HomeReviewsReview | Jurassic World Evolution 3 (PC)

Review | Jurassic World Evolution 3 (PC)

Entre dinossauros bebês, reprodução natural e micromanagement excessivo, o novo jogo da Frontier entrega o melhor da trilogia — mas ainda tropeça nos mesmos problemas

Eu sempre digo que há certas experiências que, por mais que a gente repita, jamais perdem aquele brilho inicial, aquela capacidade de nos arrancar o fôlego e nos fazer sentir, nem que seja por um segundo, pequenos diante da grandeza da natureza. Desde que Steven Spielberg nos colocou dentro daquele jipe em 1993 e nos fez olhar para cima, para aquele Brachiosaurus desafiando a lógica e o tempo, nós fomos capturados. Fomos capturados pela promessa de que a vida, não importa o quão improvável, encontra um meio. E é com essa bagagem emocional, com essa memória afetiva que eu carrego com tanto carinho e cuidado, que me sentei diante do computador para encarar Jurassic World Evolution 3.

Jurassic World Evolution 3 review

Confesso a vocês que havia um misto de esperança e um ceticismo quase doloroso no meu peito. A franquia Evolution sempre foi, para mim, como aquele relacionamento tempestuoso onde os momentos de beleza avassaladora são pontuados por frustrações cotidianas irritantes. E aqui, nesta terceira iteração, a Frontier promete o mundo: bebês dinossauros, reprodução natural, ferramentas de construção modulares e uma campanha global. Mas a grande pergunta que martelava na minha cabeça era: será que eles entregaram a alma do parque ou apenas mais uma camada de verniz sobre engrenagens enferrujadas? A resposta, meus caros, é tão complexa e fascinante quanto o próprio DNA de um Indominus Rex. O que temos em mãos não é apenas um simulador de zoológico; é uma tentativa ambiciosa, e por vezes tropeçante, de brincar de Deus com um orçamento corporativo. E, jogando exclusivamente na versão de PC, eu mergulhei nessas águas profundas para ver se o reflexo que me encarava de volta era o da maravilha.

O Eco Melancólico de um Mundo Perdido

A narrativa de Jurassic World Evolution 3 tenta, com um esforço que eu classificaria como tocante, mas por vezes desajeitado, costurar os pedaços deixados pelos filmes mais recentes. Não estamos mais confinados a um arquipélago secreto; estamos lidando com um cenário pós-Dominion, onde a vida pré-histórica não é mais um segredo guardado a sete chaves, mas uma realidade global, inconveniente e perigosa. A campanha nos leva a uma verdadeira turnê de contenção de danos, passando por paisagens deslumbrantes nos Açores, a rigidez urbana do Japão e a vastidão poeirenta das Badlands de Montana.

Jurassic World Evolution 3 review

Há momentos de brilho genuíno que merecem ser exaltados. A missão final no Lockwood Estate, por exemplo, tenta evocar aquele terror gótico do segundo filme da nova trilogia, introduzindo o T-Rex com a pompa e a circunstância que a realeza exige. É uma sequência que te deixa na ponta da cadeira, lembrando que esses animais são monstros antes de serem atrações. Mas, veja bem, na maior parte do tempo, a história serve apenas como um pretexto glorificado para te ensinar a usar as mecânicas. E é aqui que a coisa desanda um pouco. Os personagens… ah, os personagens. Cabot Finch retorna, é claro, com aquele cinismo corporativo que, confesso, às vezes me arranca um sorriso de canto de boca, mas que frequentemente soa como um disco riscado de um executivo que não entendeu que o mundo acabou.

O problema central não é a falta de lore ou de conexões com a franquia; é a falta de gravitas. Você está lidando com criaturas que deveriam inspirar um terror reverente, mas os diálogos muitas vezes reduzem tudo a planilhas de lucros e perdas, a uma trivialidade burocrática que chega a ser ofensiva. É de uma frieza que, se por um lado reflete a crítica ao capitalismo desenfreado da saga, por outro, esvazia a experiência emocional do jogador. Eu queria sentir o peso da responsabilidade de trazer uma espécie extinta de volta à vida, mas muitas vezes me senti apenas como um gerente de recursos humanos tentando evitar processos trabalhistas de três facções birrentas: Segurança, Ciência e Entretenimento, que retornam com aquela mecânica de agradar a gregos e troianos que, francamente, já estava datada em 2018.

A Dança Monótona da Papelada

Se a história é um prato morno, o gameplay é uma montanha-russa que alterna vertiginosamente entre o sublime e o enfadonho. A espinha dorsal do jogo continua a mesma: construir cercas, incubar ovos, garantir que os turistas não virem almoço e manter as finanças no azul. Mas Jurassic World Evolution 3 introduz camadas de micromanenciamento que testam a paciência de qualquer santo.

