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Review | Aphelion (PS5)

Aphelion e o Vazio Melancólico do Espaço

A primeira coisa que você precisa admitir ao olhar para o céu noturno é a nossa absoluta e irremediável insignificância perante a imensidão escura. Eu sempre fui aquele aluno fascinado pela ficção científica que lida com o apocalipse, fascinado pela forma como a humanidade lida com o fim inevitável das coisas. É exatamente esse o terreno fértil que o estúdio criador explora em Aphelion. O ano é 2060 e a Terra está agonizando, sangrando os seus últimos recursos após décadas de um desastre climático irreversível provocado por nós mesmos. Como um último e desesperado suspiro de sobrevivência, a agência espacial lança a missão Hope 01. O destino é Persephone, um planeta de número 9 recentemente descoberto nas bordas gélidas do nosso sistema solar.

Aphelion

A premissa é fantástica, pois nos coloca na fronteira entre a esperança e o terror absoluto. O que nós temos aqui é uma obra que promete ser uma jornada existencial profunda. Uma experiência que tenta misturar o pavor do isolamento no espaço sideral com o drama íntimo de corações partidos. Confesso que iniciei a minha jornada com expectativas altíssimas, pronto para ser arrebatado por uma narrativa madura. No entanto, o que eu encontrei ao longo de suas horas de campanha foi uma obra dramaticamente dividida e tragicamente imperfeita. Aphelion é um título que deseja desesperadamente ser grandioso, poético e reflexivo, mas que tropeça de uma maneira muito frustrante nas suas próprias pernas e nas ambições desmedidas da sua direção. É um jogo sobre a solidão que ironicamente tem medo do silêncio.

Ecos de Solidão e Promessas Partidas

A espinha dorsal desta narrativa repousa inteiramente nos ombros exaustos de 2 protagonistas muito singulares, os astronautas Ariane Montclair e Thomas Cross. Eles não são apenas profissionais altamente treinados para a missão mais crucial da história humana. O roteiro inteligentemente estabelece desde o princípio que eles são antigos namorados, carregando um passado turbulento, repleto de mágoas silenciosas e escolhas que colocaram o dever profissional acima do amor. Quando a nave deles sofre um acidente catastrófico logo na chegada e colide com a superfície implacável de Persephone, os 2 acabam separados de forma violenta.

A partir deste ponto, a história se desdobra em 2 frentes distintas. Ariane enfrenta a fúria dos elementos naturais em montanhas de gelo maciço enquanto tenta desesperadamente encontrar o parceiro. Thomas, ferido e lidando com um suprimento de oxigênio que míngua a cada respiração, acaba preso nas ruínas de uma instalação humana completamente abandonada. Sim, uma instalação humana. O fato levanta a sombria questão sobre o que diabos é o projeto secreto que dá nome ao título e quem esteve naquele planeta inóspito antes deles, já que a propaganda oficial dizia que eles seriam os pioneiros. É uma fundação espetacular e cheia de mistério cósmico que tem tudo para prender a sua atenção de forma absoluta.

Aphelion

Porém, a execução toma decisões que me deixaram genuinamente perplexo. É muito bonito visualmente, mas narrativamente é exaustivo. O isolamento no escuro do espaço deveria ser aterrador, deveria ser contemplativo e silencioso. No entanto, os roteiristas parecem ter um pavor absoluto da quietude. Como Ariane e Thomas não conseguem se comunicar diretamente por conta de interferências magnéticas severas na atmosfera do planeta, o jogo preenche cada segundo de silêncio com monólogos internos verbalizados em voz alta de forma incessante. Eles simplesmente não calam a boca nunca. Tudo é narrado e mastigado, cada passo no gelo, cada pensamento trivial, cada dedução óbvia, destruindo por completo a atmosfera de desamparo que a direção de arte se esforçou tanto para construir. E para coroar essa infeliz desconexão narrativa, todo o mistério maravilhoso e corporativo que é construído ao longo dos 11 capítulos deságua em um final assustadoramente anticlimático. É um encerramento tão morno, tão apressado e tão vazio de significado que faz você questionar o propósito de toda a tensão emocional e científica acumulada durante as horas anteriores da campanha.

O Peso Letárgico da Sobrevivência

Eu sempre aprecio um ritmo mais cadenciado, um desenvolvimento que toma o seu próprio tempo para respirar e estabelecer o seu universo com calma. Mas o que acontece aqui beira o masoquismo interativo. O controle transita constantemente entre os 2 personagens, tentando oferecer aos jogadores perspectivas que deveriam ser contrastantes e complementares. Com Ariane, nós temos uma abordagem muito mais física e vertical, focada na exploração de montanhas traiçoeiras, utilizando cordas e ganchos de fixação enquanto desviamos de desmoronamentos perigosos. Com Thomas, a situação é mais cerebral, rasteira e claustrofóbica, focada quase integralmente em gerenciar o suprimento de ar escasso enquanto ele caminha lentamente e investiga os segredos sombrios dos terminais das instalações misteriosas.

