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Review | Star Fire: Eternal Cycle (PC)

O Ciclo Vicioso da Cafeína Digital

Vamos ser honestos: o gênero roguelite está inchado. Vivemos na sombra de gigantes que nos fizeram chorar, filosofar e questionar a relação com nossos pais mitológicos. O sucesso de Hades estabeleceu um padrão de excelência narrativa que, francamente, a maioria dos desenvolvedores não tem a menor condição de alcançar. E é por isso que, quando eu me deparei com Star Fire: Eternal Cycle, senti um alívio imediato.

Este jogo, o projeto de estreia do Ethereal Fish Studio, não tem pretensões artísticas. Ele não quer o seu coração; ele quer o seu vício. Ele se apresenta, sem pudor, como uma “carta de amor aos side-scrollers de arcada clássicos”, reimaginados com a estrutura de progressão moderna. Na prática, é um beat ’em up 2.5D frenético, enfiado num loop de “só mais uma run“.

Star Fire: Eternal Cycle

Star Fire não é uma refeição; é uma injeção de cafeína digital. É rápido, impactante, barulhento e não exige absolutamente nenhuma pressão ou compromisso emocional. E é exatamente essa honestidade brutal que o torna, contra todas as probabilidades, tão difícil de largar.

Uma Desculpa Esfarrapada para Salvar o Mundo

Vamos tirar isto do caminho o mais rápido possível: a história de Star Fire é anêmica. Ela existe puramente como um pretexto para a violência na tela.

Estamos no ano 2149. A Terra, claro, está em ruínas. A culpa é de uma horda de insetos alienígenas gigantescos, convenientemente chamada de “A Colmeia” (The Hive), que decidiu emergir de “fissuras lunares” e devorar o planeta. A humanidade foi reduzida a um último bastião, a “Estação Aurora” (Dawn Station), que está prestes a colapsar. Você assume o papel de uma heroína anônima, o jogo nem se dá ao trabalho de lhe dizer o nome dela, que lança o que é descrito como o “127º e último contra-ataque”.

Toda essa “trama” é entregue em fragmentos de memória que você coleta, o equivalente narrativo a encontrar moedas perdidas no sofá. Não há desenvolvimento de personagem, não há drama, não há nada. A narrativa não é nem “esquelética”; ela é inexistente.

Star Fire: Eternal Cycle

E, no entanto, há uma ironia genial aqui. O jogo chama-se Eternal Cycle. A premissa é o 127º contra-ataque. Sem querer, os desenvolvedores criaram a justificativa ludonarrativa mais perfeita para um roguelite. Claro que esta é a 127ª tentativa; eu mesma falhei as 126 anteriores. A história não é o que acontece com a Estação Aurora; a história é o loop. O título não é um subtítulo poético; é a sinopse completa.

A Dança da Destruição

Onde a narrativa falha em substância, o gameplay entrega puro músculo. A sensação de jogar Star Fire é visceral. A trindade do combate, esquivar, avançar e desferir combos, é fluida, responsiva e, o mais importante, impactante. Cada soco parece ter peso; cada explosão parece estilhaçar algo.

O jogo é, na sua essência, um beat ’em up 2.5D. Você se move num plano horizontal, hordas de inimigos aparecem, e você os transforma em estatística. Ouvi algumas críticas que rotulam o combate de “básico”, e isso me parece uma confusão preguiçosa entre simplicidade e falta de profundidade.

Star Fire: Eternal Cycle

ato de lutar é, sim, simples. Você tem um ataque leve, um ataque pesado com cooldown e uma esquiva. Não estamos falando de Devil May Cry. A simplicidade é intencional, uma reverência direta à era das arcadas, onde a diversão era imediata. A profundidade do jogo não está nos combos que você executa com os dedos, mas nas consequências sistêmicas desses combos, e isso é trabalho para a próxima seção.

loop de gameplay é desenhado para a gratificação instantânea. As runs são curtas, a ação é ininterrupta e a sensação de poder escala exponencialmente. É uma dança cinética de destruição. A diversão aqui não é cerebral; é tátil. É a alegria pura de deslizar por entre uma chuva de projéteis, ativar uma habilidade especial e limpar metade da tela numa explosão gloriosa.

