarra. O barco menor tem a estabilidade de uma canoa de papel em meio a um furacão, virando e girando com uma sensibilidade que torna a navegação um exercício de frustração pura. Já a barcaça de carga, necessária para transportar suprimentos para os viveiros de peixes em alto mar, move-se com a urgência de uma geleira. Tentar manobrar essas embarcações com o controle do PS5 é uma tarefa que exige a paciência de um santo, e frequentemente termina com o barco preso na geometria do cais ou voando pelos ares devido a um glitch de colisão.

Farming Simulator 25: Highlands Fishing

Em terra firme, a novidade são as cebolas e as máquinas especializadas para seu cultivo. Visualmente e mecanicamente, o processo de plantio e colheita é fascinante, com equipamentos cheios de partes móveis detalhadas. Mas aqui encontramos outro obstáculo técnico severo: a Inteligência Artificial. Há um bug recorrente e exasperante com o novo enleirador de cebolas onde os trabalhadores contratados simplesmente se recusam a funcionar. Eles param no meio do campo, dão voltas em círculos ou ignoram faixas inteiras de colheita. Você paga por uma ajuda que não funciona, sendo obrigado a assumir o volante para corrigir a incompetência do computador. É inadmissível que, em 2025, a IA de um simulador de topo de linha ainda lute para dirigir em linha reta.

A Beleza Cinzenta e o Som do Silêncio

Visualmente, Kinlaig é uma faca de dois gumes no PlayStation 5. Quando você está parado, observando o amanhecer romper a neblina densa sobre um campo de trigo orvalhado, o jogo é de cair o queixo. O novo motor gráfico consegue renderizar uma iluminação volumétrica que dá peso e textura ao ar. A paleta de cores, dominada por verdes profundos, cinzas ardósia e o marrom rico da terra revolvida, captura a melancolia escocesa com perfeição. A água, apesar de sua física questionável, é linda de se ver, refletindo o céu chumbado com realismo impressionante.

No entanto, essa pintura a óleo em movimento é manchada por problemas técnicos visíveis. O “screen flickering”, ou cintilação da tela, é um problema constante e irritante. Texturas de árvores e vegetação distante piscam freneticamente, especialmente quando você move a câmera, quebrando a imersão e cansando a vista. Sombras aparecem e desaparecem sem aviso, e oclusão ambiental em objetos pequenos falha com frequência. É doloroso ver um cenário tão artisticamente bem construído ser traído por falhas de renderização tão básicas.

Farming Simulator 25: Highlands Fishing

Onde o jogo se redime quase completamente é no design de som. Se você fechar os olhos, você está na Escócia. O som da chuva batendo no teto da cabine do trator é hipnótico. O vento não é um ruído estático; ele tem camadas, uivando nos vales e sussurrando nas árvores. O som mecânico das máquinas é pornografia auditiva para entusiastas de engenharia. O ronco gutural dos motores a diesel, o clique metálico das engrenagens, o silvo hidráulico dos braços de carga; tudo tem peso e presença. As estações de rádio exclusivas adicionam um sabor local ou permitem que você trabalhe ao som de rock clássico, criando uma bolha acústica de isolamento que é, sem dúvida, o ponto alto da experiência sensorial.

O Dilema dos Quadros e a Redenção Tátil

Desempenho no PlayStation 5 é um tópico que precisamos abordar com honestidade brutal. O jogo nos força a escolher entre dois modos que parecem incompletos. O modo Fidelidade oferece a resolução 4K nativa que faz o cenário brilhar, mas trava o jogo em 30 quadros por segundo. Para um simulador lento, isso poderia ser aceitável, mas a falta de fluidez torna o movimento da câmera arrastado e impreciso, o que atrapalha no alinhamento fino das máquinas.

Farming Simulator 25: Highlands Fishing

Do outro lado, temos o modo Desempenho. Ele promete e entrega 60 quadros por segundo na maior parte do tempo, mas o sacrifício visual é severo. A imagem torna-se borrada, perdendo aquela nitidez crocante que define a nova geração. E mesmo assim, o jogo não está livre de quedas de quadros. Quando a tela está cheia de partículas de colheita, chuva e múltiplos veículos, o PS5 sua a camisa e a taxa de quadros oscila, causando engasgos perceptíveis.

O Veredito do Pescador

Chegar ao fim de uma longa sessão em Farming Simulator 25: Highlands Fishing Edition deixa um gosto agridoce na boca. Como produto, ele é falho, bugado e, em certos aspectos como a pesca e a física dos barcos, beira o amadorismo. É difícil justificar o preço cheio quando a inteligência artificial dos trabalhadores ainda exige babá e quando o motor gráfico luta para manter a imagem estável sem piscar. A frustração é uma companheira constante neste jogo, seja por um trator preso em uma cerca invisível ou por um barco que decide desafiar a gravidade.

E ainda assim, há uma magia inegável aqui. A atmosfera de Kinlaig é magnética. Existe uma satisfação primitiva e profunda em ver o seu império crescer, em restaurar um castelo pedra por pedra, em enfrentar o clima hostil para garantir a colheita. O jogo exige paciência, exige que você perdoe seus erros técnicos em nome da experiência maior de “estar lá”. Se você é o tipo de jogador que busca polimento extremo e ação instantânea, passe longe. Este jogo vai te insultar. Mas se você consegue encontrar beleza na rotina, se o som da chuva e o ronco de um motor a diesel são música para os seus ouvidos, e se você tem a resiliência para rir dos bugs em vez de chorar, então as Terras Altas têm um lugar para você. É uma jornada imperfeita, suja e muitas vezes quebrada, mas que, nos seus raros momentos de clareza, oferece uma paz que nenhum outro jogo no mercado consegue replicar. Eu não recomendaria para qualquer um, mas para o público certo, é um vício difícil de largar.

NOTA

7.0
★★★★★★★★★★

CONSIDERAÇÕES

Farming Simulator 25: Highlands Fishing Edition é um gigante com pés de barro. O mapa Kinlaig é visualmente deslumbrante e a atmosfera sonora escocesa é imersiva , especialmente com o feedback tátil do DualSense que dá peso real às máquinas. No entanto, a expansão trai seu próprio nome: a pesca é um minigame raso e sem alma , e a física dos barcos é desastrosa. Com bugs críticos que quebram a IA nas novas culturas de cebola e problemas visuais de cintilação que cansam a vista, o jogo é um teste de paciência. Vale pela beleza e pela rotina agrícola clássica, mas como produto completo e polido no PS5, ele deixa muito a desejar.

Gustavo Feltes
Gustavo Felteshttps://theoutpost.com.br
Meu nome é Gustavo Feltes e sou apaixonado por videogames. Desde cedo, os jogos fazem parte da minha vida e sempre foram muito mais do que apenas uma forma de entretenimento para mim.O que mais me fascina nos videogames é a capacidade que eles têm de criar universos únicos e contar histórias envolventes. Cada jogo representa uma nova experiência: mundos para explorar, personagens para conhecer e desafios que despertam curiosidade e emoção.Ao longo dos anos, essa paixão cresceu e se tornou parte importante de quem eu sou. Jogar, descobrir novos títulos e acompanhar a evolução da indústria dos games se transformou em algo natural no meu dia a dia.Hoje continuo explorando diferentes estilos de jogos, sempre interessado em novas experiências e em tudo o que esse universo pode oferecer. Para mim, os videogames são uma das formas mais ricas de entretenimento e expressão criativa da atualidade.
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