Na teoria, esse balanço soa maravilhoso, funcionando como um respiro dinâmico entre a ação vertiginosa e a investigação meticulosa. Na prática interativa, a jogabilidade sofre de uma letargia crônica que testa impiedosamente a paciência. A movimentação de ambos os astronautas passa uma sensação absurda de peso e lentidão, como se eles estivessem constantemente arrastando pesados sacos de areia amarrados aos tornozelos.

Aphelion

A progressão se arrasta de forma severa e burocrática durante as 2 ou 3 horas iniciais, fazendo com que o simples ato de andar de um ponto a outro pareça uma punição em vez de uma grande aventura de descoberta. Apenas lá pela metade final da longa campanha é que as coisas começam a engrenar e a intriga científica realmente toma uma forma mais instigante, revelando um pouco do que o título poderia ter sido. Mas até chegarmos lá, o seu nível de tolerância já foi severamente tributado por um ciclo de jogo que falha miseravelmente em surpreender as nossas expectativas. Não há inovação no formato, e o jogador nota de forma amarga que está preso em um circuito repetitivo que não oferece ferramentas novas suficientes para justificar a lentidão proposital da locomoção. O peso físico, que deveria aumentar o realismo da travessia espacial, acaba sendo um imenso obstáculo para a diversão pura e simples, criando uma barreira invisível entre a obra e quem está com o controle nas mãos.

A Engrenagem Enferrujada do Perigo

Quando olhamos bem de perto para a estrutura mecânica, percebemos uma tentativa clara de emular gigantes do gênero de aventura cinematográfica, mas sem o talento técnico necessário para polir os detalhes. A travessia pelas montanhas exige que você pressione botões ativamente para que Ariane consiga segurar as bordas rochosas. Inicialmente, isso parece uma ideia fantástica para evitar que a escalada acabe virando um processo puramente automático e sonolento. O grande problema é que as animações são muito duras, inflexíveis e desajeitadas. O que deveria ser uma proeza física empolgante se torna um exercício mecânico e previsível de apertar botões coloridos na tela.

Os enigmas ambientais, na sua vasta maioria resolvidos utilizando um leitor de frequências eletromagnéticas para revelar rastros de energia, raramente exigem qualquer esforço intelectual genuíno da nossa parte. Eles servem apenas como pausas maçantes antes da próxima longa caminhada pela neve. Mas o verdadeiro elefante na sala, o aspecto que mais me causou frustração profunda e genuína, atende pelo nome de Nemesis.

Aphelion

Ele é um predador alienígena grotesco, nativo daquele mundo, que é completamente cego, porém incrivelmente sensível ao som. A criatura caça os nossos fragilizados protagonistas de forma implacável e assustadora. É uma premissa genial, correto? Absolutamente errado na sua aplicação. Os encontros furtivos com o Nemesis são, de longe, os momentos mais irritantes da obra inteira. Em vez de criar um terror psicológico orgânico onde você precisa improvisar e prender a respiração, o design de fases joga você em cenários engessados de pura tentativa e erro. Qualquer passo em falso ou erro de cálculo resulta em uma morte instantânea e no retorno imediato a um ponto de salvamento terrivelmente distante. O pior de tudo é que muitas vezes o próprio jogo obriga você a fazer ações ruidosas para conseguir avançar, criando uma dicotomia punitiva e ilógica que desafia o bom senso. Isso não gera tensão genuína, gera apenas tédio e um profundo aborrecimento que quebra completamente qualquer suspensão de descrença que você ainda pudesse ter em relação a este universo fantástico.

A Sinfonia Gélida de Persephone

Se nos aspectos interativos e mecânicos a decepção é palpável e constante, é na apresentação estética impecável que esta obra encontra a sua inegável salvação. É muito bonito, é absurdamente imponente, é visualmente assombroso. A representação gráfica do planeta Persephone é um triunfo artístico monumental impulsionado pelo motor Unreal Engine 5. Os desertos de gelo intermináveis que refletem a parca luz solar, as tempestades de neve cortantes que embaçam o visor do traje espacial e a vastidão estéril causam uma sensação de insignificância cósmica que é lindamente melancólica. Quando essa beleza gélida e realista colide com as anomalias magnéticas que iluminam cânions escuros com cores vibrantes e surreais, o resultado é um espetáculo cinematográfico que frequentemente obriga você a parar a caminhada apenas para contemplar a vista deslumbrante.

E então nós temos o trabalho sonoro que envelopa tudo isso de uma forma espetacular. O compositor Amine Bouhafa fez algo aqui que merece absolutamente todos os prêmios da indústria. Fugindo do óbvio uso de melodias eletrônicas genéricas, ele decidiu utilizar instrumentos majestosos como o órgão de tubos e a raridade acústica do Cristal Baschet para compor a espinha dorsal da música. O resultado é uma trilha sonora arrepiante que oscila com perfeição milimétrica entre o drama íntimo de 2 corações partidos e a escala impiedosa de um planeta hostil.

