Eu sempre nutri um fascínio quase reverencial pelo esforço hercúleo do desenvolvedor solitário, aquele indivíduo que, munido de uma visão e de uma persistência que beira a obsessão, decide peitar uma indústria de gigantes para entregar uma obra autoral. É, em sua essência, um ato de bravura artística. Por isso, quando me deparei com The 9th Charnel, um título que se propõe a ser um horror psicológico de sobrevivência em primeira pessoa, desenvolvido quase inteiramente por Saikat Deb, senti aquela mistura familiar de curiosidade e esperança. O jogo nos apresenta a Michael J. Jones, um cientista genético do Instituto de Pesquisa Epsilon que, após um acidente automobilístico em uma estrada que parece levar a lugar nenhum, se vê isolado em um vale remoto, cercado por segredos que a humanidade deveria ter esquecido. O título em si já carrega uma carga fúnebre: “Charnel” refere-se a construções onde se guardam ossos humanos, um prenúncio nada sutil do que nos aguarda sob a neblina.
O que me cativou de imediato não foi apenas a premissa de isolamento, mas a tentativa de criar um mundo onde a corrupção sistêmica e o colapso dos ideais humanos se manifestam na forma de cultos e rituais malignos. É uma proposta ambiciosa, que tenta elevar o gênero para além do susto fácil, buscando uma imersão que dialogue com as nossas ansiedades mais profundas sobre o egoísmo e a decadência social. No entanto, ao iniciar a minha jornada na versão de PlayStation 5, percebi que estava diante de um exemplar curioso de como a ambição pode ser uma faca de dois gumes quando não encontra o respaldo técnico necessário para florescer. A experiência de percorrer esse vale é, desde os primeiros minutos, um exercício de paciência e de contemplação de uma beleza que, infelizmente, se mostra por vezes oca.

Eu me vi caminhando por cenários que, à primeira vista, exalam uma atmosfera opressora e densa, onde cada sombra parece ocultar uma ameaça e cada ruído distante nos faz questionar a nossa sanidade. É um jogo que confia na sugestão, no silêncio e na incerteza, elementos que são os pilares de qualquer bom horror psicológico. Mas essa confiança é testada a todo momento pela realidade da execução. O jogo tenta nos convencer de que estamos em perigo constante, mas a execução mecânica frequentemente nos lembra de que estamos apenas interagindo com um software que ainda parece estar em um estágio de refinamento insuficiente. É um despertar solitário em um vale que promete mistérios profundos, mas que muitas vezes nos entrega apenas o vazio de uma infraestrutura técnica que range sob o peso das suas próprias pretensões.
O Silêncio de Michael e o Culto da Apatia Corporativa
A narrativa de The 9th Charnel tenta nos prender através de uma técnica de revelação lenta, quase homeopática, onde a história da família Charnel e de seus rituais macabros é destilada através de notas, objetos e vislumbres do passado. Michael não está apenas procurando por seus colegas desaparecidos, Nadia e Daniel J. Hart; ele está, sem saber, desvendando uma trama de apatia corporativa e ganância que transformou aquele santuário de vida selvagem em um purgatório na Terra. Há algo de genuinamente interessante nessa crítica ao descarte humano e ao poder desmedido das instituições, temas que o jogo tenta costurar com elementos de fanatismo religioso. No entanto, eu senti uma desconexão profunda com o protagonista. Michael é um daqueles heróis silenciosos que levam o conceito de “estoicismo” a um patamar absurdo.
Eu assisti a cenas onde o horror mais abjeto se manifestava diante dos seus olhos, e ele permanecia mudo, sem um suspiro, sem um arquejo que nos convencesse de que aquele homem estava, de fato, vivenciando um pesadelo. Essa passividade emocional acaba minando a nossa própria capacidade de sentir medo. Se o personagem que eu controlo não reage à morte e à depravação, por que eu deveria me importar? Além disso, os diálogos com os habitantes do vale são momentos de um estranhamento bizarro. Michael é frequentemente submetido a monólogos intermináveis de NPCs que parecem estar lendo um roteiro sem nunca esperar por uma resposta, transformando o que deveria ser uma interação dramática em uma experiência de audição forçada.

