É de uma audácia quase poética, e talvez um pouco cruel, que a Konami tenha decidido nos entregar este Super Bomberman Collection através de um shadow drop, aquele lançamento surpresa que desce como um raio em um céu azul de tédio corporativo. Eu confesso que, ao ver o anúncio, senti um nó na garganta que não tinha relação com a nostalgia barata, mas sim com a constatação de que o videogame, em sua essência mais pura, ainda tem o poder de nos desarmar com a simplicidade. Ter essa coletânea rodando em um PlayStation 5, um monstro de processamento capaz de simular universos inteiros, para simplesmente renderizar pequenos robôs de dezesseis bits colocando bombas em labirintos, é de uma ironia deliciosa. É como usar um acelerador de partículas para observar o desabrochar de uma margarida no asfalto.

Esta coletânea, desenvolvida com um carinho que eu diria ser quase artesanal pela Red Art Games, não é apenas um amontoado de arquivos digitais jogados em um menu qualquer para lucrar com o saudosismo alheio. Há aqui um esforço real de preservação, um resgate de uma era em que a Hudson Soft, antes de ser absorvida pela gigante Konami, ditava as regras do que entendíamos por diversão social. Ao iniciar o jogo no meu console, fui recebido por uma interface que transborda aquele charme japonês vibrante, colorido e, acima de tudo, acolhedor. Existe algo de profundamente reconfortante em ver a evolução de uma franquia que definiu o multiplayer local, agora apresentada com as conveniências que a nossa vida adulta, tão mais apressada e menos paciente, exige, como os estados de salvamento e a função magnífica de rebobinar o tempo.

A proposta de Super Bomberman Collection é clara e honesta. Ela nos entrega títulos fundamentais que cobrem o período de ouro da franquia. Mas não se engane, não se trata de mais um lançamento genérico. Para nós, que vivemos no lado de cá do oceano, este pacote representa a queda de um muro de Berlim digital, pois finalmente temos acesso oficial e traduzido aos capítulos que por décadas foram lendas urbanas restritas ao Japão. É uma jornada que começa no minimalismo austero do NES e culmina na explosão de cores e caminhos ramificados do fim da era Super Famicom, tudo isso em um pacote que oferece banquetes de diversão para quem sabe apreciar a elegância do retrô.
Crônicas de um Destino Explosivo
A história de Bomberman, se formos analisar com a devida vênia, é uma sucessão de tragédias e triunfos que se desenrolam em cenários cada vez mais extravagantes, ainda que a premissa permaneça imutável em seu núcleo. No início, tínhamos apenas o robô solitário em busca de sua humanidade, tentando escapar de um complexo subterrâneo sombrio para alcançar a superfície. Mas é na série Super que o folclore da franquia realmente ganha o corpo e a alma que tanto amamos. No primeiro Super Bomberman, somos apresentados ao tirano Mr. Karat e ao nefasto cientista Dr. Mukk, figuras que hoje parecem saídas de um desenho animado matinal de sábado, mas que serviram para ancorar a nossa jornada em uma luta clássica entre a pureza mecânica e a ambição humana corrompida.
Em Super Bomberman 2, a escala aumenta consideravelmente com a chegada do Quinteto de Bombardeiros Cruéis. Eles não são apenas chefes ao final de uma fase, eles são rivais com personalidades distintas que sequestram nosso herói e o forçam a confrontar seu próprio destino para garantir a paz na Terra. Já no terceiro capítulo, o infame Professor Bagura, uma figura que se tornaria recorrente e odiada na medida certa, ressuscita esses vilões para uma investida de conquista cósmica. O que eu acho mais fascinante nessa cronologia é como ela reflete a ambição da época. Os desenvolvedores não queriam apenas criar novos labirintos, eles queriam expandir o universo, levar o Bomberman para outros planetas, para outras eras e dimensões.

