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Review | Solo Leveling: ARISE OVERDRIVE (PC)

O Monarca das Sombras e o Trono de Papelão

Sabe aquela sensação agridoce de reencontrar um velho amigo que mudou muito? Aquele tipo de mudança que não é necessariamente para melhor, onde você percebe que o brilho nos olhos deu lugar a um cinismo comercial frio e calculado? Pois é exatamente assim que me sinto ao encarar Solo Leveling: ARISE OVERDRIVE. Estamos falando de um fenômeno global. A jornada de Sung Jinwoo não é apenas uma história sobre ficar forte; é sobre a fantasia absoluta de superação, de olhar para o abismo e fazer o abismo piscar primeiro. Quando anunciaram essa versão Overdrive para PC, prometendo ser uma experiência premium e paga, livre das correntes predatórias dos jogos de celular, meu coração de fã palpitou. Eu queria acreditar. Eu precisava acreditar que finalmente teríamos o jogo definitivo que essa obra merece.

Mas a realidade, meus caros, é uma senhora cruel. Ao me sentar na frente do meu computador, com a expectativa lá no alto, o que encontrei foi um produto com crise de identidade. Ele tenta desesperadamente se vestir de jogo AAA, tenta nos convencer de que vale o seu preço de etiqueta, mas por baixo dessa armadura brilhante e dos efeitos de partícula exagerados, bate o coração fraco e repetitivo de um jogo mobile que nunca aprendeu a ser outra coisa. É uma experiência que oscila entre o “absolutamente cinemático” e o “profundamente tedioso” com uma velocidade que deixaria qualquer um tonto. Preparem-se, pois vamos dissecar cada pedaço dessa carcaça luxuosa.

A Narrativa Retalhada

Vamos começar pelo que deveria ser a alma do negócio. A história de Solo Leveling é simples, mas eficaz. É a jornada do herói clássica anabolizada. No entanto, o que ARISE OVERDRIVE faz com o enredo original beira o desrespeito. Diria que é de uma “indigência narrativa” tremenda. O jogo assume que você já leu o manhwa ou viu o anime e, por causa disso, se dá ao luxo de pular momentos cruciais de construção de personagem.

Solo Leveling: ARISE OVERDRIVE

Sabe toda a angústia de Jinwoo com a doença da mãe? O peso de ser o caçador mais fraco, humilhado e ridicularizado? Aqui isso é tratado com a profundidade de um pires. As cenas passam com uma pressa burocrática, como se o jogo estivesse ansioso para te jogar logo na próxima arena de combate genérica. A narrativa é apresentada através de quadros semi-animados, o que é esteticamente bonito e respeita o traço original do DUBU, mas falta o respiro. Falta o silêncio. Falta o peso dramático que faz a gente se importar com aquele boneco na tela.

E o final? Ah, o final é um anticlímax que me deixou olhando para a tela com incredulidade. O jogo encerra sua campanha principal logo após a luta contra o Rei Demônio Baran, no Castelo Demoníaco. Para quem conhece a obra, sabe que isso é cortar o clímax real. A Ilha Jeju, que é onde a história realmente explode em escala global, é relegada a um tease pós-créditos, uma promessa vazia de conteúdo futuro ou DLC paga. É como ir a um restaurante estrelado, comer o couvert e ser enxotado antes do prato principal. É frustrante e passa a sensação nítida de que estamos jogando um prólogo glorificado de quarenta dólares.

A Dança da Morte e o Tédio

Se a história tropeça, a jogabilidade tenta segurar as pontas, mas acaba tropeçando nos próprios cadarços. O combate é vendido como algo visceral, focado em contra-ataques precisos e na mecânica de Overdrive. E, vou ser justo, nos primeiros momentos é inebriante. Controlar Jinwoo é fluido. As esquivas perfeitas ativam aquele bullet time satisfatório, as habilidades têm impacto visual e ver os números subindo na tela ativa aquela parte primitiva do nosso cérebro que gosta de ver coisas explodindo.

Mas a lua de mel acaba rápido. Muito rápido.