A história se torna uma sucessão de descobertas de “memórias” e flashbacks que, embora tentem dar profundidade emocional ao passado de Michael, muitas vezes parecem deslocados ou vagos demais para criar um impacto real. Eu percebi que o jogo tenta equilibrar o horror externo com o confronto dos “demônios internos”, mas a escrita falha em tornar Michael um receptáculo crível para esse tormento. O lore sobre a família Charnel é fascinante no papel, mas no jogo, ele se dissolve em missões de “buscar e levar” que cansam mais do que intrigam. É uma narrativa que tem boas ideias, mas que se perde em um protagonista que é apenas uma câmera flutuante sem alma, incapaz de ancorar o drama humano que o jogo tão desesperadamente quer contar.
A Dança do Esconde-Esconde e o Peso da Vulnerabilidade
No que diz respeito ao gameplay, The 9th Charnel nos coloca em uma posição de vulnerabilidade absoluta durante grande parte da jornada, o que é uma escolha de design que eu costumo aplaudir em jogos de horror. A dinâmica inicial é puramente de sobrevivência e furtividade: sem armas, a única defesa de Michael é a sua capacidade de se esconder sob camas, dentro de armários ou atrás de barris enquanto figuras grotescas patrulham os corredores estreitos. Essa sensação de ser a presa é, nos seus melhores momentos, angustiante. Eu me vi prendendo a respiração ao ver um monstro passar a poucos centímetros do meu esconderijo, ouvindo os batimentos cardíacos simulados que tentam intensificar a tensão.
A exploração é linear e claustrofóbica, o que ajuda a manter o foco na atmosfera de medo. No entanto, a diversão é constantemente sabotada por uma inteligência artificial que eu só posso descrever como errática. Em diversas ocasiões, eu fui testemunha de comportamentos que beiram o ridículo: monstros que desistem de me perseguir só porque eu mergulhei debaixo de uma cama na frente deles, ou criaturas que caminham incansavelmente contra paredes, incapazes de encontrar um caminho para me atacar. Esse tipo de falha técnica quebra o feitiço do horror. O medo desaparece no momento em que percebemos que a ameaça é, na verdade, um robô confuso preso em um loop de animação.

Quando o jogo finalmente nos entrega armas, como uma pistola e uma espingarda, ele não se transforma em um jogo de ação desenfreada, o que é um ponto positivo. O combate permanece tenso porque a munição é escassa e os inimigos são surpreendentemente resistentes, reforçando a ideia de que lutar é sempre a pior opção. Mas até esse sistema é prejudicado por controles que parecem pesados e imprecisos. Eu senti que cada movimento de Michael era um esforço, uma luta contra a própria mecânica do jogo. A progressão através de quebra-cabeças que envolvem encontrar fusíveis ou girar manivelas é funcional, mas carece de criatividade, repetindo tropos que já vimos exaustivamente em outros títulos do gênero sem adicionar nada de novo. É um gameplay que acerta na intenção de nos fazer sentir pequenos, mas erra feio ao não entregar as ferramentas técnicas para que essa pequenez seja uma escolha narrativa, e não uma limitação de software.
O Atrito Desnecessário e a Burocracia do Medo
Ao analisar as mecânicas mais granulares de The 9th Charnel, é impossível não notar o quanto o jogo parece se esforçar para ser inconveniente para o jogador. Eu falo especificamente do sistema de inventário e de interação, que são exemplos de como não projetar a experiência do usuário em um console moderno como o PlayStation 5. Há uma burocracia desnecessária em cada ação: para usar uma chave ou um item ambiental, não basta tê-lo coletado; você precisa abrir o menu, selecioná-lo e “equipá-lo” para que o mundo do jogo finalmente reconheça que você possui o objeto necessário para progredir. É um atrito que interrompe o ritmo da tensão de forma quase agressiva, transformando um momento de fuga desesperada em uma sessão de gerenciamento de menus.

