Eu confesso que, por muito tempo, olhei para a ideia de um remake de Final Fantasy VII com uma ponta de ceticismo quase melancólico. Afinal, como se mexe em um monumento? Como se ousa tocar em uma obra que não apenas definiu um gênero em 1997, mas que se tornou parte da mobília emocional de toda uma geração? A resposta da Square Enix, que finalmente chega aos jogadores de Xbox em janeiro de 2026, não é um simples exercício de nostalgia ou uma demão de tinta em alta definição. É uma reconstrução visceral, corajosa e, em muitos momentos, desconcertante. Para quem, como eu, decidiu encarar essa jornada no Xbox Series S, a experiência ganha camadas adicionais de surpresa. Existe um preconceito tolo em torno desse console, uma ideia de que ele seria um parente pobre da geração atual, mas o que eu vi na tela foi um testemunho de que, quando há competência técnica e uma visão artística clara, a escala do hardware se torna secundária diante da grandiosidade da obra.
Receber Final Fantasy VII Remake Intergrade no ecossistema da Microsoft após anos de exclusividade é como ver um clássico do cinema sendo restaurado e finalmente exibido em uma sala onde todos podem entrar. O jogo nos joga de volta em Midgar, aquela metrópole industrial sufocante, movida a uma energia que está drenando a vida do planeta, mas o faz com uma proximidade que o hardware original jamais poderia sonhar. É um jogo que entende o peso do seu próprio nome e, em vez de se curvar a ele, decide usá-lo como um trampolim para algo novo, mais denso e muito mais humano. No Series S, essa entrega é feita com um polimento que me deixou, francamente, boquiaberto, provando que este pequeno gigante é capaz de sustentar as ambições de um dos projetos mais caros e complexos da história da Square Enix.
Flores no Entulho e Sombras de um Passado SOLDIER
A história deste remake é um estudo fascinante sobre como expandir um prólogo e transformá-lo em um épico existencial. O que antes era uma introdução de poucas horas no PlayStation original agora se desdobra em uma narrativa de quarenta horas que respira, sofre e sangra. Nós seguimos Cloud Strife, um mercenário que se esconde atrás de uma fachada de indiferença e uma espada maior que seu próprio senso de identidade, enquanto ele se junta à Avalanche em uma missão ecoterrorista para explodir um reator de Mako. Mas o que é realmente magistral aqui não é a missão em si, mas as pessoas que encontramos nela. Personagens que eram apenas esboços em 1997, como Jessie, Biggs e Wedge, ganham aqui uma humanidade palpável, um calor que torna o destino inevitável de cada um deles uma tragédia que sentimos na pele.

A Square Enix tomou uma decisão audaciosa ao introduzir os Sussurros do Destino, aquelas entidades fantasmagóricas que aparecem para garantir que a história siga o roteiro original. É um comentário meta-narrativo brilhante: os próprios personagens lutando contra as expectativas dos fãs e contra o que deveria acontecer. Isso transforma a experiência em algo vivo, onde a dúvida é nossa companheira constante. E no centro de tudo, temos o trio emocional que carrega o jogo nas costas: Cloud, Aerith e Tifa. A dinâmica entre eles é escrita com uma delicadeza rara em blockbusters. Aerith é uma força da natureza, uma otimista que desafia a escuridão de Midgar, enquanto Tifa é o coração do grupo, equilibrando suas convicções com uma insegurança comovente sobre o caminho violento que escolheram.
E o que dizer de Sephiroth? Ele não é mais aquela sombra distante que só aparece no final. Ele é uma presença constante, um fantasma que assombra a mente de Cloud e a nossa, representando um perigo que parece saber exatamente o que aconteceu em outras linhas do tempo. O jogo termina em uma nota alta, um confronto que desafia as leis da realidade e nos deixa ansiosos pelo que virá a seguir. É uma história sobre perda, sobre a luta contra uma corporação que trata o planeta como um recurso descartável e, acima de tudo, sobre a coragem de tentar mudar um destino que parece escrito nas estrelas. No Series S, cada close-up, cada expressão de dor ou de esperança nos rostos desses personagens é transmitida com uma clareza emocional que faz com que Midgar pareça o lugar mais real do mundo por algumas dezenas de horas.
O Ritmo Frenético de uma Batalha Coreografada
Se a história nos prende pelo coração, o gameplay de Final Fantasy VII Remake Intergrade nos conquista pelos reflexos e pela inteligência. É, sem medo de errar, um dos sistemas de combate mais refinados que já tive o prazer de experienciar. A Square Enix conseguiu o que parecia impossível: fundir a ação frenética em tempo real com a pausa tática estratégica do sistema ATB clássico. No Xbox Series S, a fluidez dessa transição é uma delícia. Você ataca, esquiva e bloqueia com agilidade, mas o verdadeiro jogo acontece quando a barra se enche e você entra no modo tático, onde o tempo desacelera quase até parar, permitindo que você escolha habilidades, feitiços ou itens com a precisão de um cirurgião.
Cada personagem se joga de uma maneira completamente distinta, o que mantém a experiência fresca do início ao fim. Cloud é o combatente equilibrado, capaz de alternar entre posturas para contra-atacar inimigos com uma força bruta satisfatória. Barret traz o combate à distância, transformando o jogo quase em um shooter de cobertura enquanto despeja chumbo em máquinas da Shinra. Tifa é uma velocista, focada em combos que aumentam o multiplicador de atordoamento dos inimigos, o que é essencial para derrubar os chefes monumentais do jogo. E Aerith, com seu cajado e magias devastadoras, controla o campo de batalha como ninguém. No Series S, a troca entre esses personagens durante a luta é instantânea, permitindo combos que são verdadeiros espetáculos visuais de luz e som.