E é aqui que entramos no terreno do inédito, do proibido. Super Bomberman 4 nos joga em uma trama de viagens temporais, onde somos transportados para diferentes épocas pelos Quatro Reis Bombardeiros. Existe uma entidade misteriosa espreitando nas sombras, e a sensação de descoberta ao jogar esse título em inglês pela primeira vez é quase como ler um capítulo perdido de um livro clássico que você sempre amou. Super Bomberman 5, por sua vez, é o ápice dessa narrativa, funcionando como uma celebração de tudo o que veio antes. O vilão Terrorin liberta criminosos de uma prisão de outro mundo, e o jogo nos oferece uma estrutura não linear onde nossos caminhos determinam o final da jornada. Ver a Konami finalmente derrubar as barreiras linguísticas e geográficas para nos entregar esses jogos é um ato de reparação histórica que eu não posso deixar de aplaudir com entusiasmo.
A Geometria Sagrada do Caos
O gameplay de Bomberman é o triunfo absoluto da simplicidade sobre a afobação moderna. No PlayStation 5, a precisão do DualSense tenta traduzir a rigidez de um controle de trinta anos atrás para a nossa sensibilidade atual. A premissa nunca muda. Você está em um labirinto em grade, você coloca uma bomba, você corre para não ser atingido pela própria explosão ou pela do seu adversário. Parece trivial, mas é nessa trivialidade que reside uma profundidade estratégica que muitos títulos modernos, com seus mapas colossais e sistemas de RPG infinitos, jamais conseguirão replicar. É um jogo de antecipação, de leitura do oponente e, principalmente, de gerenciamento de espaço.
Cada jogo nesta coletânea oferece uma nuance diferente desse balé destrutivo que nos mantém presos à tela. O primeiro Super Bomberman é a base sólida, o feijão com arroz bem temperado que nos apresenta os itens clássicos como a bomba perfurante, o patim de velocidade e o fogo total. Mas é a partir do segundo título que a coisa fica realmente interessante no design de níveis. Os mapas não cabem mais em uma única tela e exigem que você se desloque por cenários que scrollam, lidando com ímãs que puxam suas bombas e armadilhas que testam sua paciência e reflexos. Existe uma malícia no design desses níveis que me agrada profundamente, uma vontade deliberada de fazer o jogador se sentir inteligente ao desvendar o caminho.

O terceiro jogo introduz os Louies, aquelas montarias que lembram cangurus coloridos e que mudaram a dinâmica da franquia para sempre. De repente, você tinha uma vida extra e habilidades únicas, como pular sobre blocos ou chutar bombas com mais facilidade. Em Super Bomberman 4, essa mecânica é elevada à enésima potência, permitindo que você carregue ovos de reserva e até salve outros Bombermen que vagam pela fase ajudando você. Já o quinto jogo é o ápice técnico, com caminhos ramificados e uma quantidade de power-ups que transforma cada partida em um espetáculo de fogos de artifício onde ninguém está realmente seguro. A jogabilidade é um ciclo perfeito de tensão e alívio, um exercício constante de geometria aplicada ao caos.
Engrenagens e Montarias de Outrora
As mecânicas de Super Bomberman Collection são um testamento de como a Hudson Soft sabia iterar sem alienar seu público cativo. A inclusão do modo Boss Rush nesta coletânea é um acréscimo que eu considero maravilhoso, permitindo que enfrentemos todos os chefes de cada título em uma sequência frenética de contra-relógio com três níveis de dificuldade. É um teste de fogo para quem acha que domina a arte de colocar explosivos. Além disso, as ferramentas de suporte modernas são uma bênção para quem, como eu, já não tem mais os reflexos de uma criança de dez anos. A função de rebobinar, acionada com a simplicidade de um botão, é o perdão divino para aquele momento em que você, por pura distração, se encurrala em um canto com sua própria bomba.
Eu preciso destacar com especial carinho o sistema de Miso Bon, ou Bad Bomber, que aparece a partir do terceiro jogo. É uma das ideias mais geniais da história do multiplayer. Quando você morre, você não fica apenas assistindo com cara de tédio enquanto os outros se divertem. Você vai para a borda da arena em uma navezinha e pode arremessar bombas nos sobreviventes. Se você conseguir eliminar alguém, você volta para o jogo. É a democracia da vingança, impedindo que o jogador menos habilidoso se sinta excluído da festa. Essa dinâmica cria reviravoltas dramáticas que são a alma de qualquer jogatina entre amigos. No PS5, tudo isso funciona de forma orgânica, embora a falta de um modo online nativo para jogar com desconhecidos seja uma omissão que dói na alma de quem hoje vive em cidades onde é difícil reunir quatro pessoas em um mesmo sofá.