O problema reside na profundidade, ou melhor, na falta dela. O sistema de combate é largo como um oceano, mas tem a profundidade de uma poça d’água. Você logo percebe que a estratégia se resume a esmagar botões de ataque, esperar o brilho vermelho do inimigo para apertar esquiva e soltar suas habilidades assim que o tempo de recarga acabar. Não existe uma dança real de espadas aqui, apenas uma rotação de ícones brilhantes.

O jogo nos oferece quatro classes para Jinwoo: Assassino, Soberano, Elementalista e Duelista. Na teoria, isso deveria mudar drasticamente o jogo. Na prática, é uma ilusão de escolha. O Assassino, que deveria ser focado em dano crítico e posicionamento, sofre horrores com uma inteligência artificial dos inimigos que gira instantaneamente, tornando quase impossível pegar as costas de um chefe de forma consistente. Já o Duelista trivializa o conteúdo com mecânicas de defesa facilitadas. E o pior é que a escolha é permanente para a campanha. Escolheu errado? Azar o seu. Comece de novo ou sofra por vinte horas.

Solo Leveling: ARISE OVERDRIVE

E então chegamos ao sistema de recrutamento. A Netmarble prometeu que não haveria gacha. E tecnicamente não tem. Você não puxa uma alavanca de caça-níqueis com dinheiro real. Mas eles substituíram isso por um sistema de “Negociação” que consegue ser ainda mais irritante. Você usa moedas do jogo para tentar contratar caçadores como a Cha Hae-In. Você faz uma oferta. O caçador pode recusar. Se ele recusar três vezes, ele vai embora e você perde suas moedas. É um simulador de rejeição baseado em pura sorte. É uma mecânica desenhada para frustrar, para fazer você gastar horas grindando moedas apenas para ver seu personagem favorito dizer “não” e sumir. É de uma crueldade de design que eu raramente vejo em jogos premium.

Beleza de Plástico e Som de Ouro

Visualmente, ARISE OVERDRIVE é um paradoxo. Os modelos dos personagens principais são deslumbrantes. Jinwoo, Igris, Beru… eles parecem ter saltado diretamente das páginas coloridas do webtoon. As roupas têm textura, as sombras têm aquele brilho roxo característico, e as animações de ataque especial são um espetáculo pirotécnico. É colírio para os olhos de qualquer fã.

Entretanto, o mundo ao redor deles é morto. Os cenários são corredores estéreis, texturas repetidas à exaustão e ambientes que parecem feitos de isopor. Você passa horas correndo pelos mesmos túneis de metrô, pelas mesmas cavernas de gelo e pelos mesmos desertos vazios. Onde está a grandiosidade das masmorras? Onde está o terror dos portais? Aqui tudo parece um cenário de teatro barato montado às pressas para os atores brilharem.

Solo Leveling: ARISE OVERDRIVE

A salvação, a única coisa que é inequivocamente magnífica, é a trilha sonora. Hiroyuki Sawano, o gênio por trás das músicas de Attack on Titan, entrega aqui um trabalho que o jogo sinceramente não merece. Quando “Dark Aria” começa a tocar, com seus corais operísticos e batidas industriais, você sente um arrepio na espinha. A música tenta te convencer de que você está vivendo uma epopeia grandiosa, elevando lutas medíocres a momentos de quase glória. É uma pena que o design de som não acompanhe. Tive problemas frequentes de sincronia labial e momentos em que os diálogos simplesmente sumiam, deixando os personagens gesticulando como mímicos em um filme mudo.

O Teste da Máquina

Eu joguei isso em uma máquina robusta. Um Ryzen 7 5700x, uma RTX 4060 e 32GB de RAM. É um computador que roda Cyberpunk e Alan Wake 2 com dignidade. Para um jogo com raízes mobile e visual cel-shaded, ele deveria voar. Deveria ser manteiga.

Mas não foi.

