Vamos começar com a fantasia. Todos nós, em algum momento, já olhamos para o céu e sentimos o desejo irracional de rasgá-lo, de nos libertar da gravidade e simplesmente voar. Os jogos de super-heróis, em sua melhor forma, vendem essa fantasia: o poder absoluto, a justiça desinibida, a alegria cinética de ser mais do que humano.
Superhero Simulator, um título do estúdio independente mightyraccoon!, promete algo muito mais complicado e, francamente, muito mais interessante. Ele olha para essa fantasia de poder e faz a pergunta que os estúdios multimilionários parecem aterrorizados em fazer: “Ok, você pode parar um asteroide… mas você consegue pagar o aluguel no fim do mês?”
Esta é a premissa central e brilhante do jogo. Ele nos coloca na pele de um ser quase divino em Goldpine City, mas nos sobrecarrega com a mais humana das maldições: a necessidade de sobreviver no capitalismo tardio. Você não é apenas um herói; você é parte da “gig economy”. Salvar o mundo não paga as contas. Você precisa trabalhar, e os trabalhos são exatamente o que se espera: virar hambúrgueres no Gold Burger, dirigir um táxi ou trabalhar como caixa.
É a vida dupla de Peter Parker despida de todo o glamour da Marvel, apresentada como a simulação de vida deprimente que realmente seria. A ideia é genial, um conceito que eu ansiava ver executado há anos.

É por isso que me dói profundamente dizer isto: jogar Superhero Simulator em seu estado atual de Acesso Antecipado é um exercício de frustração quase existencial. É como receber as chaves de um supercarro, apenas para descobrir que ele tem duas rodas, o motor está preso com fita adesiva e os assentos são caixotes de madeira. Você pode ver o design glorioso por baixo da bagunça, e essa visão torna a realidade instável e inacabada ainda mais difícil de engolir.
O Anonimato do Herói
Se você está procurando uma campanha épica, um vilão carismático ou qualquer tipo de arco narrativo tradicional, pode parar por aqui. Não há “história” em Superhero Simulator. A descrição na página da Steam que fala sobre “assumir a crescente taxa de criminalidade” e “suas escolhas moldam a cidade” é, no momento, pura aspiração de marketing.
O jogo começa com um breve tutorial que ensina você a usar seus poderes básicos como: voar, super-força, visão de calor, e então, abruptamente, ele te solta no mundo. Não há uma trama principal. Não há personagens coadjuvantes. Não há uma crise central a ser resolvida.
A única narrativa que encontrei, a única “história” que o jogo realmente conta, é o drama profundamente banal do esforço diário. A tensão dramática não vem de um plano nefasto; vem de acordar em seu apartamento modesto, verificar seus medidores de sobrevivência, saúde, higiene, comida, estado mental, e perceber que seu saldo bancário de “Gollars” não vai cobrir o aluguel que vence em três dias.

E, no entanto, há algo ironicamente brilhante nessa ausência. Ao remover a estrutura de um “Escolhido”, o jogo, talvez acidentalmente, faz sua declaração temática mais forte. O heroísmo aqui é anônimo. É ingrato; os civis que você salva muitas vezes respondem com sarcasmo ou indiferença. Seu super-herói não é uma celebridade; ele é apenas mais um trabalhador precarizado que, por acaso, tem visão de calor. A “história” é a luta sem fim contra a entropia da vida adulta, uma luta onde salvar o mundo de um assalto a banco é apenas mais um item em uma lista de tarefas, competindo diretamente com “comprar mantimentos” e “tomar banho”.
A Coreografia do Caos e do Tédio
O loop de gameplay de Superhero Simulator é uma montanha-russa de extremos, oscilando violentamente entre o sublime e o ridículo.
Vamos começar pelo sublime: voar. O voo neste jogo é, sem exagero, perfeito. A sensação de decolar do chão, o boom sônico quando você quebra a barreira da velocidade, a forma como você paira sobre os telhados… é a única fantasia de poder que o jogo entrega sem reservas. Nos meus primeiros trinta minutos, eu não fiz nada além de voar, atravessando a cidade em alta velocidade, sentindo a alegria pura que deveria definir essa experiência.
Então, eu decidi parar de voar e realmente fazer algo.
É aqui que a ilusão se quebra. No momento em que seus pés tocam o chão, o “jank”, aquele termo carinhoso para a instabilidade mecânica de jogos independentes, toma conta. O combate é o principal culpado. Ele é flutuante, sem vida e totalmente sem peso. Os socos parecem não ter impacto visceral; você está essencialmente esbofeteando bonecos de pano até que eles desapareçam. É um spam de botão sem graça, onde você ocasionalmente se lembra de bloquear.

