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Review | Routine (PC)

Quando o silêncio começa a observar você

Existe um tipo de silêncio que não é apenas ausência de som… é presença de algo que você não consegue explicar. Algo que respira nas sombras, que observa sem olhos, que existe no intervalo entre um passo e outro. ROUTINE vive exatamente nesse silêncio.

ROUTINE

Depois de mais de uma década de desenvolvimento, expectativas quebradas, renascimentos e sumiços misteriosos, o jogo finalmente chegou como um eco distante que se recusou a morrer. Um survival horror em primeira pessoa ambientado numa base lunar abandonada, mas não qualquer base… e sim uma que parece ter sido sonhada nos anos 80, construída com tecnologia analógica, telas CRT e um charme retrofuturista que mistura nostalgia com decadência. Aqui não existem sustos baratos. Não existe exagero dramático. O terror em ROUTINE é paciente… quase educado. Ele espera você perceber que está sozinho, e então prova que não está. ROUTINE não quer apenas assustar. Ele quer te fazer sentir observado… e lentamente convencido de que não deveria estar ali.

Ecos de vidas que desapareceram mas nunca partiram

A narrativa de ROUTINE é como um quebra-cabeça abandonado numa sala vazia. As peças estão espalhadas… mas ninguém deixou instruções. Você assume o papel de um protagonista sem nome que chega a uma base lunar misteriosamente silenciosa. Algo aconteceu ali, algo que fez pessoas desaparecerem, sistemas entrarem em colapso e máquinas se tornarem… erradas. Não exatamente quebradas. Erradas.

ROUTINE

A história não é contada diretamente. Não espere longas cutscenes explicativas ou personagens despejando informações. Aqui, tudo é fragmento: registros, ambientes, sinais visuais, ruídos, espaços que parecem congelados no tempo. Cada corredor é um vestígio de vida. Cada sala parece ter sido abandonada no meio de um pensamento. Há uma sensação constante de que você chegou atrasado… que algo aconteceu segundos antes de você chegar… ou que ainda está acontecendo em algum lugar que você ainda não encontrou. A narrativa avança lentamente, como se tivesse medo de revelar demais. E quando finalmente começa a se formar algo coerente, o jogo não oferece respostas completas, apenas compreensão suficiente para que o mistério fique ainda mais desconfortável.

Explorar é arriscar ser encontrado

Se você espera um survival horror tradicional com objetivos claros, marcadores e orientação constante… ROUTINE vai te deixar perdido, literalmente.
O jogo rejeita qualquer tipo de “mão guiando o jogador”. Não há waypoint, não há HUD poluído, não há setas dizendo para onde ir. Encontrar o caminho faz parte da experiência e também parte do medo.

Exploração é o coração do gameplay. Você anda, observa, investiga, interpreta. O ritmo é deliberadamente lento. Cada passo parece pesado, não fisicamente, mas psicologicamente. E então existem as ameaças. Robôs hostis patrulham a base, e eles não são apenas inimigos, são presenças. Eles transformam cada área em um território incerto. Muitas vezes você não luta… você evita, esconde, espera.

ROUTINE

ROUTINE usa tensão contínua em vez de ação constante, o que para mim é fantástico, porque o medo aqui não é explosivo, é prolongado. Existe também um sistema de progressão baseado em descoberta. Você coleta informações, energia para equipamentos e melhorias que expandem suas capacidades de interação com o ambiente.

Ferramentas para sobreviver ou apenas adiar o inevitável

O centro de tudo é o C.A.T. (Cosmonaut Assistance Tool), uma ferramenta multifuncional que é basicamente sua extensão dentro do mundo. Ele serve para Interagir com sistemas, Investigar o ambiente, Revelar elementos ocultos, Temporariamente neutralizar inimigos e Armazenar dados e progresso

É uma ferramenta narrativa e mecânica ao mesmo tempo. Energia é limitada, então cada uso precisa ser pensado. Isso transforma decisões simples em micro-dilemas constantes: investigar ou preservar energia? enfrentar ou evitar?