A adição do Episode INTERmission traz Yuffie Kisaragi para o centro do palco, e ela é simplesmente eletrizante de controlar. Sua habilidade de arremessar a shuriken e usar ninjutsu elemental de longe, ou partir para o combate corpo a corpo em um piscar de olhos, adiciona uma verticalidade e uma velocidade que não víamos no jogo base. A mecânica de sinergia com o parceiro Sonon é a cereja do bolo, permitindo ataques coordenados que são tão visualmente impressionantes quanto mecanicamente gratificantes. Tudo no Series S responde com uma latência mínima, garantindo que você nunca se sinta injustiçado por um erro de comando, mas sim desafiado a dominar um sistema que recompensa a criatividade e o planejamento estratégico em igual medida.
A Alquimia das Esferas de Energia Mako
Entrando nas entranhas das mecânicas, o sistema de Matérias continua sendo a alma de Final Fantasy VII, e aqui ele brilha com um polimento moderno. É uma delícia gerenciar essas pequenas esferas coloridas, decidindo quem será o curador, quem focará em danos elementais e quem terá as habilidades passivas que podem salvar o grupo em um momento de aperto. No Xbox Series S, a navegação pelos menus é ágil, permitindo que as constantes trocas de equipamento e customização de armas não se tornem um fardo, mas uma parte prazerosa da progressão. As melhorias introduzidas na versão Intergrade, como a Matéria de Sinergia retrabalhada, tornam o fluxo de combate ainda mais orgânico e satisfatório.
O jogo também introduz melhorias de qualidade de vida que são muito bem-vindas para quem quer focar na experiência narrativa. Existem agora modos de progressão simplificada que mantêm suas barras de HP, MP e ATB sempre cheias, permitindo que você passe pelos desafios com uma facilidade divina, caso esse seja o seu desejo. Eu, pessoalmente, prefiro o desafio do modo normal, mas entendo e aplaudo a inclusão dessas ferramentas que tornam Midgar um lugar mais acolhedor para todos os tipos de jogadores. Além disso, a inclusão de mini-games como o Fort Condor na DLC de Yuffie mostra que a Square Enix não esqueceu o lado lúdico e leve da série, oferecendo distrações que são profundas o suficiente para prender sua atenção por horas fora da trama principal.

As Invocações também receberam um tratamento de luxo. Ver Ifrit ou Shiva surgindo no campo de batalha, lutando ao seu lado antes de desferirem seus golpes finais cinematográficos, é de uma beleza acachapante. No Series S, esses momentos não sofrem quedas de desempenho, mantendo o espetáculo visual intacto mesmo com a tela cheia de efeitos de partículas e explosões. A mecânica de atordoamento (Stagger) é o coração estratégico do jogo: você precisa descobrir a fraqueza do inimigo, forçá-lo ao limite e então despejar todo o seu poder enquanto ele está vulnerável. É um ciclo de tensão e alívio que nunca cansa, tornando cada encontro, desde o soldado mais simples até o robô mais colossal, uma pequena vitória pessoal.
A Estética de uma Cidade Sob um Céu de Aço
Visualmente, o que a Square Enix realizou no Xbox Series S é, francamente, um milagre de otimização. Midgar é uma cidade de contrastes, e o jogo captura isso com uma fidelidade artística que me deixou em transe. Das luzes de néon vibrantes do Mercado de Paredes às favelas empoeiradas e decadentes do Setor 7, tudo possui uma textura e uma profundidade que fazem o mundo parecer vivido e sofrido. A versão Intergrade trouxe melhorias significativas na iluminação e no nevoeiro volumétrico, e ver esses efeitos rodando no Series S é uma prova de que este console tem muito mais poder do que se costuma creditar a ele. O famoso problema da textura da porta que assolou o lançamento original foi devidamente corrigido, e agora cada superfície parece ter o detalhamento que uma obra dessa magnitude exige.
A direção de arte é soberba, mantendo um equilíbrio perfeito entre o realismo moderno e a estética exagerada e estilosa dos personagens clássicos de Tetsuya Nomura. No Series S, as texturas são surpreendentemente nítidas. A cidade parece vasta, claustrofóbica e majestosa ao mesmo tempo, com a Torre da Shinra sempre ao fundo, lembrando-nos da opressão que rege aquele mundo. É uma experiência visual que não se apóia apenas na contagem de pixels, mas na harmonia entre cores, luzes e sombras que evocam uma melancolia industrial única.

