A primeira coisa que Dave the Diver: In the Jungle fez comigo foi retirar a segurança de uma rotina que eu julgava dominada. Eu já conhecia o peso do arpão, a ansiedade do oxigênio diminuindo, o alívio de voltar à superfície com a carga cheia e o caos quase coreografado de uma noite movimentada no restaurante. Eu sabia como aquele mundo respirava. Então a expansão me colocou diante de um lago cercado por mata fechada, entregou a Dave uma casa provisória e sugeriu, com a naturalidade de quem não percebe a própria ousadia, que o oceano já não era grande o bastante.
A mudança de cenário não serve apenas para substituir peixes marinhos por espécies de água doce. Ela modifica a relação que eu estabeleço com o tempo, com o espaço e com a própria figura de Dave. A selva deixa de ser um corredor entre uma missão e outra e se torna um lugar no qual eu acordo, caminho, recolho materiais, converso, mergulho, trabalho e vejo o dia desaparecer. Pela primeira vez, senti que Dave realmente morava dentro da aventura, em vez de ser transportado entre atividades separadas.

Esse novo cotidiano mantém o humor absurdo, os personagens exagerados e a capacidade quase irresponsável de apresentar uma mecânica inédita quando eu acreditava ter compreendido o jogo. Ao mesmo tempo, In the Jungle não se contenta em ser apenas uma repetição maior do que já funcionava. A expansão tenta reimaginar a fórmula, acrescentando exploração terrestre livre, vínculos com moradores, fabricação de móveis, combates por turnos e uma nova operação gastronômica. Nem todas essas ideias alcançam a mesma profundidade, mas a ambição é impossível de ignorar. Eu entrei esperando um complemento agradável e encontrei uma aventura com tamanho, personalidade e confiança suficientes para ocupar o espaço de uma continuação.
Visitantes em território alheio
A viagem começa quando Dr. Bacon pede ajuda para investigar um fenômeno relacionado ao corpo de uma criatura pré histórica encontrado próximo à vila de Utara. Dave, Cobra, Bancho e outros rostos conhecidos partem para a região, onde encontram uma população desconfiada da presença de estrangeiros e um lago que esconde muito mais do que novos ingredientes. O mistério cresce conforme as expedições revelam ruínas antigas, formas de vida incomuns e sinais de que o ecossistema local foi perturbado por algo maior do que uma simples anomalia natural.
Eu gostei da maneira como a expansão usa a amizade entre os personagens veteranos para dar calor à viagem. Dave continua sendo o homem incapaz de recusar um pedido, mesmo quando a tarefa envolve crocodilos, criaturas gigantes ou estruturas antigas submersas. Sua bondade não é tratada como heroísmo calculado. Ele ajuda porque essa é sua reação mais espontânea diante da necessidade alheia. Quando alguém o agradece, ele desvia o mérito, muda de assunto ou divide o reconhecimento. Essa humildade sustenta emocionalmente uma narrativa que frequentemente troca a delicadeza pela comédia.
A vila também ganha vida por meio de pequenos dramas. Eu encontrei famílias preocupadas, moradores agarrados a hábitos antigos, jovens tentando descobrir quem desejam ser e pessoas que interpretam a chegada de Dave como ameaça antes de enxergá lo como amigo. As relações não possuem a complexidade de um simulador social dedicado, mas os diálogos são eficientes ao estabelecer personalidade. Um comentário curto, um presente específico ou uma missão simples costuma dizer mais sobre alguém do que longas explicações.