O Caos Organizado (ou Nem Tanto)

Se o gameplay é o corpo, as mecânicas são o cérebro. Um cérebro que, infelizmente, o jogo tenta esconder de você a todo custo. É aqui que Star Fire revela sua verdadeira profundidade e sua falha mais irritante.

O jogo é todo sobre “buildcraft”. A complexidade não vem da execução, mas do planejamento. Você começa cada run escolhendo uma de oito armas diferentes, como o Martelo Terremoto, os Punhos Elétricos ou a Lâmina Sombria. Cada arma muda fundamentalmente seu estilo de jogo, o Martelo é lento e pesado, enquanto a Lâmina foca em críticos e velocidade.

O verdadeiro motor do jogo, no entanto, são os “Núcleos Insetoides” (Insectoid Cores). Estes são os power-ups que você coleta durante a run, divididos em oito tipos elementais (Fogo, Gelo, Trovão, Sombra, etc.). A magia acontece quando você começa a empilhá-los.

O jogo incentiva ativamente sinergias elementais. Juntar vários Núcleos de Gelo, por exemplo, pode dar a todos os seus ataques uma chance de congelar inimigos. Núcleos de Sombra podem invocar clones fantasmagóricos que lutam ao seu lado. Combinar elementos diferentes destrava novos efeitos. Com mais de 150 combinações prometidas, o potencial para o caos é infinito.

E agora, o problema: Star Fire é péssimo a explicar isto.

Os desenvolvedores afirmam orgulhosamente que o jogo não tem “curvas de aprendizado íngremes” ou “sistemas excessivamente complicados”. Isso é, francamente, uma mentira. Os sistemas são complicados; o jogo apenas se recusa a explicá-los. Não há um tutorial decente. Não há um códice claro. Mecânicas cruciais, como a “Esquiva Perfeita” (Perfect Dodge), que te dá imunidade temporária e bônus de ataque, são deixadas para você descobrir por acidente.

O resultado é o que um crítico descreveu perfeitamente como “atirar espaguete na parede”. Nas primeiras horas, você está apenas pegando núcleos aleatórios, sem entender por que sua build subitamente funcionou ou falhou miseravelmente. O jogo confunde “intuitivo” com “não documentado”, escondendo sua maior virtude (a complexidade das sinergias) atrás de uma cortina de ofuscação desnecessária.

Bonito de Longe, Caótico de Perto

Esteticamente, Star Fire é um caso clássico de Dr. Jekyll e Mr. Hyde.

O Dr. Jekyll é o diretor de arte. O jogo é, sem dúvida, bonito. O estilo, inspirado em animes, é limpo, vibrante e “chamativo”. Os modelos 3D da heroína e dos chefes são bem detalhados, e os cenários, que variam de estações espaciais desoladas a desertos áridos, são visualmente coesos. Quando a tela está calma, os gráficos são “gloriosos”.

Mas então, o Mr. Hyde assume o controle. E ele assume o controle sempre que você começa a se divertir.

Star Fire: Eternal Cycle

O jogo é visualmente “opressivo”. É um “espetáculo caótico”. O problema é que o caos visual é uma consequência direta das mecânicas que o jogo te incentiva a usar. Lembra daquelas sinergias elementais incríveis que eu mencionei? Elas se traduzem em explosões de fogo, tempestades de raios roxos, círculos vermelhos indicando ataques inimigos, números de dano voando, e efeitos de cooldown piscando.

A tela se torna uma sopa de poluição visual.

Esta é a minha maior queixa: o jogo te sabota. Você gasta uma run inteira criando uma sinergia perfeita que faz chover meteoros. O resultado é que o campo de batalha fica tão poluído por efeitos especiais que se torna literalmente impossível rastrear projéteis inimigos menores ou ver o ataque telegrafado de um chefe. A sua precisão é desafiada não pela dificuldade, mas pelo seu próprio sucesso. Você não morre porque errou; você morre porque não conseguia ver.