O sistema de cientistas, que foi a ruína da minha sanidade no segundo jogo, está de volta. Embora tenha havido algumas melhorias na qualidade de vida, ainda existe aquela sensação persistente de que você está preenchendo formulários em triplicado para fazer o básico. Você quer chocar um ovo? Contrate um cientista. Quer tratar uma doença? Cientista. Quer pesquisar uma nova cerca elétrica porque o seu Velociraptor decidiu testar as fronteiras da liberdade? Adivinhe: cientista. É uma camada de burocracia que se coloca entre você e os dinossauros, criando uma barreira artificial de dificuldade que não é desafiadora, é apenas tediosa e cansativa.

Jurassic World Evolution 3 review

No entanto, não posso ser injusto ou reducionista. Quando o jogo sai do caminho e te deixa realmente criar, ele brilha intensamente. O novo modo Sandbox, com o Gerador de Ilhas, é um deleite absoluto para quem tem veia de arquiteto. A liberdade de esculpir o terreno, de criar vales e montanhas com as novas ferramentas aprimoradas, é algo que eu esperava há anos e que finalmente foi entregue com competência. É nesses momentos, quando estou posicionando uma cachoeira estrategicamente para criar a vista perfeita para o meu hotel de luxo, que eu me lembro por que insisto nessa franquia e por que ela ainda tem um lugar especial no meu coração.

Quando a Ternura Supera a Técnica

Aqui está o coração pulsante, o verdadeiro milagre de Jurassic World Evolution 3: a reprodução. Pela primeira vez na série, não estamos apenas imprimindo monstros adultos em laboratórios estéreis como se fossem produtos de uma linha de montagem. Temos machos, fêmeas e, o mais importante, filhotes. Ver um pequeno Triceratops dar os primeiros passos trôpegos ao lado da mãe é de uma ternura que me desarmou completamente. É um golpe baixo, eu sei, apelar para a fofura, mas funciona de maneira acachapante. A Frontier finalmente entendeu que esses animais não são apenas ativos de parque; são famílias.

Jurassic World Evolution 3 review

A mecânica de reprodução adiciona uma nova e bem-vinda dimensão ao gerenciamento. Você precisa criar ninhos, respeitar as dinâmicas sociais e garantir que o ambiente seja propício para o acasalamento. Não é mais apenas jogar um monte de bichos num cercado e esperar o melhor. Se você não cuidar, a população explode ou definha. E ver as interações sociais, os pequenos gestos de carinho ou de proteção entre pais e filhos, traz uma camada de humanidade a esses répteis que faltava desesperadamente nos títulos anteriores. É impossível não se afeiçoar, não criar vínculos.

Porém, nem tudo são flores no Cretáceo. A inteligência artificial, embora melhorada, ainda tem seus momentos de lobotomia que me deixaram frustrado. Os dinossauros às vezes ficam parados, olhando para o nada, como robôs que perderam o sinal do wi-fi, quebrando aquela imersão que o jogo luta tanto para construir. E as mecânicas de caça, embora mais dinâmicas e viscerais, ainda sofrem com animações repetitivas que transformam a luta pela sobrevivência em uma dança coreografada e previsível. Outro ponto que merece destaque é a construção modular. A influência de Planet Zoo é clara e muitíssimo bem-vinda. Poder customizar os edifícios, criar áreas de convívio para os visitantes que não parecem caixotes genéricos, dá uma personalidade ao parque que antes era impossível. Mas, cuidado: essa complexidade cobra seu preço.

Uma Sinfonia para os Sentidos

Visualmente, o jogo é de cair o queixo, uma verdadeira obra de arte digital. A Frontier sabe fazer jogos bonitos, e JWE3 não é exceção; é a regra elevada à máxima potência. As texturas das peles dos dinossauros são palpáveis, o jogo de luz e sombra nas florestas tropicais cria atmosferas densas e misteriosas, e a maneira como a chuva escorre pelo flanco de um T-Rex é de uma competência técnica atroz. O suporte a HDR faz as cores saltarem da tela, tornando cada amanhecer no parque um evento em si, algo para se parar e admirar.

Jurassic World Evolution 3 review

No departamento sonoro, temos um triunfo absoluto. A trilha sonora, que conta com o retorno do talentosíssimo Jeremiah Pena e a adição de Marcus Hedges (que fez um trabalho soberbo no trailer de lançamento), é evocativa, grandiosa e profundamente respeitosa com o legado imortal de John Williams. Ela sabe quando ser estrondosa e quando recuar para deixar os sons da natureza falarem. E ouvir a voz de Jeff Goldblum, com suas pausas características, seus suspiros e entonações idiossincráticas, é sempre um prazer inenarrável, mesmo que o texto que ele lê não esteja à altura da sua performance magnética.

O Teste de Fogo do Hardware

Agora, vamos falar de números e realidade, porque nem só de poesia vive o gestor de parque. Testei o jogo na minha configuração pessoal: um processador Ryzen 7 5700X, uma placa de vídeo RTX 4060 e 32GB de RAM. É uma máquina intermediária robusta, capaz de encarar a maioria dos desafios modernos em 1080p, e eu esperava um desempenho condizente.

