É uma armadilha. E volta e meia eu caio nela. Não aprendo nunca. Quando Ereban Shadow Legacy foi anunciado, a proposta de entregar uma aventura furtiva purista me conquistou de imediato. A ideia de jogar como Ayana, a última sobrevivente de uma raça ancestral com a habilidade mágica de literalmente afundar nas sombras e usar a escuridão como refúgio, é um daqueles conceitos brilhantes que parecem bons demais para serem verdade. E a premissa de enfrentar uma corporação opressora que transformou a própria luz solar em uma arma de vigilância implacável prometia revigorar um gênero que anda bem esquecido na cultura pop. A verdade nua e crua é que eu queria gostar muito dele. Queria mesmo. Mas, logo nos primeiros capítulos, percebi que eu estava me esforçando enormemente e não estava obtendo nenhum resultado prático que justificasse a minha dedicação. O estúdio Baby Robot Games tentou dar um passo maior que as próprias pernas, entregando um mundo que encanta pela ideia, mas que frustra amargamente pela execução.

O Teatro dos Clichês
A estrutura narrativa é uma daquelas coisas que nos fazem questionar as escolhas da direção. A megacorporação Helios resolveu uma grande crise energética sugando o poder do sol e instalou uma ditadura absolutista no processo. A nossa protagonista Ayana é recrutada por essa empresa, rapidamente traída de forma previsível, e acaba precisando se aliar a uma célula de resistência para descobrir como o seu povo foi extinto. Eu achei tão bobo, achei tão sem graça e achei tão batido. O grande problema não é usar tropos conhecidos da ficção científica, mas sim a completa superficialidade com que tudo é jogado na tela. Não existe um único momento de construção genuína de personagem. Ayana sofre de uma necessidade tagarela e irritante de narrar os próprios passos em voz alta, verbalizando coisas óbvias e transformando qualquer mistério em um tutorial mastigado para crianças. É impossível sentir o peso de um genocídio cultural quando os diálogos são engessados e as reviravoltas parecem encomendadas de um catálogo de obviedades. As escolhas morais que o enredo tenta empurrar pela garganta não possuem peso real e os finais múltiplos soam como uma tentativa artificial de gerar longevidade para uma trama que mal se sustenta na primeira rodada.

O Peso da Monotonia
Se o roteiro escorrega no básico, a jogabilidade tinha a obrigação moral de segurar a estrutura inteira nas costas. A princípio, a severidade imposta me seduziu. Você não é um soldado de chumbo blindado. Não existem armas de fogo barulhentas ou escudos mágicos. Ser avistado pela patrulha inimiga significa morte quase instantânea, o que exige um planejamento tático meticuloso e bastante paciência para ler o cenário. Mas aí esbarramos no grande elefante branco da sala. A inteligência artificial dos robôs adversários é uma pataquada sem tamanho. Coisa que não me incomoda quando a pataquada tem uma lógica interna ou serve para um propósito cômico intencional. Mas aqui não tem lógica nem interna, nem externa, nem adjacente. Eles patrulham as rotas como bonecos de corda quebrados. Se você cometer um erro grotesco de posicionamento e for detectado, basta correr desesperadamente para a área escura mais próxima. Em cinco segundos, a ameaça cibernética esquece completamente a sua existência e volta a andar em círculos. Fica automático demais. A tensão ininterrupta, que é a espinha dorsal de qualquer jogo de infiltração que se preze, evapora rapidamente, transformando o desafio mental em um passeio burocrático e repetitivo.

