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Review | Ink Inside (PC)

Engrenagens de Grafite e Desafios de Tinta

O silêncio de um armário fechado guarda segredos que o tempo costuma tratar com uma crueldade silenciosa. Encontrar um objeto de infância perdido, coberto pela poeira do descaso, desperta uma melancolia que não é apenas tristeza, mas uma forma de reconhecimento. Essa descoberta carrega o peso dos anos, como se abríssemos uma cápsula temporal contendo pedaços fragmentados de quem fomos antes do mundo nos endurecer. Ao iniciar minha jornada em Ink Inside no PC, senti exatamente esse peso. O jogo não se apresenta como um software comum: ele se manifesta como um artefato recuperado do esquecimento. Ele nasceu de um piloto de desenho animado para a Nickelodeon que jamais chegou às telas, uma ideia que ficou guardada, maturando no escuro, até encontrar seu lugar nos videogames. Essa origem televisiva dita cada escolha estética e narrativa, fugindo de qualquer clichê heróico protocolar. O mundo vibrante, desenhado inteiramente à mão, pulsa dentro dos cadernos de Hannah. Guardados em um armário com uma goteira persistente, esses desenhos enfrentam agora um apocalipse hídrico chamado Sog. É a negligência do mundo real transformando-se em monstros no mundo da imaginação, onde cada gota de água é uma sentença de apagamento.

Ink Inside

Lágrimas de Teto e Lembranças de Papel

A narrativa de Ink Inside opera em duas frequências emocionais que se entrelaçam com uma elegância rara. De um lado, acompanho a aventura de Stick dentro das páginas, lutando contra a corrupção da água que ameaça dissolver sua realidade. Do outro, sou apresentado a Hannah por meio de sequências em live-action, filmagens caseiras que mostram a menina e sua família. Essa decisão de usar vídeo real para retratar a criadora é um golpe de mestre. Ela ancora a fantasia em uma realidade palpável e dolorosa. As filmagens evocam memórias de uma infância analógica, tornando a tragédia do vazamento no teto algo profundamente pessoal. Stick, o protagonista, é um desenho inacabado, um esboço que carece de um braço e de uma identidade clara. Ele sofre de uma perda de Memória Genética, o que o jogo chama de Gene Meme. Cada habitante daquele mundo herdou sentimentos e pensamentos que Hannah possuía no exato momento em que os desenhou. Ver Stick recuperar essas lembranças é testemunhar uma reflexão sobre como nossas criações carregam partes de nós que, muitas vezes, sequer compreendemos ou aceitamos.

Ink Inside

O ritmo da história possui a cadência de uma temporada de animação de alta qualidade. Não há pressa, mas há uma urgência emocional constante. Conheci personagens que transbordam personalidade, como o Detective Fuzz, um mentor felpudo e cético, e a inesquecível Traff, a Princesa do Palavrão. Traff é, sem dúvida, o ponto alto do roteiro. Ela subverte completamente o arquétipo da princesa indefesa: ela fala como um caminhoneiro em dia de trânsito caótico e golpeia com o vigor de um veterano de guerra. Sua presença traz um humor ácido necessário para equilibrar a melancolia da trama, criando uma dinâmica de grupo que soa genuína e vibrante. A Sog não é meramente um vilão a ser derrotado, mas uma representação do tempo que passa e do descuido com as coisas que amamos. Quando um personagem é consumido pela água, ele se torna um borrão agressivo e sem alma. A missão de Stick, portanto, é um resgate da dignidade desses desenhos esquecidos. Embora o jogo termine com pontas soltas para preparar o terreno para sequências, o arco emocional desta etapa é satisfatório e deixa um gosto de quero mais no peito.

Ink Inside

A Dança Cinética do Queimado Existencial

O gameplay de Ink Inside me segurou pelas mãos com uma proposta que soa absurda, mas que se prova brilhante na execução. Esqueça o combate de ação genérico. Aqui, os conflitos existenciais são resolvidos em partidas intensas de queimado, o famoso dodgeball, fundidas com elementos clássicos de beat em up. O campo de batalha possui uma linha central que serve como uma barreira estratégica absoluta. De um lado, Stick e seus aliados tentam sobreviver: do outro, os monstros corrompidos pela Sog lançam ataques implacáveis. O controle no PC é de uma precisão cirúrgica, respondendo com uma elasticidade que remete diretamente às melhores animações da década de noventa. Utilizo núcleos chamados Cores, que são essencialmente minhas armas principais. É necessário carregar o arremesso e mirar com o mouse para maximizar o impacto, o que exige do jogador uma atenção constante ao posicionamento e ao tempo de recarga. Se você erra o alvo, Stick fica temporariamente vulnerável, o que força uma movimentação frenética pelo cenário para recuperar o projétil.