Mas o combate é apenas metade do problema. O problema real é que “ser um herói” é, mecanicamente, um trabalho chato.
As missões de combate ao crime são uma coleção de minigames repetitivos e mal calibrados. Você vê um prédio em chamas? Prepare-se para um quick-time event para resgatar civis, onde uma barra se move tão rápido que você precisaria de precognição para acertar. Você precisa desarmar uma bomba? É outro minigame de “alinhar o controle deslizante” que parece saído de um jogo de celular de 2010.
Depois da primeira hora, você já viu tudo o que o heroísmo tem a oferecer. O jogo não entende a fantasia de salvar o dia; ele entende apenas a mão de obra. Ele gamifica o tédio. Para piorar, o jogo adora apresentar múltiplas crises ao mesmo tempo, um assalto aqui, um incêndio ali, um meteoro caindo lá. Como você só pode estar em um lugar de cada vez, o jogo força você a um cenário “Kobayashi Maru” constante, onde salvar o dia invariavelmente significa falhar com outra pessoa. Não é heroísmo; é gerenciamento de ansiedade.
O Fardo da Dupla Identidade
O coração mecânico do jogo deveria ser a interação entre seus dois lados: a simulação de vida e a simulação de herói. Na prática, esses sistemas não interagem; eles colidem.
Os medidores de sobrevivência, comida, higiene, saúde mental, estão constantemente caindo, exigindo atenção. Se você os negligencia, sua jornada fica mais difícil. O problema é que o jogo falha miseravelmente em equilibrar as demandas de ser um herói com as demandas de ser um ser humano funcional.
O exemplo mais gritante, e francamente cômico, é o trabalho de motorista de táxi. Para ganhar “Gollars” suficientes para pagar o aluguel, o limite de tempo para cada corrida é tão absurdamente apertado que a única maneira de ter sucesso é dirigir com um nível sociopata de desrespeito pela segurança pública. Eu me vi arando através de calçadas, derrubando postes de luz e lançando pedestres ao ar, tudo para ganhar 50 Gollars. Eu me senti inequivocamente como um vilão maior dirigindo aquele táxi do que em qualquer momento “salvando a cidade”. O jogo mecanicamente me incentivou a ser um terror público para poder pagar a conta de luz.

