Imaginem pegar a Mona Lisa, o Davi de Michelangelo e a Noite Estrelada de Van Gogh, passá-los por um liquidificador industrial e usar a pasta resultante para fazer um cinzeiro. Essa é, em essência, a experiência de jogar Funko Fusion. É um ato de vandalismo cultural disfarçado de videogame, uma celebração que chegou atrasada e com o bolo errado. Pegaram o carisma de Scott Pilgrim, a tensão de O Enigma de Outro Mundo e a aventura de He-Man e os reduziram à mesma expressão facial vazia, ao mesmo corpo genérico, à mesma alma de plástico.
A promessa, vendida por veteranos dos amados jogos LEGO, era um “festival de fandom”, um crossover épico que uniria mundos. Mas o que recebi no meu PlayStation 5 foi menos uma fusão e mais uma aniquilação. O jogo não só falha em capturar a magia das franquias que licencia, como parece ativamente hostil a ela, transformando personagens icónicos em peões sem voz num ciclo interminável de tarefas medíocres. Funko Fusion não é apenas um jogo ruim; é um sintoma de uma cultura que confunde coleção com paixão e reconhecimento de marca com personalidade. É a prova de que nem todas as coisas que amamos devem ser misturadas, especialmente quando o resultado é uma pasta cinzenta, sem sabor e com o formato de um boneco de cabeça quadrada.
O Roteiro que a Estante Esqueceu
A narrativa de Funko Fusion é o que se poderia chamar de “suficiente”. O mascote da marca, Freddy Funko, é atacado pela sua contraparte malévola, Eddy Funko, que rouba uma coroa mágica e começa a corromper mundos de filmes e séries. A sua missão é viajar por estes mundos, consertar as coisas e derrotar o vilão. É um fiapo de enredo, uma desculpa tão fina como papel para justificar o salto entre as diferentes propriedades intelectuais. A ordem pela qual se joga os mundos nem sequer importa, o que sublinha a total irrelevância da história principal.
O verdadeiro problema, no entanto, é mais profundo. Os jogos LEGO funcionam porque, por baixo da sua simplicidade, existe um charme e um humor visual que transcendem a necessidade de diálogos complexos. Os bonecos LEGO, com as suas expressões pintadas e animações cómicas, conseguem transmitir personalidade. Os Funko Pops, por outro lado, são recipientes vazios. Com os seus rostos congelados e a ausência de vozes, substituídas por grunhidos genéricos, os personagens icónicos que controlamos são despojados de toda a sua essência. Vi o Príncipe Adam erguer a sua espada para se tornar He-Man com um olhar completamente indiferente, e foi apenas a explosão triunfante da música tema original que emprestou qualquer tipo de emoção à cena. O jogo não cria os seus próprios momentos de alegria; depende inteiramente da nostalgia que você, o jogador, traz consigo.

Esta desconexão é agravada por uma edição e ritmo narrativo que só posso descrever como caóticos. As cenas de história começam e terminam de forma tão abrupta que parecem interrupções, quebrando qualquer fluxo ou imersão que o jogo consiga construir. É como se estivéssemos a folhear um livro de autocolantes em vez de experienciar uma aventura. A história não é uma fusão de mundos; é uma visita superficial às suas fachadas. O jogo licenciou a aparência da mansão de The Umbrella Academy, por exemplo, mas falhou em capturar a sua alma, resultando em corredores genéricos que poderiam estar em qualquer outro lugar. A narrativa não serve a história; serve apenas como um catálogo interativo de bens licenciados.
Desmontando o Brinquedo
É no ato de jogar que a crise de identidade de Funko Fusion se manifesta de forma mais dolorosa. O jogo é um clone da fórmula LEGO, mas parece ter copiado as respostas do teste sem entender as perguntas. Para o jogador comum, é um exercício de repetição que confunde dificuldade com frustração e quantidade com qualidade. No entanto, é aqui que o jogo revela seu público secreto: o fã dedicado e o colecionador.
Déjà Vu de Plástico
A estrutura é familiar a qualquer um que já tenha tocado num jogo da Traveller’s Tales. Corremos por níveis tridimensionais, destruindo o cenário para coletar a moeda do jogo, aqui, pedaços de vinil em vez de peças LEGO, e combatendo ondas de inimigos. O combate é uma mistura rudimentar de ataques corpo a corpo e tiros em terceira pessoa. Nos primeiros minutos, há uma satisfação visceral em ver as cabeças dos inimigos a saltar. Mas essa satisfação evapora-se rapidamente quando se percebe a falta de profundidade.
O jogo prolonga artificialmente os encontros, atirando hordas intermináveis dos mesmos inimigos contra nós. Pior ainda é uma mecânica bizarra onde certos inimigos se tornam temporariamente imunes a ataques à distância ou corpo a corpo, forçando uma troca de tática que não adiciona estratégia, apenas aborrecimento. O design das missões é ainda mais desinspirado, um ciclo vicioso de missões de escolta, busca de itens e defesa de áreas. Em cada mundo, a mecânica de “crafting” resume-se a encontrar colecionáveis para construir o mesmo tipo de dispositivo genérico, seja uma bateria em Jurassic World ou um gramofone em The Umbrella Academy.