A Joia Escondida
Apesar de todas as derrapadas estruturais, preciso ser totalmente justo e apontar o triunfo inegável da obra. A mecânica de fusão sombria é a salvação do projeto. O controle cinético que permite afundar o corpo da personagem nas superfícies escurecidas é um primor absoluto. Uma parte minha, uma parte mais racional e sensata, dizia o tempo todo que a estrutura ao redor era frágil. Outra parte, porém, muito mais instintiva e fascinada, dizia claramente que eu estava amando fazer aquilo. Durante aquela meia hora inicial em que você emenda um mergulho furtivo no chão de concreto com uma escalada veloz por uma parede mergulhada no breu, o jogo cria ali para você um lugar tão aconchegante, tão reconfortante e tão capaz de reconstruir a sua fé na criatividade do meio digital que não tem preço. Deslizar livremente pelas tubulações bidimensionais e emergir de forma letal nas costas de um guarda é de uma fluidez maravilhosa. O uso dos ecos arcanos para construir visores e criar distrações sonoras complementa muito bem esse movimento ágil. É exatamente esse núcleo mecânico brilhante que impede a experiência de afundar no esquecimento absoluto.

O Charme Opaco
A equipe de direção de arte demonstrou bastante coragem ao abraçar uma estética cartunesca com contornos fortes, misturando majestosas ruínas antigas de pedra com a arquitetura corporativa estéril e amedrontadora. Conceitualmente, esse contraste visual funciona e passa uma mensagem clara sobre a ganância industrial esmagando o passado. Contudo, na hora em que a câmera se aproxima para contar a história, as limitações financeiras e técnicas gritam escandalosamente. Os personagens flutuam levemente acima do chão em diversas cenas e as animações faciais são pífias. O elenco de apoio parece um grupo de manequins de loja de departamento recitando falas decoradas. O departamento sonoro comete pecados parecidos.

A trilha instrumental é genérica até a medula, incapaz de entregar um único acorde que faça o coração acelerar nos momentos de perigo ou que evoque uma lágrima nos momentos de luto. A dublagem gringa faz o trabalho operário de entregar o texto, mas falha solenemente em transmitir qualquer emoção autêntica ou visceral.

A Oportunidade Perdida
Olhando de forma clínica para o aspecto técnico rodando no hardware do PS5, temos uma situação de sentimentos incrivelmente mistos. Por um lado, a otimização visual é irretocável. A taxa de quadros se mantém rochosa, garantindo que toda a agilidade das manobras acrobáticas aconteça com uma fluidez maravilhosa, e os carregamentos instantâneos mantêm o ritmo sem engasgos feios. Por outro lado, e aqui reside a minha maior irritação, a implementação das tecnologias do controle é um desperdício imperdoável. Um título onde você literalmente mergulha em superfícies viscosas de escuridão implora por um uso inteligente e imersivo das respostas táteis. Era o cenário perfeito para fazer o jogador sentir a diferença de textura do mundo exterior iluminado para o conforto gélido e mágico das sombras.

O Fim do Brilho
Ao subir os créditos finais dessa jornada furtiva melancólica, o sentimento que impera no meu peito é o de um amargo desperdício de talento bruto. Do meu ponto de vista estritamente pessoal, a mecânica de fusão fluida com a escuridão é uma das ideias mais gostosas e geniais que surgiram nesse mercado saturado nos últimos anos. Tinha absolutamente tudo para ser considerado um clássico formidável do gênero de espionagem silenciosa. Mas uma ideia brilhante sozinha não carrega um mundo nas costas. O texto frágil, a inteligência artificial terrivelmente deficiente e a falta crônica de um acabamento sonoro e dramático mais refinado acabam transformando o que deveria ser uma obra inesquecível em um passatempo mediano que você joga, aproveita o movimento e esquece no mês seguinte. Ereban Shadow Legacy é a prova definitiva de que não basta ter uma centelha mágica e deslumbrante nas mãos se você não souber construir a fogueira certa para manter a chama acesa.
NOTA
CONSIDERAÇÕES
Ereban: Shadow Legacy. Resumindo toda essa montanha russa de sentimentos da forma mais clara possível: a mecânica de imersão nas trevas é realmente uma coisa maravilhosa que salva todo o pacote de ser um desastre completo. Mas a inteligência artificial terrível, o enredo bobo e o desperdício colossal do controle do PS5 puxam a experiência violentamente para baixo. Eu só recomendo se você for absolutamente obcecado por jogos de furtividade e encontrar essa obra em uma promoção das grandes. Fora isso, é uma daquelas ideias que você admira de longe, mas não precisa convidar para entrar na sua casa.