Outra mecânica interessante é que alguns elementos do ambiente e dos inimigos mudam de forma parcial, o que impede que tudo seja totalmente previsível. Você pode até já ter passado por um corredor antes… mas nunca tem garantia de que ele vai estar igual na próxima vez. Há também puzzles ambientais que equilibram lógica e observação. Eles não são absurdamente difíceis, mas exigem atenção real, algo que muitos jogos modernos evitam exigir.

ROUTINE

Se existe uma crítica possível, é que algumas interações podem parecer repetitivas, especialmente nos momentos em que o jogo depende demais do ciclo esconder-esperar-mover. Mas essa repetição também reforça o clima de sobrevivência crua. A rotina… do medo.

A estética do vazio e o som que ainda se move

Aqui está onde ROUTINE realmente brilha. O visual retrofuturista não é apenas estética, é identidade. A base lunar parece um futuro que alguém imaginou décadas atrás… e depois esqueceu de manter. Tecnologia avançada com aparência envelhecida. Sistemas sofisticados com desgaste físico. Tudo parece funcional… mas cansado. A iluminação é um espetáculo silencioso. Corredores parcialmente iluminados, reflexos metálicos, sombras profundas que parecem esconder, mesmo quando não escondem.

Mas o verdadeiro protagonista é o áudio. ROUTINE usa som diegético, tudo vem do mundo do jogo. Nada é trilha para manipular emoção diretamente. Você escuta máquinas, ventilação, interferência eletrônica… e o vazio entre esses sons. O silêncio não é ausência de áudio. É parte da trilha. Essa abordagem cria uma imersão absurda. Você não ouve sons de terror. Você ouve um lugar existindo… e talvez algo se movendo nele. É desconfortavelmente real.

A máquina que sustenta

Tecnicamente, ROUTINE foi reconstruído em Unreal Engine 5 após anos de desenvolvimento e reformulações. Isso se reflete na qualidade visual e na densidade atmosférica. Iluminação dinâmica, detalhes ambientais ricos e efeitos visuais consistentes ajudam a manter a imersão intacta.

ROUTINE

Nas minhas configurações (RTX 4060, 32 GB ram, Ryzen 7 5700), o desempenho geral é estável, mas como esperado em um projeto indie com ambição alta, existem momentos de inconsistência dependendo da área e da complexidade do ambiente. Nada que destrua a experiência, mas perceptível para quem presta atenção técnica. O jogo prioriza atmosfera sobre espetáculo técnico.

Você nunca esteve sozinho aqui

ROUTINE não é um jogo para todos. Ele é lento, minimalista, silencioso, incômodo, às vezes frustrante e frequentemente opressivo. Mas também é algo raro: um horror que respeita sua inteligência e sua imaginação. Ele não tenta te impressionar com excesso, ele te envolve com ausência. Não quer que você corra… quer que você hesite. Não quer te assustar… quer que você perceba que já está com medo.

Depois de mais de 13 anos de desenvolvimento turbulento, o resultado não é perfeito, mas é profundamente autêntico. ROUTINE é menos sobre sobreviver a uma base lunar, e mais sobre suportar a sensação de que algo continua funcionando ali… mesmo sem ninguém, principalmente sem você.

NOTA

8.0
★★★★★★★★★★

CONSIDERAÇÕES

Um survival horror em primeira pessoa que te coloca dentro de uma base lunar abandonada, onde o silêncio pesa mais do que qualquer inimigo. Aqui, o verdadeiro medo não é o que você vê… é o que parece estar sempre te observando.

Marina Jagmin
Marina Jagmin
Amante de jogos de terror, fascinada pelo universo dos games e suas histórias. Apaixonada por FPS e desafios de enigmas que testam mente e coragem.
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