Além disso, os controles de movimento são de uma falta de polimento que beira o frustrante. O comando de corrida é configurado de uma maneira estranha que, em sessões mais longas, chega a causar um cansaço físico real nas mãos, algo que eu raramente sinto com controles contemporâneos. Interagir com escadas ou interruptores exige uma precisão milimétrica que o jogo não parece suportar bem, resultando em Michael errando degraus ou falhando em acionar luzes no meio de perseguições. Essas falhas não são meros detalhes; elas compõem a espinha dorsal da experiência de jogo e, quando falham, todo o resto desmorona.

Eu também notei que a implementação de quebra-cabeças é inconsistente. Alguns são simples demais, resolvidos com um olhar rápido para o cenário, enquanto outros escondem itens vitais de forma tão obscura que a exploração deixa de ser gratificante para se tornar um exercício de frustração. O jogo tenta misturar elementos de simulador de caminhada com horror de sobrevivência clássico, mas essa mistura resulta em um híbrido que não se sente confortável em nenhuma das duas peles. O sistema de stealth, que deveria ser o coração pulsante da jogabilidade, acaba sendo apenas um jogo de identificar quais obstáculos a inteligência artificial não consegue contornar. É uma mecânica de medo que, infelizmente, se baseia mais na incompetência do inimigo do que na habilidade do jogador.
Beleza Nebulosa e Rostos de Pedra
No quesito visual e sonoro, The 9th Charnel é uma obra de contrastes que me deixou verdadeiramente dividido. Por um lado, há um talento inegável na construção dos ambientes. O vale é um cenário lindamente sombrio, com uma utilização de neblina e iluminação que cria quadros de uma melancolia assustadora. Eu me senti genuinamente imersa ao caminhar por florestas densas e estruturas abandonadas que parecem sussurrar histórias de horror através das suas texturas e detritos. É impressionante o que foi alcançado aqui em termos de cenografia, especialmente considerando a escala da produção. Mas essa imersão é brutalmente interrompida no momento em que qualquer ser vivo aparece na tela.

Os modelos de personagens são, para dizer o mínimo, catastróficos. Eles habitam o Vale da Estranheza com uma força que eu não via há muito tempo. Os rostos parecem esculpidos em granito, com olhos sem vida e animações faciais que mal sincronizam com as falas. Eu me lembro de uma personagem em um flashback que tinha movimentos tão antinaturais que ela se tornou mais assustadora do que os monstros do jogo, e não de uma forma positiva. É uma dissonância visual que dói: como pode um cenário ser tão convincente e os seus habitantes parecerem ativos de uma era já esquecida pelo PlayStation 2?
Felizmente, o áudio faz um trabalho muito mais competente em manter o horror vivo. O design de som é, possivelmente, o elemento mais polido de toda a obra. Os sussurros, os passos que parecem vir de salas vizinhas e o ranger constante das estruturas criam uma atmosfera de tensão que o visual das criaturas falha em sustentar. Eu me senti aterrorizada pelo que ouvia, muito mais do que pelo que via. A trilha sonora é minimalista, focando em tons que reforçam a sensação de isolamento e desespero. É uma pena que o som tenha que carregar o peso de uma parte visual que, no que diz respeito aos personagens, é simplesmente amadora. O áudio nos diz que estamos em perigo, mas os olhos nos dizem que estamos diante de modelos 3D mal acabados que perdem qualquer capacidade de intimidar.
O Abismo Técnico no Coração da Nova Geração
Chegamos então ao ponto que mais me incomoda na versão de PlayStation 5: o desempenho e a aparente negligência com as capacidades do hardware. Eu esperava que, em um console desta magnitude, The 9th Charnel entregasse uma fluidez impecável, mas o que encontrei foi uma taxa de quadros instável que muitas vezes prejudica a precisão necessária em jogos de primeira pessoa. O jogo sofre com stutters e quedas de performance que não se justificam pela complexidade do que está sendo exibido na tela, sugerindo uma falta de otimização profunda.
Mas os problemas de performance visual são o de menos quando comparados aos bugs de progressão que são, honestamente, imperdoáveis. Durante o meu tempo com o jogo, eu me deparei com uma falha crítica que me impediu de avançar: um computador essencial para o desenrolar da história simplesmente parou de responder a qualquer comando. Eu tentei de tudo, reiniciar o jogo, recarregar saves antigos, até reinstalar, e nada resolveu. Ter que lidar com erros que “quebram” o jogo em uma experiência que dura apenas cerca de três horas é um golpe duríssimo na paciência de qualquer jogador.