O que impede o colapso sensorial total é o áudio. A trilha sonora de Star Fire é um triunfo absoluto. É “energética”, “intensa” e “upbeat”. É o tipo de música eletrônica pulsante que “chuta traseiros” e mantém sua adrenalina no teto. O design de som dos impactos é satisfatório, mas é a música que carrega a experiência, dando um motor rítmico ao caos e te impulsionando para a próxima luta, mesmo quando seus olhos estão pedindo clemência.

O Luxo da Otimização

Eu preciso ser específico aqui, como me foi pedido. Joguei Star Fire: Eternal Cycle em um PC equipado com um processador Ryzen 7 5700X, uma placa de vídeo RTX 4060 e 32 GB de memória RAM.

O meu veredito sobre o desempenho é simples: é um completo exagero. E digo isso como o maior elogio possível.

Numa era em que pagamos valores exorbitantes por jogos AAA que gaguejam se você abrir um navegador no segundo monitor, Star Fire é um milagre de otimização. O jogo “corre sólido como uma rocha”.

O mais impressionante é que ele permanece sólido mesmo durante o apocalipse visual que eu acabei de descrever. Mesmo quando a tela está saturada com uma “densa sobreposição de efeitos”, o jogo não perde frames. A taxa de quadros permaneceu cravada, a resposta foi instantânea, e não houve uma única gagueira.

Com esta configuração de hardware, a experiência é tecnicamente imaculada. A RTX 4060 lida com o jogo sem esforço, e os 32 GB de RAM são um luxo totalmente desnecessário, garantindo que absolutamente nada no plano de fundo atrapalhe a fluidez. O caos de Star Fire é uma decisão de design, não uma falha técnica.

O Fast-Food dos Roguelites

Então, Star Fire: Eternal Cycle vale a pena? As críticas que li estão divididas. Alguns o chamam de “um forte concorrente num gênero saturado”. Outros, mais duros, o rotulam de “jogo mobile barato” que “não vale o preço”.

A verdade desconfortável é que ambos estão certos.

A interface confusa, a falta de explicação das mecânicas e o loop focado puramente na gratificação imediata têm, sim, a alma de um jogo mobile de qualidade duvidosa. Mas a crítica de “jogo mobile” falha em reconhecer o que torna esses jogos tão perigosamente viciantes.

Star Fire não é uma refeição de cinco estrelas. Não tem a profundidade narrativa de Hades ou a precisão artística de Dead Cells. Ele não vai mudar sua vida ou fazer você refletir sobre a condição humana.

Este jogo é o fast-food da indústria.

A história é o guardanapo onde veio embrulhado o lanche. A apresentação visual é uma bagunça gordurosa de efeitos especiais. As mecânicas são um molho secreto que ninguém se deu ao trabalho de anotar a receita. Mas, meu Deus, é viciante. É “implacavelmente difícil de largar”.

Ele cumpre exatamente o que promete: caos imediato, diversão sem pressão e nenhuma profundidade emocional para te atrasar. É o Big Mac dos roguelites. Você sabe que não é nutritivo, você sabe que não devia, mas o vício fala mais alto, e você sempre volta para “só mais uma run”.

NOTA

7.0
★★★★★★★★★★

CONSIDERAÇÕES

Star Fire é o fast-food perfeito dos roguelites. É viciante , rápido e tem uma trilha sonora fantástica. No entanto, é também visualmente caótico , tem uma história que mal existe e se recusa a explicar suas próprias mecânicas. Não vai mudar sua vida, mas é uma dose de adrenalina "só mais uma vez" quase impossível de largar.

Gustavo Feltes
Gustavo Feltes
Eu amo jogar, jogar é uma parte de mim. Cada história, momento, universo e gameplay me encantam. Eu não tenho restrições de jogos, cada célula do meu corpo clama por isso.
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