Essa dissonância é profunda. O tempo gasto sendo um herói é tempo não gasto ganhando dinheiro, e o tempo gasto ganhando dinheiro te transforma em um monstro.
Pior ainda é o “soco no estômago” dos sistemas de progressão. A promessa de “criar sua lenda” é, no estado atual, uma mentira descarada. Não há árvores de habilidades para explorar. Não há arquétipos para escolher. A progressão é uma lista linear e pré-determinada de upgrades que você desbloqueia ao subir de nível. Eu não senti que estava forjando minha própria lenda; senti que estava lentamente desbloqueando um clone pré-fabricado do Homelander.
A personalização do personagem é igualmente superficial, limitada a algumas máscaras e capas. Mas a verdadeira ofensa é o que não está no jogo. Coisas que você esperaria que fossem fundamentais, como um sistema de árvore de habilidades real, ou até mesmo a opção de jogar como uma personagem feminina (que, aliás, está estampada de forma proeminente na arte principal do jogo), estão ausentes. Elas não estão no jogo; estão no roadmap. Estamos, essencialmente, jogando a promessa de um jogo, não o jogo em si.
O Fantasma na Máquina
Aqui, a dualidade do jogo atinge seu ponto mais extremo. Superhero Simulator é um caso de estudo em contrastes artísticos.
Visualmente, o jogo é frequentemente deslumbrante. A direção de arte em cel-shading é uma escolha inspirada, evocando comparações imediatas com a estética de Spider-Verse. Quando você está no seu apartamento, ou quando olha para o modelo do seu personagem, o estilo dos quadrinhos é forte, vibrante e coeso. A cidade de Goldpine tem seus momentos de beleza estilizada.
No entanto, o polimento é terrivelmente inconsistente. Saia para o mundo, e você notará imediatamente que as texturas das ruas, dos carros e de muitos edifícios não compartilham dessa estética. Elas são brilhantes, reflexivas e parecem “vítreas”, quebrando a ilusão fosca dos quadrinhos. É como se dois jogos diferentes estivessem lutando pelo controle da sua tela.
Mas se o visual é inconsistente, o áudio é um desastre inequívoco.
A trilha sonora consiste em uma única faixa. É uma boa faixa, heroica e empolgante na primeira vez que você a ouve. Na centésima vez, em loop infinito, ela se torna uma forma de tortura auditiva.
Mas nem mesmo a música repetitiva é o pecado capital. O verdadeiro horror é a dublagem. Você me pediu uma crítica “humana, com sentimentos, sem parecer que foi escrito por IA”. A ironia é devastadora, porque o jogo falha espetacularmente nesse exato teste. É impossível ignorar que uma enorme porção das vozes do jogo, dos criminosos aos civis que você salva, é claramente gerada por IA.
O resultado é exatamente o que se espera: vozes planas, sem vida, robóticas e totalmente desprovidas de emoção. Soa como um sistema de navegação GPS tentando ter um colapso nervoso. Isso não é apenas uma escolha de orçamento de baixo custo; é uma falha temática catastrófica. O jogo exige que eu me importe com a humanidade do meu herói, com sua luta e sua saúde mental, mas me cerca de autômatos sem alma. Isso barateia toda a experiência, transformando o que poderia ser um projeto de paixão em algo que parece um “asset flip” cínico.
O Preço de Salvar o Mundo (em Frames)
Eu joguei Superhero Simulator exatamente na configuração que você especificou: um PC equipado com um Ryzen 7 5700x, uma RTX 4060 e 32 GB de RAM. Na teoria, esta máquina é um monstro. É um PC que roda jogos AAA modernos e visualmente exigentes, como Cyberpunk 2077 ou Baldur’s Gate 3, em configurações altas com excelente fluidez.
A teoria, no entanto, não sobrevive ao contato com este jogo.

O desempenho de Superhero Simulator é, para ser franco, terrível. Os requisitos recomendados listam uma GTX 1070. Minha RTX 4060 deveria rodar este jogo sem nem ligar as ventoinhas. Em vez disso, a otimização é tão “menos que ideal” que é quase inexistente.
E isso sem mencionar os bugs. O “jank” do Acesso Antecipado não é charmoso aqui; ele é hostil. Em várias ocasiões, meu herói simplesmente congelava no meio do combate, incapaz de se mover até que um inimigo me desse um soco. A interface, barras de saúde, energia, desaparecia aleatoriamente, forçando-me a reiniciar o jogo. Os controles são inconsistentes, e o jogo frequentemente se confunde, mostrando prompts de botões de Xbox, PlayStation e teclado, tudo ao mesmo tempo.
Entre a Promessa e o Precipício
Superhero Simulator não é um jogo. É um “e se” glorioso. É o rascunho de uma obra-prima, a planta de um jogo que poderia redefinir o gênero. A ideia central, o super-herói esmagado pela banalidade da vida real, é uma das mais brilhantes que vi em anos.
E essa é a tragédia.
A tragédia deste jogo não é que ele é ruim. A tragédia é que ele é um vislumbre de algo extraordinário. Jogá-lo é ver esse potencial incrível sendo ativamente sabotado a cada passo por um combate superficial, missões de QTE frustrantes, dublagens de IA sem alma e um desempenho técnico que beira o desrespeitoso. É, como eu disse, dirigir um supercarro com duas rodas. A visão do que poderia ser torna o que é ainda mais doloroso.
Os desenvolvedores têm um roadmap e, claramente, uma visão. Mas comprar este jogo agora não é comprar um jogo. É fazer uma aposta. É uma aposta que esta pequena equipe independente pode, contra todas as probabilidades, realmente consertar o motor, encontrar as outras duas rodas e entregar o supercarro que eles prometeram.
NOTA
CONSIDERAÇÕES
Superhero Simulator tem uma das ideias mais geniais da década, o herói esmagado pela "gig economy" e a necessidade de pagar o aluguel, presa dentro da execução de um Acesso Antecipado que beira o injogável. O voo é sublime e vale a pena por si só. O resto é um desastre: performance terrível mesmo em hardware potente, combate superficial e repetitivo, e vozes de IA sem alma que destroem qualquer imersão.