A coletânea também traz os dois primeiros jogos do NES, que funcionam quase como uma peça de museu viva. O primeiro Bomberman de 1985 é de uma austeridade espartana, com cinquenta níveis que testam sua persistência em um ritmo muito mais lento e metódico. Já o segundo título do NES é onde o multiplayer realmente nasceu, e ver esse embrião do que viria a ser a franquia é essencial para entender o caminho percorrido até os dias de hoje. É arqueologia digital da melhor qualidade, apresentada de forma crua, mas respeitosa, permitindo que o jogador veja as cicatrizes e os acertos de uma série que estava apenas começando a entender sua própria força de entretenimento.
Estética Retrô em Alta Definição
Visualmente, Super Bomberman Collection é um deleite absoluto para quem sabe apreciar a arte meticulosa do pixel. No PlayStation 5, a resolução foi elevada de forma limpa, o que deixa as cores vibrantes e os contornos nítidos, mas sem perder aquela textura orgânica característica da era dezesseis bits. No entanto, nem tudo são flores no departamento visual desta coletânea. O filtro CRT incluído pela Red Art Games é, para ser muito sincero, uma decepção melancólica. Ele parece apenas um overlay de linhas escuras mal encaixado que não emula de verdade a curvatura ou a distorção charmosa de uma TV de tubo antiga. O fato de as linhas de scan não se alinharem perfeitamente com os sprites causa uma sensação de desconforto visual que me fez desativá-lo após poucos minutos. É o tipo de detalhe que um purista vai notar e lamentar imediatamente.

Por outro lado, o que a desenvolvedora fez com o conteúdo de museu é de uma beleza ímpar e demonstra um amor genuíno pelo produto. A função de unboxing virtual é, possivelmente, a coisa mais charmosa que vi em uma coletânea de jogos retrô nos últimos anos. Você pode visualizar modelos em três dimensões das caixas originais, girá-las em qualquer ângulo, abrir o estojo e inspecionar o cartucho de diferentes regiões, seja a versão japonesa, a americana ou a europeia. É um fetiche tátil digital que apela diretamente para a nostalgia do colecionador que um dia teve essas caixas de papelão nas mãos. Ver os manuais originais escaneados em alta resolução, com suas ilustrações vibrantes e instruções que hoje parecem deliciosamente obsoletas, é um mergulho em um tempo onde os jogos não eram apenas bits em uma nuvem, mas objetos físicos cheios de personalidade.

A parte sonora é um capítulo à parte que merece ser ouvido com atenção. A funcionalidade BOMB Radio permite que você ouça as trilhas sonoras icônicas de todos os jogos e crie suas próprias listas de reprodução. A música de Bomberman sempre teve essa capacidade quase mágica de ser, ao mesmo tempo, tensa e extremamente chiclete.
O Vigor de um Coração de Silício
Falar de desempenho no PlayStation 5 para jogos de trinta anos atrás pode parecer uma redundância, mas a realidade da emulação é sempre mais complexa e cheia de armadilhas do que a superfície sugere. A coletânea utiliza tecnologias robustas para rodar os clássicos do NES e SNES, e o resultado é uma jogabilidade fluida na maior parte do tempo. Contudo, senti um estranho input lag, aquele atraso quase imperceptível entre o apertar do botão no controle e a reação do personagem na tela. Para o jogador casual que quer apenas se divertir em uma tarde chuvosa, isso passará despercebido. Mas para quem tem a memória muscular afinada nos consoles originais, a diferença é sentida como uma pequena nota fora do tom em uma sinfonia. Não é algo que torne os jogos injogáveis, mas em um título onde um milissegundo separa a glória da autodestruição, qualquer latência é motivo de crítica válida.