E a música, ah, a música! Nobuo Uematsu, Masashi Hamauzu e Mitsuto Suzuki entregaram o que pode ser a melhor trilha sonora da história dos JRPGs modernos. Os temas clássicos foram rearranjados com uma grandiosidade orquestral que é de arrepiar. O que eu achei mais fascinante foi a natureza dinâmica da trilha: você está explorando com um arranjo suave e, ao entrar em combate, a música transiciona perfeitamente para uma versão mais enérgica e agressiva sem que você perceba a costura. As músicas novas, especialmente as do Episode INTERmission, trazem influências de jazz e eletrônico que dão uma personalidade vibrante à jornada de Yuffie. É um banquete sonoro que, aliado a uma dublagem impecável que dá alma aos personagens, cria uma imersão que poucos jogos conseguem atingir.
O Milagre da Engenharia no Pequeno Gigante
Agora, vamos falar do desempenho técnico, que é onde o Xbox Series S realmente supreende. Jogar Final Fantasy VII Remake Intergrade nesta plataforma é uma experiência de uma fluidez admirável. O jogo oferece dois modos: o Modo Gráfico, que prioriza a fidelidade visual com uma resolução mais alta em 30 quadros por segundo estáveis, e o Modo Performance, que mira nos gloriosos 60 quadros por segundo. Eu passei a maior parte do meu tempo no modo de performance, e a suavidade que ele traz ao combate é transformadora. Embora haja uma leve redução na nitidez da imagem em comparação ao seu irmão maior, o Series X, a qualidade geral permanece altíssima, com uma estabilidade que me impressionou.
O que é verdadeiramente fascinante é como o Series S gerencia seus recursos de memória. Apesar de ter menos RAM que outras plataformas, ele entrega texturas e modelos de personagens que não parecem em nada menores ou pobres. O trabalho de otimização da Square Enix garantiu que o streaming de dados do SSD fosse aproveitado ao máximo, eliminando tempos de carregamento e garantindo que você esteja sempre dentro da ação. As viagens rápidas e a transição entre cutscenes e jogabilidade são praticamente instantâneas, o que ajuda muito a manter o ritmo cinematográfico que o jogo tanto preza.

Comparado a outras versões portáteis ou de hardware menos potente, o Series S se sobressai com uma folga considerável, oferecendo efeitos de luz, sombras e partículas que preservam a integridade da visão original dos desenvolvedores. O console não parece estar fazendo um esforço hercúleo para rodar o jogo; ele o faz com uma elegância que prova sua competência como uma máquina de entrada para a atual geração. É o tipo de desempenho que nos faz esquecer do hardware e focar apenas na obra, o que é o maior elogio que se pode fazer a uma plataforma de jogos.
A Redenção de um Mundo Sob a Luz de um Pequeno Sol
Ao concluir minha jornada por esta Midgar reimaginada no Xbox Series S, o sentimento que fica é de uma satisfação profunda e quase purificadora. Final Fantasy VII Remake Intergrade não é apenas um jogo extraordinário; é uma lição de como respeitar o passado enquanto se constrói um futuro incerto e empolgante. Ele nos entrega personagens que amamos com uma profundidade que nunca imaginamos ser possível, em um mundo que é tão belo quanto terrível. A chegada desse título ao Xbox é um presente para os fãs, oferecendo uma versão que, no Series S, equilibra perfeitamente a acessibilidade com um desempenho que beira o impecável.
Esta review é, no fundo, uma carta de amor a um jogo que não teve medo de se arriscar e a um console que provou ser muito mais capaz do que os cínicos diziam. Se você busca uma experiência que combine drama humano, estratégia inteligente e um espetáculo audiovisual de primeira grandeza, Midgar te espera de braços abertos. Não é apenas sobre destruir reatores ou lutar contra soldados; é sobre descobrir que, mesmo em um mundo coberto por placas de metal e movido por uma energia que nos consome, ainda é possível encontrar flores que insistem em crescer. E no Xbox Series S, essas flores nunca brilharam com tanta intensidade e esperança. É um triunfo absoluto que ficará gravado na memória de quem ousar desafiar o destino ao lado de Cloud e seus amigos.
NOTA
CONSIDERAÇÕES
Final Fantasy VII Remake Intergrade no Xbox Series S é um triunfo técnico acachapante que prova que o console é capaz de sustentar épicos com uma fluidez e detalhamento admiráveis. É uma jornada emocional indispensável que equilibra a reverência ao clássico com uma modernidade visceral, consolidando-se como uma das experiências mais refinadas e necessárias da atual geração.
