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Review | Mortal Kombat: Legacy Kollection (PC)

A Cripta Desenterrada

Existe uma armadilha traiçoeira na nostalgia. Nós não queremos revisitar o passado; queremos recapturar um sentimento. E esse sentimento é uma mentira. É uma versão editada, curada e idealizada de quem éramos e do que amávamos. Quando um produto como a Mortal Kombat: Legacy Kollection chega ao PC, ele não está vendendo jogos. Ele está vendendo o resgate dessa mentira gloriosa. Ele se apresenta como um arqueólogo, prometendo desenterrar nosso passado pixelado e restaurá-lo em alta definição.

Mas esta coleção não é uma restauração. É uma exumação.

O pacote em si é um monumento. São 23 jogos, ou melhor, 23 versões de jogos, que cobrem a ascensão meteórica da franquia e sua queda embaraçosa. Temos os clássicos que definiram uma geração (Mortal Kombat 1, 2 e 3), suas várias encarnações de console e, crucialmente, os filhos bastardos que a família tenta esconder: os infames Mortal Kombat 4Mythologies: Sub-Zero e Special Forces.

Mortal Kombat: Legacy Kollection

O problema é que a Mortal Kombat: Legacy Kollection é um paradoxo fundamental. É, simultaneamente, o museu mais espetacular já construído para uma franquia de videogame e um dos piores produtos de software que eu já tive o desprazer de instalar. É uma celebração fantástica da história de Mortal Kombat e uma forma tecnicamente horrenda de jogá-la. Esta análise não é sobre os jogos; eles já foram julgados pelo tempo. Esta é a minha avaliação da arquitetura e da curadoria desta bela catástrofe cultural.

O Museu Perfeito (Trancado num Cofre Enferrujado)

Vamos começar pelo que é, sem hipérbole, brilhante. A desenvolvedora Digital Eclipse entendeu que a verdadeira alma de Mortal Kombat não está apenas nos Fatalities; está na sua história de bastidores. E aqui, eles entregaram uma obra-prima.

O coração pulsante desta coleção não são os jogos, mas sim o seu modo de documentário interativo.

Isto não é uma seleção preguiçosa de extras. É uma linha do tempo explorável, uma tese de doutorado jogável sobre a criação de um ícone cultural. Temos entrevistas inéditas com a equipe original. Ed Boon, John Tobias, John Vogel, Dan Forden. Eles estão todos aqui, narrando o nascimento de tudo. Vemos imagens de arquivo de Boon criando o movimento da lança de Scorpion em tempo real. Vemos os esboços originais de Tobias. Vemos os comerciais antigos, a arte conceitual descartada, a evolução de cada som.

Somado a isso, temos a “Krypt”, que funciona como uma verdadeira bíblia de informações. É um curso intensivo sobre a mitologia da série, um lembrete de como essa narrativa era rica antes de se afogar em décadas de reinícios e linhas do tempo alternativas.

E é aqui que a coleção comete sua maior crueldade.

Mortal Kombat: Legacy Kollection

O documentário é bom demais. Ele passa horas nos convencendo, com sucesso, do impacto, da genialidade do design e da importância cultural de Mortal Kombat. Ele nos enche de uma admiração renovada. Ele nos prepara para amar esses jogos novamente. E então, ele nos entrega o controle e nos força a jogar as versões que ele mesmo nos forneceu. É uma preparação meticulosa para uma traição inevitável.

A Memória Muscular Contra a Realidade

A visita guiada ao museu acabou. Agora, tentamos tocar nas exposições. E elas desmoronam ao nosso toque.

Os desenvolvedores prometeram que os jogos principais, o panteão sagrado de MK1, MK2 e Ultimate MK3, estão “essencialmente como eram”. Isso não é um recurso; é um aviso. Porque “como eram” significa que eles preservaram intacta a característica mais infame da série: a inteligência artificial trapaceira.

O computador nos jogos clássicos de Mortal Kombat não joga contra você. Ele reage aos seus comandos. A infame leitura de inputs está aqui em toda a sua glória frustrante. Oponentes da CPU não antecipam seus movimentos; eles reagem a pressões de botão que você nem terminou de executar. Tentar subir a torre no MK2 ou MK3 é um exercício de masoquismo. A dificuldade é implacável, brutal e fundamentalmente injusta.

Isso me leva a um lugar pessoal.