Minha maior resistência está no modo como a história apresenta o conhecimento culinário dos moradores. Bancho chega, rejeita um prato local e assume a função de ensinar como os peixes devem ser preparados. A intenção é criar um conflito cômico e justificar o novo restaurante, mas eu me incomodei com a ideia de que uma população estabelecida ao redor daquele lago precisaria de visitantes para aprender a cozinhar os próprios alimentos. A narrativa poderia ter construído uma troca cultural, permitindo que Bancho aprendesse técnicas locais enquanto oferecia sua criatividade. Em vez disso, alguns momentos colocam os habitantes em uma posição de ingenuidade que não combina com sua organização, sua tecnologia e sua compreensão do ambiente.
Esse tropeço não destruiu meu envolvimento, mas impediu que eu enxergasse a história como tão cuidadosa quanto o mundo ao redor dela. Quando o mistério avança e a ameaça assume proporções maiores, a narrativa recupera parte da força por meio do espetáculo e do afeto entre os personagens. Ainda assim, senti que os temas mais interessantes, como confiança, preservação cultural e convivência com visitantes, foram apresentados sem receber o aprofundamento que mereciam.
Um dia que se recusa a parar
O grande acerto de In the Jungle está na continuidade. Eu saio da casa de Dave, atravesso a vila, converso com moradores, recolho plantas, corto madeira, visito lojas, sigo até o lago e mergulho sem sentir que estou apenas selecionando outra atividade em um menu. A perspectiva mais aberta na superfície permite circular em várias direções e produz uma sensação de presença que eu não encontrava com a mesma intensidade na aventura original.
Essa liberdade torna o ritmo mais orgânico, mas também mais perigoso para quem gosta de concluir tudo. Sempre havia uma solicitação próxima, um material brilhando no caminho, um inseto que eu ainda não havia catalogado ou um morador cuja relação poderia avançar. A passagem do tempo cria uma pressão discreta. Eu precisava decidir se mergulharia imediatamente, se dedicaria parte da manhã à coleta ou se prepararia o restaurante antes de procurar novos ingredientes. Raramente me senti punido por escolher errado, mas frequentemente terminei um dia com a impressão de ter deixado três coisas importantes para amanhã.
Os mergulhos preservam a clareza dos controles e a agradável sensação de vulnerabilidade. A água doce traz animais agressivos, regiões contaminadas, grandes predadores e profundidades que exigem melhorias específicas. Mesmo conhecendo a base, eu não me senti excessivamente poderoso. A nova progressão reduz parte da segurança acumulada anteriormente e devolve importância à preparação. Voltei a observar meu oxigênio com atenção, medir o peso da carga e avaliar se uma criatura valia o risco.

À noite, o Bancho Grill substitui o sushi por pratos grelhados e muda discretamente a dinâmica do atendimento. Eu não apenas levo refeições e bebidas. Também preciso circular entre mesas distribuídas em um espaço mais aberto, administrar acompanhamentos e cuidar da grelha enquanto o salão se enche. A movimentação em várias direções cria pequenas colisões e trajetos menos previsíveis. Nos momentos mais ocupados, o serviço pode ficar confuso, mas essa confusão combina com a fantasia de administrar um estabelecimento improvisado no coração da selva.
O controle permaneceu responsivo em quase todas as atividades. Minha única dificuldade veio do contraste entre sistemas que exigem ações muito diferentes em intervalos curtos. Mergulhar, administrar o restaurante, explorar a floresta e participar de combates por turnos parecem partes de jogos distintos. A expansão consegue uni las por meio do contexto e dos personagens, mas nem sempre pela sensação das mãos. Ainda assim, fiquei impressionado com a habilidade de mudar de linguagem sem quebrar completamente o ritmo.
Uma mochila cheia demais
A Jungle Gun resume bem a filosofia da expansão. Em vez de carregar várias armas independentes, eu recebo uma ferramenta que alterna entre diferentes funções e pode ser aprimorada ao longo da jornada. Ela serve para enfrentar predadores, capturar criaturas e adaptar minha estratégia a cada região. A troca entre seus modos é simples, e a progressão devolve aquela satisfação de sentir que uma área antes hostil se tornou administrável porque eu me preparei melhor.
O sistema de relações me incentiva a descobrir preferências, oferecer presentes e realizar favores. A recompensa não se limita ao aumento de um indicador. Moradores mais próximos podem visitar o restaurante, participar de atividades ou revelar pequenas histórias pessoais. Eu gostei da ideia de conquistar a confiança da vila gradualmente, mas parte desse processo se torna mecânica demais. Em determinados momentos, eu não estava criando uma amizade, apenas procurando o objeto correto para preencher mais um coração.
Na floresta de Setah, a expansão introduz combates por turnos com Dave, Cobra e outros companheiros. Cada integrante possui habilidades ofensivas e defensivas, enquanto comandos executados no momento correto aumentam o dano ou reduzem ataques recebidos. A apresentação é divertida, e Cobra transforma qualquer confronto em um festival de explosões, mas a estrutura demora pouco para revelar seus limites. As opções estratégicas são reduzidas, os inimigos repetem comportamentos e a evolução dos personagens não cria combinações realmente profundas. Eu me diverti, porém raramente precisei pensar além da resposta mais evidente.