Além disso, a integração com as funções exclusivas do PlayStation 5 é praticamente inexistente. Não há suporte para o feedback tátil refinado ou para os gatilhos adaptáveis do DualSense, recursos que poderiam ter dado um peso físico à resistência de Michael ou à escassez de munição. O jogo ignora a tecnologia que torna o PS5 especial, tratando o console apenas como um PC de especificações fixas e sem oferecer o polimento que se espera de um título nativo desta geração. É uma experiência técnica que parece inacabada, um protótipo lançado antes da hora que luta para se manter funcional sob o seu próprio peso.
Um Grito que se Perde na Floresta
The 9th Charnel é, no fim das contas, um exemplar fascinante e melancólico de como a visão artística pode ser traída pela carência técnica. Há um coração pulsante aqui, uma tentativa sincera de criar um horror que dialogue com temas sociais e psicológicos profundos, mas esse coração bate em um corpo que está, infelizmente, em frangalhos. Eu senti a paixão do seu criador nos cenários cobertos de névoa e no design de som que nos persegue pela casa, mas não posso ignorar os bugs que travam o progresso, a inteligência artificial risível e os modelos de personagens que parecem saídos de um pesadelo técnico.
É um jogo que eu queria muito recomendar como uma pérola escondida, mas a realidade é que ele é uma experiência de atrito constante, onde os momentos de brilho atmosférico são sufocados por mecânicas burocráticas e uma performance instável no PlayStation 5. Para os devotos do horror independente que conseguem ignorar falhas técnicas em nome de uma atmosfera única, pode haver algo a ser encontrado aqui. Mas para a maioria, The 9th Charnel será apenas uma promessa de medo que acaba se perdendo em meio a erros de script e animações de madeira.

O que fica na minha cabeça, depois de percorrer esse vale, não é a história da família Charnel ou o destino de Michael, mas sim o silêncio de um protagonista que não sente nada diante do horror, um espelho involuntário de um jogo que tem muito a dizer, mas esqueceu de aprender a falar com o jogador. É um grito de ambição que se perde na imensidão da floresta, abafado pela própria incapacidade de se fazer ouvir de forma clara e coesa. No final, The 9th Charnel é menos um jogo de horror e mais uma lição sobre os limites do esforço solitário em um meio que não perdoa a falta de polimento. É uma jornada que termina não com um susto, mas com um suspiro de frustração por tudo aquilo que poderia ter sido magnífico e acabou sendo apenas, tristemente, inacabado.
NOTA
CONSIDERAÇÕES
The 9th Charnel é o retrato de uma ambição solitária traída por uma execução técnica desastrosa. Embora consiga evocar uma atmosfera de isolamento legítima através de seu design de som , o jogo desmorona diante de uma inteligência artificial risível, modelos de personagens sem vida e bugs imperdoáveis que impedem o progresso do jogador. No PlayStation 5, a falta de polimento e a ausência de recursos específicos do hardware reforçam a sensação de um protótipo que foi lançado antes de estar minimamente pronto.