Aphelion

O design de áudio acompanha essa excelência orquestral de mãos dadas. O som do vento uivando enlouquecidamente nas frestas das pedras e o gelo estalando sob as botas pesadas criam uma camada de imersão impecável. O elenco de atores, especialmente Vanessa Dolmen e Eric Geynes, entrega um trabalho formidável e cheio de nuances. Eles ancoram a fragilidade e a humanidade da dupla com uma maestria ímpar, conseguindo transmitir dor e esperança mesmo nos momentos em que o excesso de falas do roteiro não colabora muito a favor deles. A atmosfera audiovisual é tão forte que ela sozinha quase consegue justificar o preço do ingresso, carregando nas costas todo o peso emocional que a jogabilidade pesada não consegue sustentar.

A Frieza Técnica da Nova Geração

E chegamos ao ponto delicado em que eu preciso ser extremamente franco e direto sobre a estabilidade desta experiência jogada puramente no PS5. Quando você investe as suas economias e adquire uma máquina de entretenimento avançada como essa, a expectativa mínima razoável é que um jogo focado primariamente em imersão atmosférica e visuais realistas rode com uma fluidez impecável. Infelizmente, a realidade nua e crua que encontramos aqui é uma taxa de quadros travada em inflexíveis e datados 30 quadros por segundo. O limite intensifica de uma maneira gigantesca aquela sensação constante de lentidão e de peso excessivo na movimentação que eu mencionei antes na análise da jogabilidade. Para uma superprodução moderna lançada de forma nativa nesta plataforma, é uma limitação técnica muito decepcionante que fere os olhos mais exigentes e quebra a magia do ambiente.

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Há também pequenos engasgos sutis na tela e falhas onde comandos simplesmente não registram no momento exato em que você mais precisa deles, resultando em mortes estúpidas e frustrantes durante as sequências furtivas que demandam extrema precisão. É um polimento tecnológico que claramente ficou esquecido pelo caminho no cronograma de desenvolvimento, deixando a experiência fria em todos os sentidos errados possíveis e desperdiçando o enorme potencial do hardware poderoso que está à disposição.

O Brilho Ofuscado de Persephone

Ao observar o subir dos créditos finais preenchendo a tela escura, eu me peguei parado, em silêncio, sentindo um aperto incômodo no peito. Fui tomado por uma melancolia profunda que não nasceu do desfecho narrativo, mas sim da percepção amarga do desperdício de um potencial assombroso. Esta jornada espacial não é um desastre completo, ela possui clarões de genialidade inegáveis, mas está lamentavelmente longe de ser a obra existencial definitiva que almejou ser com tanta sede. É um título que propõe reflexões maravilhosas e pertinentes sobre o que nos torna essencialmente humanos quando somos empurrados para os limites absolutos da sobrevivência, e sobre os vínculos frágeis que carregamos na alma quando o nosso próprio mundo padece no esquecimento.

Aphelion

Mas as suas ambições mais louváveis colidem de forma violenta com uma execução engessada, com mecânicas punitivas que causam exaustão em vez de diversão, e com uma necessidade inexplicável de falar demais quando o silêncio cósmico seria a ferramenta narrativa mais devastadora ao seu dispor. Se você é um apaixonado fervoroso pelo gênero de ficção científica espacial e consegue relevar controles pesados em prol de uma direção de arte primorosa e de uma trilha sonora divina que toca o coração, talvez você encontre valor poético escondido debaixo dessa grossa camada de gelo alienígena. No fim das contas, pesando minuciosamente todos os acertos e falhas na balança, a sensação que fica tatuada na mente é a de uma promessa majestosa que acabou se despedaçando contra o chão frio antes de conseguir chegar ao seu verdadeiro e glorioso destino. É uma experiência que fascina pela estética, mas que esgota pela estrutura, deixando apenas um eco vazio onde deveria existir uma ovação fervorosa.

NOTA

7.0
★★★★★★★★★★

CONSIDERAÇÕES

Aphelion é um espetáculo audiovisual inegável, sustentado por uma direção de arte belíssima e pela trilha sonora magistral do compositor Amine Bouhafa. Como uma experiência contemplativa sobre o desespero e o fim da humanidade, ele tem os seus encantos. No entanto, como um jogo eletrônico, a execução falha amargamente.

Gustavo Feltes
Gustavo Felteshttps://theoutpost.com.br
Meu nome é Gustavo Feltes e sou apaixonado por videogames. Desde cedo, os jogos fazem parte da minha vida e sempre foram muito mais do que apenas uma forma de entretenimento para mim.O que mais me fascina nos videogames é a capacidade que eles têm de criar universos únicos e contar histórias envolventes. Cada jogo representa uma nova experiência: mundos para explorar, personagens para conhecer e desafios que despertam curiosidade e emoção.Ao longo dos anos, essa paixão cresceu e se tornou parte importante de quem eu sou. Jogar, descobrir novos títulos e acompanhar a evolução da indústria dos games se transformou em algo natural no meu dia a dia.Hoje continuo explorando diferentes estilos de jogos, sempre interessado em novas experiências e em tudo o que esse universo pode oferecer. Para mim, os videogames são uma das formas mais ricas de entretenimento e expressão criativa da atualidade.
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