O desempenho de ARISE OVERDRIVE é temperamental, para dizer o mínimo. A taxa de quadros é alta na maior parte do tempo, sim, flutuando acima dos 100 FPS. Mas o jogo sofre de stuttering, aqueles engasgos irritantes que acontecem do nada. Você está no meio de um combo lindo, prestes a finalizar um chefe, e a tela trava por um milésimo de segundo. É o suficiente para quebrar a imersão e, às vezes, o suficiente para você errar o tempo da esquiva e morrer.

O uso do hardware é bizarro. Minha CPU mal chegava a 30% de uso e a placa de vídeo ficava folgada, mas o jogo engasgava mesmo assim. Isso cheira a má otimização, a problemas de compilação de shaders que a desenvolvedora não teve o cuidado de resolver antes do lançamento. Além disso, presenciei bugs visuais hilários e tristes, como o corpo do Jinwoo desaparecendo durante a animação do Ultimate, deixando apenas uma cabeça flutuante e duas adagas cortando o ar.

Solo Leveling: ARISE OVERDRIVE

E precisamos falar sobre a exigência de conexão constante. O famigerado Always Online. Mesmo jogando o modo história, sozinho, sem ninguém para atrapalhar, se a sua internet oscilar um milímetro, o jogo te chuta para o menu principal. Eu perdi o progresso de uma luta difícil contra um chefe simplesmente porque o servidor da Netmarble decidiu soluçar em um domingo à tarde. Para um jogo que se vende como uma experiência premium de PC, isso é inaceitável. É um desrespeito com o tempo e a paciência do jogador.

O Veredito de um Fã Decepcionado

Chegamos ao fim desta autópsia e o gosto que fica na boca é amargo. Solo Leveling: ARISE OVERDRIVE é um monumento ao desperdício de potencial. Ele tinha tudo para ser o jogo definitivo da franquia. Tinha o visual, tinha a música, tinha a base de fãs sedenta. Mas a ganância e a preguiça falaram mais alto.

O que temos aqui não é um jogo feito com paixão. É um produto cínico, manufaturado para aproveitar o hype global do anime e arrancar quarenta dólares dos desavisados. Ele removeu as microtransações, sim, mas manteve a alma podre de um gacha. O grind é excessivo, a repetição é a norma e a recompensa é escassa. Você não joga porque está se divertindo; você joga porque o jogo te condiciona a preencher barras de progresso que se movem a passos de tartaruga.

Solo Leveling: ARISE OVERDRIVE

A conclusão é inevitável e dolorosa. Este jogo é como uma daquelas estátuas da masmorra dupla: imponente e belo à primeira vista, mas vazio e mortalmente perigoso para o seu tempo e dinheiro quando você se aproxima. Se você é um fã devoto, daqueles que têm pôsteres na parede e leu a novel três vezes, talvez encontre algumas horas de diversão superficial aqui, carregadas pela nostalgia e pela música do Sawano. Para todos os outros, o meu conselho é o mesmo que eu daria a um caçador Rank E entrando em um portal vermelho: corra.

Fique com o anime. Fique com o manhwa. Porque neste jogo, a única coisa que realmente se levanta é a minha pressão arterial e a vontade de pedir reembolso. É bonito, é barulhento, mas no fim do dia, é apenas uma sombra pálida do que poderia ter sido. Uma oportunidade de ouro transformada em latão polido. E isso, meus amigos, é uma tragédia.

NOTA

6.0
★★★★★★★★★★

CONSIDERAÇÕES

Solo Leveling: ARISE OVERDRIVE é a definição de "bonitinho, mas ordinário". É um deslumbre visual e sonoro que esconde um esqueleto de jogo mobile datado, repetitivo e artificialmente alongado. A Netmarble entregou uma casca de luxo sem alma, onde o grind substitui a diversão e a história é retalhada sem dó. Serve apenas como um protetor de tela glorificado para fãs muito devotos; para quem busca um bom RPG de ação, é uma armadilha de tédio e frustração.

Gustavo Feltes
Gustavo Feltes
Eu amo jogar, jogar é uma parte de mim. Cada história, momento, universo e gameplay me encantam. Eu não tenho restrições de jogos, cada célula do meu corpo clama por isso.
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