Os confrontos com os bosses são o ponto mais baixo. Todos seguem a mesma fórmula rígida e insatisfatória: atirar em bolhas roxas no corpo do chefe, coletar o líquido que cai, invocar um Funko gigante aliado e depois ser relegado a uma secção de tiro sobre carris enquanto o gigante faz o trabalho sujo. O boss final é um exemplo particularmente ofensivo, uma batalha de desgaste de 45 minutos contra múltiplas formas que termina de forma totalmente anticlimática.
Para os Fãs e Colecionadores
Contudo, seria injusto dizer que não há diversão a ser encontrada. Para um tipo específico de jogador, o fã fervoroso das franquias incluídas ou o colecionador que adora completar tudo a 100%, Funko Fusion oferece um tipo diferente de prazer. O jogo é uma carta de amor visual, repleto de easter eggs e referências que só os verdadeiros aficionados irão reconhecer. Explorar os cenários em busca daquele último colecionável ou desbloquear uma personagem secreta pode ser genuinamente recompensador.
A jogabilidade, embora simplista para veteranos, é acessível e pode ser um passatempo relaxante para jogadores casuais. Há um charme inegável em ver tantos universos distintos colidindo, e a variedade de personagens e mundos é impressionante. Para quem cresceu com He-Man ou adora o humor de Hot Fuzz, simplesmente passear por esses mundos recriados com a estética Funko é, por si só, uma alegria. O jogo não se leva a sério, e seu humor e carisma transparecem, mostrando que foi feito com paixão e um profundo respeito pelo material de origem.
A Trilha Sonora Salva a Estatueta
No PlayStation 5, Funko Fusion é um espetáculo visual. As cores são vibrantes e o estilo de arte é charmoso, prestando uma homenagem fiel ao design icónico dos bonecos Funko Pop!. Os ambientes são detalhados e, em momentos, deslumbrantes, com uma clara dedicação visível no design de cada mundo. A performance é suave e o suporte a HDR dá um brilho extra ao plástico digital, tornando tudo mais vivo. Embora o design funcional dos níveis possa ser confuso, a sua apresentação estética é, sem dúvida, um ponto alto.
Onde o jogo brilha, e brilha intensamente, é no departamento de áudio. A decisão de licenciar as bandas sonoras originais dos filmes e séries foi a melhor que a equipa de desenvolvimento tomou. Ouvir o tema icónico de John Williams enquanto um T-Rex de vinil ruge, ou a banda sonora de rock alternativo de Scott Pilgrim durante um combate, é genuinamente emocionante. A música faz todo o trabalho pesado, evocando a nostalgia e a atmosfera que os visuais e a jogabilidade nem sempre conseguem sustentar. É um sucesso emprestado, uma camada de verniz de alta qualidade sobre madeira podre, mas, ainda assim, um sucesso inegável.
Engasgos na Linha de Produção
Mesmo com o poder do PS5, a experiência de Funko Fusion é marcada por uma falta de polimento. Encontrei uma série de bugs, desde missões que se recusavam a progredir até o jogo simplesmente fechar e me mandar de volta para o menu da consola. Embora atualizações posteriores tenham corrigido alguns dos problemas mais graves, a impressão de um produto apressado permanece.

Mas o erro mais catastrófico, o pecado capital de Funko Fusion, foi a gestão do modo cooperativo. Um jogo deste género, inspirado diretamente numa série cuja identidade está intrinsecamente ligada ao jogo de sofá com amigos e família, foi lançado sem qualquer tipo de modo multijogador. O modo online foi prometido para mais tarde e implementado aos poucos, de forma fragmentada e bizarra. Pior ainda, o modo cooperativo local, o coração e a alma dos jogos LEGO, nunca chegou. Está simplesmente ausente. Lançar o jogo neste estado incompleto foi o prego final no caixão, alienando a base de fãs que poderia tê-lo sustentado e selando o seu destino comercial.
Uma Carta de Amor que se Perdeu no Correio
No final, Funko Fusion é um paradoxo. Para o jogador médio em busca de uma aventura polida e envolvente, é uma decepção, uma colisão desajeitada de ideias, repetitiva e frustrante. É um produto que confunde a representação da cultura pop com a celebração da mesma.
No entanto, para o colecionador, para o fã que tem uma estante cheia de bonecos de cabeça quadrada, o jogo oferece um tipo diferente de valor. É um parque de diversões interativo, um gigantesco diorama digital onde se pode brincar com os seus “brinquedos”. É um jogo feito com um amor evidente pelas franquias que representa, mesmo que a execução tropece. A questão não é se Funko Fusion é um bom jogo, mas sim para quem ele é um bom jogo. E a resposta é um nicho muito específico. Para todos os outros, tal como os bonecos de vinil que o inspiraram, o seu lugar de direito não é na sua consola, mas sim de volta à estante, um monumento silencioso de plástico a uma oportunidade colossalmente desperdiçada.
NOTA
CONSIDERAÇÕES
Funko Fusion é um paradoxo. Para o fã dedicado e colecionador, é um parque de diversões interativo, uma carta de amor às suas franquias favoritas, recheada de referências e embalada por uma trilha sonora fantástica. Para todos os outros, é uma imitação de LEGO repetitiva, frustrante e com uma alarmante falta de polimento técnico e de alma. É um jogo feito com paixão, mas para um público tão específico que se torna uma recomendação difícil para o jogador comum.