A boa notícia é que, na maior parte do tempo, o jogo roda liso, como uma seda. A Cobra Engine, motor gráfico proprietário da Frontier, é bem otimizada para o que se propõe. Em parques de tamanho médio, consegui manter uma taxa de quadros estável, acima dos 60 FPS, com as configurações no alto e ultra. O detalhamento dos dinossauros não sofreu, e a fluidez das animações se manteve, preservando a imersão.

Jurassic World Evolution 3 review

A má notícia chega quando a ambição cresce, e ela cresce rápido. Em parques muito grandes, com centenas de dinossauros e milhares de visitantes zanzando pelas alamedas, o gargalo começa a aparecer de forma notável. Não é injogável, longe disso, mas há quedas perceptíveis de performance, especialmente quando se usa o zoom para observar detalhes ou durante tempestades com muitos efeitos de partículas. Percebi também que o momento de colocar edifícios no mapa pode causar engasgos momentâneos, soluços que parecem ser um problema de otimização da engine ao recalcular a navegação da inteligência artificial em tempo real, algo que quebra o ritmo da construção.

O Veredito de um Fã Apaixonado

Ao fechar Jurassic World Evolution 3, o sentimento que fica é agridoce, como o final de um bom filme que poderia ter sido excelente. É, sem dúvida alguma, o melhor jogo da trilogia. A inclusão dos filhotes, a profundidade da customização e a beleza estonteante dos animais são conquistas que merecem ser celebradas de pé. A Frontier entregou, em muitos aspectos, o jogo que os fãs pediam e sonhavam há anos.

Mas não posso deixar de sentir que, por baixo dessa pele escamosa e belíssima, bate um coração burocrático que insiste em atrapalhar a diversão. O excesso de micromanagement, a insistência em mecânicas de clicar e esperar e uma campanha que muitas vezes parece um tutorial glorificado e sem alma impedem que o jogo atinja a transcendência que o material original promete. É um jogo que te dá as ferramentas para criar o paraíso, mas te obriga a preencher a papelada do inferno para chegar lá.

Jurassic World Evolution 3 review

Vale a pena? Se você, como eu, sente um arrepio na espinha ao ouvir o rugido de um T-Rex e se emociona com a simples ideia de ver essas criaturas caminhando novamente, a resposta é um sim ressonante. Mas vá preparado para exercer a paciência tanto quanto a criatividade. É uma obra de amor e técnica, manchada pela repetição, mas salva, no último segundo, pela pura e simples majestade da vida encontrando, mais uma vez, um meio de nos encantar.

NOTA

8.0
★★★★★★★★★★

CONSIDERAÇÕES

Jurassic World Evolution 3 é, sem dúvida, o ápice técnico da franquia e um deleite visual que honra o legado de Spielberg e a trilha de Jeremiah Pena. A introdução dos filhotes e da reprodução natural é um "golpe baixo" de ternura que finalmente traz a alma que faltava aos parques, transformando ativos biológicos em famílias reais. É um título extraordinário em sua capacidade de gerar maravilhamento, mas que ainda se deixa prender por uma burocracia de gestão e um excesso de micromanagement que podem ser, por vezes, exaustivos para quem só queria contemplar a majestade da vida. No PC, o desempenho é sólido e fluido, embora a Cobra Engine ainda mostre sinais de cansaço quando a ambição do arquiteto supera os limites do hardware em parques monumentais. No fim, é uma experiência obrigatória, mas que exige do jogador a paciência de um monge para lidar com a papelada antes de poder, enfim, brincar de Deus.

Gustavo Feltes
Gustavo Feltes
Eu amo jogar, jogar é uma parte de mim. Cada história, momento, universo e gameplay me encantam. Eu não tenho restrições de jogos, cada célula do meu corpo clama por isso.
ARTIGOS RELACIONADOS

Deixe uma resposta

Por favor, coloque seu comentario!
Por favor coloque seu nome aqui

Mais Populares

COMENTARIOS RECENTES

Jurassic World Evolution 3 é, sem dúvida, o ápice técnico da franquia e um deleite visual que honra o legado de Spielberg e a trilha de Jeremiah Pena. A introdução dos filhotes e da reprodução natural é um "golpe baixo" de ternura que finalmente traz a alma que faltava aos parques, transformando ativos biológicos em famílias reais. É um título extraordinário em sua capacidade de gerar maravilhamento, mas que ainda se deixa prender por uma burocracia de gestão e um excesso de micromanagement que podem ser, por vezes, exaustivos para quem só queria contemplar a majestade da vida. No PC, o desempenho é sólido e fluido, embora a Cobra Engine ainda mostre sinais de cansaço quando a ambição do arquiteto supera os limites do hardware em parques monumentais. No fim, é uma experiência obrigatória, mas que exige do jogador a paciência de um monge para lidar com a papelada antes de poder, enfim, brincar de Deus.Review | Jurassic World Evolution 3 (PC)