Ink Inside

A sensação de impacto é estupenda e visceral. Quando uma bola atinge um oponente, o feedback visual é imediato, com borrões de tinta saltando da página e um som seco que confirma o acerto. O jogo introduz camadas de complexidade conforme avançamos, apresentando inimigos que bloqueiam ataques, refletem projéteis e utilizam o cenário de papel contra o jogador. Há momentos em que o campo de batalha se torna um caos coreografado, exigindo dashs precisos e uma leitura rápida da tela para não ser obliterado. A interação com o mundo segue a cartilha dos grandes clássicos do gênero RPG. Stick usa seus Cores para interagir com o ambiente, ativando interruptores distantes ou destruindo paredes de papel que escondem segredos. O design dos níveis é inteligente e incentiva a revisitação de áreas anteriores conforme novas habilidades são adquiridas. Entretanto, o sistema de mapa é um ponto baixo. Ele se apresenta de forma minimalista ao extremo, muitas vezes confundindo mais do que ajudando, o que pode quebrar o ritmo da exploração para quem não tem paciência com sistemas de navegação arcaicos.

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Engrenagens de Grafite e Desafios de Tinta

Ao mergulhar nas mecânicas mais profundas, encontrei um sistema de progressão que é surpreendentemente denso para um jogo com essa estética. Existem quatorze núcleos principais e três secretos, cada um com atributos únicos de dano, velocidade e efeitos elementares. Eu me vi constantemente alternando equipamentos para me adaptar aos diferentes desafios. Alguns núcleos são pesados e lentos, ideais para destruir armaduras inimigas, enquanto outros são velozes e aplicam efeitos de lentidão. O sistema de Ofícios, os Jobs, é uma decisão de design que merece aplausos de pé. Em vez de simplesmente acumular pontos de experiência para subir de nível de forma passiva, o jogo apresenta trinta e três desafios específicos. Para desbloquear uma melhoria de força ou uma nova habilidade, precisei realizar feitos concretos em batalha, como derrotar inimigos com ataques aéreos ou realizar bloqueios perfeitos em sequência. Isso transforma cada combate em uma oportunidade de crescimento consciente e recompensador.

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A customização do meu estilo de jogo foi além dos núcleos. Existem vinte itens de agilidade que alteram a forma como Stick se esquiva e vinte e um equipamentos de tecnologia focados na defesa e no contra-ataque. A mecânica de Quebrar as Regras é o ápice de todo esse sistema. Quando a barra de energia especial se enche, Stick pode literalmente romper a barreira central do campo e invadir o lado dos inimigos. Nesses breves instantes, o jogo se transforma em um beat em up puro, permitindo que eu descarregasse sequências de socos e chutes que ignoram completamente as defesas adversárias. É um recurso poderoso, mas que exige sabedoria no uso, especialmente contra os chefes que possuem janelas de vulnerabilidade muito curtas. O que cansa, ocasionalmente, é a necessidade de voltar por caminhos já percorridos. Em certos trechos, o backtracking para cumprir missões secundárias ou avançar na trama principal torna o progresso um pouco arrastado, especialmente quando as batalhas repetitivas começam a perder o frescor da novidade.

Cores que Falam e Sons que Desenham

A direção artística de Ink Inside é um deleite visual que celebra a imperfeição do traço humano acima de tudo. Ao caminhar pelo mundo, senti que estava explorando as páginas de um diário criativo e confuso. Há uma mistura fascinante de estilos: alguns personagens parecem feitos de recortes brutos de papelão, outros brilham com a vibração do giz de cera e alguns são meros esboços rápidos a lápis. Stick, com seu braço de marca-texto que brilha em momentos de poder, é a representação perfeita dessa criatividade tátil. As margens dos cadernos são repletas de anotações e rabiscos laterais, enquanto as áreas mais afetadas pela Sog possuem uma aparência lavada, como se a cor tivesse sido drenada por uma enchente real. O áudio captura perfeitamente esse tom de aventura melancólica com uma trilha composta por mais de vinte faixas originais. Existe uma vibração eletrônica sutil que remete a trilhas sonoras de baixo orçamento, criando um contraste instigante com o visual orgânico dos desenhos.