Os templos oferecem quebra cabeças com blocos, pequenas sequências de plataforma e desafios ambientais. São interrupções agradáveis, especialmente porque alteram o ritmo depois de longos mergulhos, mas também reforçam a impressão de que In the Jungle deseja incluir toda ideia que surgiu durante o desenvolvimento. Eu pesquei com vara, procurei insetos, participei de batalhas entre besouros, toquei instrumentos, empilhei animais, cacei aves, decorei ambientes e fabriquei objetos. A variedade é extraordinária, mas variedade e profundidade não são sinônimos.
A caça de aves foi a atividade que menos me convenceu. Ela oferece ingredientes e funciona como um minijogo direto de pontaria, mas pouco acrescenta ao coração da experiência. Eu também senti que a fabricação de móveis poderia ter recebido uma interface mais clara e consequências mais interessantes. Decorar a casa de Dave e o restaurante é simpático, porém a utilidade prática permanece limitada, deixando a atividade dependente quase inteiramente do prazer de personalização.
Depois do encerramento principal, ainda há peixes para registrar, amizades para completar, objetos para produzir e melhorias para conquistar. Eu encontrei motivos para permanecer em Utara, mas percebi uma perda de direção. Como tantas mecânicas são apresentadas durante a campanha, esperava que algumas evoluíssem de forma mais significativa depois dela. O conteúdo continua generoso, mas o impulso narrativo desaparece antes que todos os sistemas encontrem um verdadeiro ponto de chegada.
A selva sabe respirar
A identidade visual preserva a combinação entre personagens em pixel art e ambientes com volume, iluminação e profundidade. A selva é colorida sem parecer excessivamente limpa. Folhagens ocupam o caminho, a chuva altera o humor das ruas e o lago muda de personalidade conforme a luz atravessa a superfície. Durante o pôr do sol, os tons quentes invadem a água e criam algumas das imagens mais bonitas de toda a jornada de Dave.
As regiões submersas possuem uma identidade própria. Eu reconhecia imediatamente quando deixava uma área acolhedora e entrava em um espaço contaminado, ancestral ou biologicamente ameaçador. Ruínas, cavernas e organismos estranhos contam parte da história antes que qualquer personagem precise explicá la. A expansão também sabe quando abandonar a beleza e abraçar o desconforto. Certas sequências finais são deliberadamente grotescas e prolongam a piada além do que eu gostaria, mas não posso negar a criatividade visual envolvida.