Parte da minha infância foi definida pela humilhação. Eu não era um jogador ruim, mas eu tinha um adversário que não podia vencer: minha mãe. Ela mal sabia segurar o controle, mas ela descobriu a Sonya Blade no Playstation. E ela descobriu o agarrão com as pernas. E ela o executava. Repetidamente. Aquele grito agudo assombra meus sonhos. Décadas se passam. Eu estou aqui, um adulto, com um PC de última geração, pronto para a vingo. Eu ligo a Legacy Kollection, seleciono Sonya, e descubro que meu inimigo não é mais minha mãe. Meu inimigo é a própria coleção.

Mortal Kombat: Legacy Kollection

O gameplay é uma luta em duas frentes. De um lado, você tem a IA original, trapaceira e desleal. Do outro, você tem a nova camada de problemas técnicos desta emulação. O jogo parece pesado. Lento. Há um atraso perceptível entre o meu comando e a ação na tela. Estou lutando contra Kintaro e, simultaneamente, contra a latência de entrada. É como tentar correr uma maratona com pesos nos tornozelos enquanto um juiz corrupto muda a linha de chegada a cada passo. A memória muscular que eu tinha não serve para nada, porque o tempo do jogo está errado.

Curiosidades, Catástrofes e Qualidade de Vida

A Digital Eclipse sabia que esses jogos eram difíceis. Então, eles adicionaram o que a indústria chama de mecânicas de “qualidade de vida”. E é aqui que a tragédia vira comédia.

Temos coisas genuinamente úteis. Listas de movimentos na tela. Modos de treino de Fatalities, para que você possa finalmente aperfeiçoar aquele movimento que só saía por acidente. São adições bem-vindas.

A grande adição, no entanto, é a função de rebobinar. Com o toque de um botão, você pode voltar no tempo alguns segundos. É um reconhecimento tácito por parte dos desenvolvedores de que a IA que eles preservaram é, de fato, injogável. É a solução moderna para um problema antigo.

Exceto que a solução está quebrada.

Mortal Kombat: Legacy Kollection

A função de rebobinar tem uma peculiaridade bizarra. Se você usá-la no meio de uma luta, pouco antes de receber um golpe fatal, a IA parece perceber sua trapaça. E ela decide trapacear de volta, com mais força. Usar o rebobinar pode, e frequentemente vai, “sobrecarregar” a IA inimiga. O computador entra em um estado de fúria, prendendo você em um loop de morte de ataques indefensáveis. A ferramenta criada especificamente para aliviar a frustração torna-se a fonte de uma frustração nova e mais profunda. É uma perfeição metafórica para todo o pacote.

E então, temos os outros jogos. A coleção orgulhosamente desenterra os “ovelhas negras”. Mortal Kombat Mythologies: Sub-Zero é um jogo de plataforma famosamente ruim, com controles que parecem ter sido desenhados por alguém que odiava mãos. Mortal Kombat: Special Forces é um jogo de ação atroz, lento e sem alma.

Eles não são clássicos incompreendidos. Eles são exatamente tão ruins quanto nos lembrávamos. A função de rebobinar os torna termináveis, o que é diferente de serem bons ou jogáveis. Sua inclusão não parece um ato de preservação histórica, mas sim um ato de acumulação digital. Eles não estão aqui para serem jogados; estão aqui para que o verso da caixa possa listar “23 jogos”. É enchimento, puro e simples.

Distorção Sônica e Artefatos Visuais

A apresentação desta coleção é uma aula de inconsistência. Nos monitores modernos de PC, os jogos de arcade principais, a trilogia sagrada, podem parecer surpreendentemente nítidos. Você tem filtros para simular telas antigas, se essa for sua preferência. Quando funciona, funciona bem.

O problema é quando não funciona. A coleção inclui as portas portáteis, como as versões de Game Boy e Game Gear. Estas não são apenas “lentas e sem resposta”. Elas são visualmente grotescas. Os desenvolvedores pegaram jogos feitos para uma tela minúscula, de baixa resolução, e os esticaram para preencher um monitor moderno.

O resultado é um pesadelo pixelado. É uma bagunça borrada de sprites irreconhecíveis, beirando o injogável. É menos um jogo e mais uma pintura a óleo que foi deixada na chuva. Não há opção de encolher a tela para um tamanho palatável. Você é forçado a testemunhar esse espetáculo horrível.

Mas o verdadeiro crime, especialmente na versão para PC, é o áudio.

O som nesta coleção é um desastre. Os problemas são abundantes. A qualidade do áudio é inexplicavelmente baixa, como se tivessem gravado os sons de um alto-falante estourado. Efeitos sonoros clássicos, o “thwack” de um soco, o grito de Liu Kang, às vezes simplesmente não tocam. A música entra em loops incorretos ou dessincroniza. Durante o jogo online, o áudio se transforma em uma confusão estática e robótica.