Ink Inside

A dublagem de Brian David Gilbert traz uma vulnerabilidade brava que torna Stick um personagem amável desde o primeiro diálogo. A performance de Deneen Melody e do restante do elenco eleva o roteiro, garantindo que os diálogos, que por vezes são extensos, nunca percam o interesse do jogador. A identidade sonora do jogo é tão robusta que, mesmo sem as imagens, seria possível identificar que estamos no universo de Ink Inside. É um exemplo claro de como a sensibilidade artística e a direção de arte coesa podem superar orçamentos multimilionários. Cada som de impacto da bola no papel e cada nota musical melancólica contribuem para a imersão total nesse universo de celulose e tinta. É um trabalho primoroso que respeita a inteligência e a sensibilidade do jogador.

O Desempenho do Traço no Silício

Minha análise técnica no PC foi realizada em uma configuração composta por um Ryzen 7 5700X, uma placa de vídeo RTX 4060 e 32 GB de RAM. Os resultados foram, no mínimo, curiosos e revelam um cenário de otimização que ainda precisa de atenção. Embora o hardware seja mais do que suficiente para o estilo artístico proposto, notei que o jogo exige muito mais da GPU do que o esperado. Em diversos momentos, a RTX 4060 operou com carga máxima, beirando os cem por cento de uso, enquanto o processador Ryzen permanecia quase em estado de repouso, raramente ultrapassando os dezesseis por cento de utilização. Essa disparidade indica que o motor gráfico do jogo, apesar de entregar visuais belíssimos, ainda tem dificuldades em gerenciar recursos de forma equilibrada, especialmente na arquitetura das placas mais recentes da Nvidia.

Ink Inside

Em resolução 1080p, a fluidez é geralmente boa, mas presenciei quedas de performance inexplicáveis em cenários que abusavam de efeitos de transparência e simulação de água. O uso de 32GB de RAM foi fundamental para garantir que as transições para as cenas em live-action fossem rápidas, mas não impediu que pequenos bugs visuais surgissem. Em raras ocasiões, quadrados cor-de-rosa apareceram no fundo da tela durante animações de ataques especiais, um erro de processamento de partículas que quebra momentaneamente a imersão. É uma experiência funcional e infinitamente superior às versões de console, que sofrem com problemas técnicos graves, mas fica evidente que o título carece de um polimento final para brilhar como deveria nesse hardware específico.

O Ponto Final Inacabado

Concluir Ink Inside me deixou com uma sensação agridoce, aquela que sentimos ao fechar um excelente livro sabendo que a continuação ainda levará anos para chegar. O jogo é um lembrete poderoso de que a arte não precisa estar finalizada ou ser perfeita para ter um significado profundo. Stick, o herói de palitos que não tem um braço porque sua criadora simplesmente esqueceu de desenhá-lo, é uma metáfora viva para todos nós. Todos carregamos partes inacabadas, memórias que o tempo borrou e talentos que ficaram guardados em armários escuros por tempo demais. A obra de Richard Mansfield é uma carta de amor à criatividade bruta e à nostalgia das manhãs de sábado, quando o mundo parecia caber dentro de uma folha de papel e uma caixa de lápis de cor.

Apesar dos tropeços no sistema de mapa e de uma otimização que ainda exige ajustes no PC, o coração de Ink Inside bate com uma sinceridade que é impossível de ignorar. Ao fim desta jornada, o que resta é a imagem de Hannah cuidando de seus desenhos e de Stick lutando para que eles continuem existindo. É uma celebração da conexão entre criador e criatura. Enquanto houver alguém para lembrar e alguém disposto a lutar, nada está verdadeiramente perdido para o esquecimento. Se você busca uma experiência que desafie seus reflexos, mas que também acolha sua alma com um abraço quente e melancólico, este jogo é uma escolha incontornável. É uma pequena obra-prima feita de grafite, coragem e a beleza eterna do que ainda não terminou de ser escrito.

NOTA

8.0
★★★★★★★★★★

CONSIDERAÇÕES

Ink Inside é um triunfo da sensibilidade sobre a técnica. É uma obra que entende a melancolia do esquecimento e a beleza de ser incompleto. Apesar da otimização no PC ser temperamental para a RTX 4060, a alma desta jornada é tão vibrante que os borrões técnicos tornam-se secundários.

Gustavo Feltes
Gustavo Feltes
Eu amo jogar, jogar é uma parte de mim. Cada história, momento, universo e gameplay me encantam. Eu não tenho restrições de jogos, cada célula do meu corpo clama por isso.
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