As animações especiais continuam sendo um dos grandes prazeres da experiência. Melhorias de equipamentos e descobertas culinárias recebem cenas exageradas, fluidas e absurdamente comprometidas com a piada. Bancho não prepara uma receita. Ele atravessa uma experiência espiritual, física e cinematográfica para colocar um prato sobre o balcão. Essa entrega faz com que ações rotineiras ganhem personalidade.
A trilha sonora diferencia bem cada momento. A vila utiliza melodias leves e instrumentos associados ao ambiente rural, enquanto os mergulhos recorrem a sons eletrônicos, misteriosos e por vezes inquietantes. As batalhas aceleram o pulso sem abandonar o tom brincalhão. Também gostei de como a música aparece dentro das próprias atividades, tornando certos personagens e missões mais memoráveis.
In the Jungle é uma expansão excepcionalmente expressiva. Mesmo quando uma mecânica parece superficial, sua apresentação possui detalhes suficientes para torná la agradável. O audiovisual não serve apenas como decoração para os sistemas. Ele é a cola que impede essa quantidade quase absurda de ideias de se desfazer em partes desconectadas.
Potência sem esforço
Na versão de PC, considerando o Ryzen 7 5700X, a RTX 4060 e 32 GB de RAM, encontrei uma experiência muito tranquila. A configuração possui margem ampla para lidar com a direção visual do jogo, e a fluidez permaneceu estável tanto nos mergulhos quanto durante a circulação pela vila, os combates e as noites mais movimentadas no Bancho Grill.
Não percebi quedas de desempenho capazes de prejudicar controles ou minijogos que dependem de precisão. Os carregamentos foram curtos e as transições entre áreas raramente interromperam o ritmo. Algumas mudanças de período e cenas mais elaboradas apresentaram breves engasgos, mas foram ocorrências discretas, sem impacto real na experiência.

Com o jogo atualizado, não encontrei travamentos durante a maior parte da campanha. Ainda notei pequenas imperfeições, como personagens hesitando em obstáculos, elementos de interface permanecendo na tela por alguns instantes e animações pouco naturais em situações específicas. Nada disso comprometeu o progresso, embora a quantidade de correções publicadas desde o lançamento mostre que a expansão chegou com problemas mais sérios do que seu acabamento visual sugeria.
Os comandos funcionaram bem com controle e permaneceram claros durante a alternância entre exploração, mergulho e restaurante. No teclado e mouse, algumas atividades parecem menos naturais, principalmente minijogos concebidos em torno de movimentos direcionais, mas a personalização dos comandos ajuda. No conjunto, a otimização é muito boa e permite aproveitar a expansão sem exigir ajustes constantes.
O mergulho que encontrou terra firme
In the Jungle entende que uma boa expansão não deveria apenas prolongar aquilo que já terminou. Ela precisa descobrir uma nova forma de interpretar o jogo original. Ao levar Dave para a selva, a Mintrocket não troca somente o cenário. Ela reorganiza a rotina, aproxima as atividades, dá corpo ao espaço entre as missões e permite que o protagonista finalmente pareça habitar o mundo que vive salvando.
Eu não consegui abraçar todas as ideias com o mesmo entusiasmo. O combate por turnos é agradável, mas raso. Algumas atividades laterais parecem incluídas pela novidade, não pela necessidade. O sistema de relações poderia confiar mais nos personagens e menos na entrega de presentes. Acima de tudo, a narrativa perde sensibilidade quando trata Bancho e seus companheiros como portadores de um conhecimento culinário que os moradores locais deveriam possuir ou ensinar.
Mesmo com essas reservas, terminei impressionado com o tamanho, a criatividade e o cuidado empregados na aventura. A expansão oferece uma nova região, outra progressão, um restaurante diferente, personagens carismáticos e uma quantidade quase imprudente de atividades sem abandonar a ternura que define Dave. Seus excessos também são parte de sua identidade. In the Jungle prefere tentar dez ideias e desenvolver plenamente seis delas a permanecer seguro repetindo apenas uma.
Quando deixei Utara pela última vez, não pensei no conteúdo como uma excursão separada. Pensei naquele lago, naquela vila e na casa de Dave como partes que sempre deveriam ter pertencido ao mapa. Essa talvez seja a maior conquista de uma expansão. Ela não apenas acrescenta algo ao jogo que eu conhecia. Ela faz o mundo anterior parecer menor depois que eu descubro tudo o que havia além do oceano.

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