Um ponto que merece atenção e elogios é a localização cuidadosa. Ter os menus e as interfaces traduzidos para o português do Brasil é um conforto que valoriza o produto para o nosso mercado nacional. Embora o volume de texto seja pequeno, o esforço em traduzir os títulos que nunca haviam saído do Japão e organizar a vasta biblioteca de artes e músicas de forma coesa é notável. É uma coletânea que se sente em casa no console da Sony, oferecendo uma experiência de ligar e jogar que é exatamente o que se espera de um título voltado para a diversão imediata e sem as complicações de instalações gigantescas ou atualizações constantes que tanto nos cansam hoje em dia.
O Retrogosto de uma Era de Ouro
O que nos resta, afinal, de Super Bomberman Collection após as explosões cessarem e a fumaça digital baixar? É uma obra que, apesar das suas pequenas arestas técnicas e de uma emulação de filtros visuais que deixa a desejar, consegue capturar a essência de uma franquia que nunca precisou de artifícios mirabolantes para ser absolutamente genial em sua proposta. É um lembrete vigoroso e necessário de que o design de jogo inteligente é atemporal e não depende da contagem de polígonos na tela. Ao jogar estas sete joias no PlayStation 5, percebi que o brilho de Bomberman não está na quantidade de pixels ou na fidelidade do som espacial, mas na honestidade brutal da sua mecânica. É o videogame em sua forma mais pura e destilada, um palco perfeito para a interação humana mediada pelo caos controlado das explosões.

A conclusão a que chego é que esta coletânea é um presente para os nostálgicos e um portal indispensável para os novos jogadores que nunca sentiram a pressão de estar encurralado por uma bomba prestes a detonar. Ela nos oferece a chance única de experimentar capítulos fundamentais da história do meio que nos foram negados por décadas, tudo isso envolto em uma apresentação que celebra o objeto físico e a memória histórica tanto quanto o software digital. A falta de um modo online nativo é uma cicatriz no pacote, sim, eu admito. Mas é uma cicatriz que nos força a olhar para o lado, para quem está sentado conosco no sofá, e redescobrir a alegria quase infantil de uma risada compartilhada após uma jogada desastrosa.
Super Bomberman Collection não é apenas uma volta confortável ao passado, é a prova cabal de que a diversão mais duradoura é aquela que se constrói com a simplicidade de uma bomba bem posicionada e a vontade eterna de explodir tudo ao nosso redor em nome de uma boa partida. É imperfeito, é barulhento, é caótico e é, acima de tudo, uma experiência que reafirma por que amamos tanto esse passatempo. No fim das contas, a vida é curta demais para não celebrarmos o prazer de ver tudo ir pelos ares, um pixel de cada vez. É um brinde à destruição que nos une, servido em uma taça de cristal que, embora tenha um ou outro risco, ainda reflete perfeitamente a luz de uma época em que o mundo parecia muito mais divertido em dezesseis bits.
NOTA
CONSIDERAÇÕES
A Super Bomberman Collection é um triunfo da preservação que equilibra nostalgia pura com conveniências modernas de forma admirável. Embora a ausência de um modo online nativo e pequenas arestas na emulação — como o filtro CRT abaixo da média — impeçam a nota máxima, a inclusão de títulos inéditos no Ocidente e a apresentação impecável do museu digital fazem desta coletânea um item obrigatório para qualquer dono de PlayStation 5 que valorize o design de jogo em sua forma mais pura, caótica e social.