Mortal Kombat: Legacy Kollection

É uma falta de polimento que beira o desrespeito. É a prova cabal de que este pacote foi montado e enviado sem que ninguém parasse para ouvir se o soco do Sub-Zero estava fazendo o som certo.

A Kolleção que Meu PC Não Consegue Rodar

E chegamos ao cerne da questão. A plataforma. Eu joguei no PC. Minha máquina não é modesta. Eu tenho um Ryzen 7 5700x, uma RTX 4060 e 32 GB de RAM. É um computador que executa os lançamentos AAA mais exigentes desta geração sem suar.

E nada disso importa.

Meu hardware de ponta é completamente irrelevante para esta coleção. Minha RTX 4060 estava basicamente dormindo enquanto eu jogava. O problema não é poder de fogo. O problema é que isto não é um port de PC. É uma emulação de PC. E a qualidade dessa emulação é, para ser franco, atroz.

O pecado capital de qualquer jogo de luta é a latência de entrada, o “input lag”. É o tempo entre você apertar um botão e o personagem na tela reagir. Em um jogo onde frames importam, a latência é a morte. E esta coleção está morta ao chegar.

Ironicamente, testes mostram que a versão de PC é a melhor plataforma, sofrendo menos com esse atraso do que suas contrapartes de console. Mas “melhor” não significa “bom”. O jogo ainda parece pesado, pantanoso. Há uma desconexão palpável que torna combos precisos uma questão de sorte, não de habilidade.

E então, há Mortal Kombat 4.

De todos os jogos do pacote, MK4 é o mais quebrado e sem polimento. Esta foi a primeira tentativa da série no 3D, e esta coleção magnifica todas as suas falhas. A versão arcade incluída aqui está repleta de bugs visuais e de jogabilidade.

Eu vi a geometria do cenário simplesmente desaparecer no meio da luta, deixando os personagens flutuando no vazio. Texturas piscam incorretamente. No modo de treino, consegui prender meu personagem fora dos limites do cenário. É uma bagunça completa.

Um Testemunho de Fracasso

Mortal Kombat: Legacy Kollection é um produto em guerra consigo mesmo. É, sem dúvida, a celebração definitiva da história de Mortal Kombat. O documentário interativo sozinho é uma peça de jornalismo de videogame que deveria ser estudada.

Mas é também, indiscutivelmente, a uma das melhores maneira moderna de jogar Mortal Kombat.

A Digital Eclipse provou que são historiadores de nível mundial e desenvolvedores de ports profundamente negligentes. Eles venderam um museu de valor incalculável, mas se esqueceram de manter o prédio. O que adianta ter a Monalisa pendurada na parede, se a parede está coberta de mofo, o teto tem goteiras e você mal consegue ver a pintura porque a luz está queimada?

Esta coleção não é uma carta de amor ao passado; é um atestado de óbito mal redigido. A nostalgia, aquela mentira gloriosa que todos nós compramos, merecia um santuário. O que recebemos foi um mausoléu. Bonito por fora, mas por dentro, os mortos não descansam em paz. Eles estão travados, lentos e com o áudio dessincronizado.

NOTA

8.0
★★★★★★★★★★

CONSIDERAÇÕES

Como museu, a Mortal Kombat: Legacy Kollection é uma obra-prima e uma aula de história obrigatória. Como um pacote de jogos para PC, é uma falha técnica. A experiência é arruinada por um lag de resposta inaceitável, emulação de baixa qualidade , inúmeros bugs de áudio e problemas visuais, especialmente em Mortal Kombat 4. É um produto que celebra brilhantemente o passado, mas falha em preservá-lo de forma jogável.

Gustavo Feltes
Gustavo Feltes
Eu amo jogar, jogar é uma parte de mim. Cada história, momento, universo e gameplay me encantam. Eu não tenho restrições de jogos, cada célula do meu corpo clama por isso.
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Como museu, a Mortal Kombat: Legacy Kollection é uma obra-prima e uma aula de história obrigatória. Como um pacote de jogos para PC, é uma falha técnica. A experiência é arruinada por um lag de resposta inaceitável, emulação de baixa qualidade , inúmeros bugs de áudio e problemas visuais, especialmente em Mortal Kombat 4. É um produto que celebra brilhantemente o passado, mas falha em preservá-lo de forma jogável.Review | Mortal Kombat: Legacy Kollection (PC)