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Granblue Fantasy: Relink Endless Ragnarok faz do caos um novo horizonte | Review (PS5)

Um retorno grandioso aos céus de Zegagrande, sustentado por combates excepcionais, novas camadas de progressão e uma narrativa que nem sempre acompanha a força de suas batalhas.

Por Gustavo Feltes30 de julho de 202610 min de leitura0 comentários
Granblue Fantasy: Relink Endless Ragnarok faz do caos um novo horizonte | Review (PS5)

Voltar ao Grandcypher não me trouxe apenas o conforto de reencontrar um lugar conhecido. Endless Ragnarok prefere receber de volta quem já atravessou Zegagrande com uma ameaça espalhada pelas frestas deixadas depois da vitória. O céu continua azul, os personagens continuam exuberantes e a aventura ainda carrega a leveza de quem acredita que coragem pode resolver qualquer catástrofe. Mesmo assim, agora há algo mais agressivo por baixo dessa beleza. Cada portal, criatura e batalha parece dizer que o jogo base era apenas o preparo para um espetáculo muito mais cruel.

Granblue Fantasy: Relink - Endless Ragnarok review

A expansão não tenta desmontar Granblue Fantasy: Relink para reconstruir o jogo como outra coisa. Ela olha para o combate, para a progressão e para o prazer de repetir confrontos difíceis, reconhece onde o jogo sempre foi mais forte e aumenta tudo até quase perder o controle. Endless Ragnarok é excessivo, barulhento e frequentemente deslumbrante. Também é repetitivo, desigual e menos interessado em narrativa do que sua apresentação sugere. Eu me diverti muito porque ele entende a alegria física de controlar um personagem poderoso, mas senti falta de uma aventura capaz de dar ao novo apocalipse o peso emocional que ele promete.

O apocalipse em fragmentos

A história começa depois da derrota de Lilith, quando Zegagrande deveria finalmente respirar. Em vez disso, surgem os ragnalia, criaturas associadas ao fim dos tempos, enquanto portais misteriosos conduzem guerreiros a regiões dominadas pelo caos. A presença de Beelzebub amplia a ameaça e dá ao novo capítulo uma escala quase mitológica. O problema é que a narrativa raramente encontra uma forma dramática de sustentar essa escala.

Eu gostei da ideia de um mundo salvo que descobre não ter sido realmente curado. Há uma melancolia interessante na noção de que toda vitória deixa resíduos. Endless Ragnarok poderia usar isso para aproximar a tripulação e explorar o cansaço de quem já impediu uma catástrofe. Em alguns momentos, essa possibilidade aparece. Logo depois, ela é interrompida por uma nova missão, um novo chefe ou outra etapa de progressão.

Granblue Fantasy: Relink - Endless Ragnarok review

A campanha avança principalmente por confrontos selecionados em menus, intercalados por cenas curtas. Isso reduz o senso de jornada. Eu não senti que estava atravessando novas terras ou descobrindo uma região ameaçada. Senti que cumpria uma sequência de testes grandiosos ligados por fragmentos narrativos. A tripulação principal também passa tempo demais na periferia do conflito. Os novos personagens possuem carisma, mas a expansão frequentemente os apresenta como peças de um sistema antes de tratar esses personagens como pessoas.

Ainda assim, a história cumpre uma função importante ao justificar o aumento de dificuldade e dar identidade aos chefes mais marcantes. O desfecho tem presença e uma encenação digna do nome Ragnarok. Apenas lamento que o caminho até ele seja mais próximo de uma coleção de vinhetas do que de uma aventura completa. A ameaça anuncia o fim do mundo, mas o roteiro às vezes parece interessado apenas no próximo combate.

Combater ainda é vo  ar

Quando a batalha começa, quase todas as minhas reservas perdem força. O combate de Relink continua sendo uma combinação rara de velocidade, resposta e espetáculo. Os ataques têm impacto, a esquiva é precisa e cada habilidade produz a sensação de interferir de verdade no ritmo da luta. Mesmo cercado por efeitos, números e criaturas enormes, eu nunca me senti completamente desconectado do personagem que controlava.

Endless Ragnarok entende que essa base não precisava ser substituída. Ela precisava de inimigos capazes de exigir mais. A nova dificuldade Caos oferece confrontos em que posicionamento, leitura de animações e domínio do personagem importam tanto quanto o poder acumulado no equipamento. Alguns chefes punem ganância, outros cobrem a arena com áreas de perigo e vários obrigam a reconhecer o instante exato de atacar, recuar ou guardar uma habilidade.

Granblue Fantasy: Relink - Endless Ragnarok review

Esse aumento de pressão torna as vitórias mais satisfatórias. Eu gosto quando um RPG de ação respeita a progressão numérica sem permitir que ela jogue no meu lugar. Um grupo bem preparado facilita a batalha, mas não corrige decisões ruins. Quando perdi, quase sempre consegui identificar o erro. Quando venci no limite, senti que a vitória pertencia à minha execução, não apenas ao valor exibido na tela de atributos.

Os seis novos personagens renovam o contato com o sistema. Beatrix recompensa agressividade e atenção ao ritmo. Eustace muda a leitura de distância. Gallanza é pesado, brutal e delicioso quando seus golpes encontram o alvo. Maglielle domina espaços com lâminas, Fraux trabalha com mobilidade e posturas, enquanto Fediel traz uma presença poderosa e estranha. Nem todos me conquistaram da mesma forma, mas cada um possui personalidade mecânica suficiente para justificar horas de aprendizado.

Poder demais, propósito de menos

A maior novidade são as Invocações. Durante o combate, eu posso equipar criaturas com características próprias, preencher o recurso necessário e assumir temporariamente seu controle. O resultado não é apenas uma explosão visual. A invulnerabilidade concedida durante a ativação permite usar a Invocação como resposta a ataques perigosos, transformando um recurso ofensivo em ferramenta defensiva. Gastar tudo para acelerar dano pode deixar o grupo sem uma saída segura no momento seguinte.

Os Primal Bursts levam essa ideia ao exagero correto. Quando as condições são atendidas e o grupo coordena suas Artes Celestes, criaturas como Proto Bahamut e Excavallion entram em cena com uma força que parece rasgar a batalha ao meio. É um recurso espetacular, mas não vazio. Ele recompensa coordenação e cria picos de intensidade que combinam perfeitamente com Granblue.

As Master Traits aprofundam a progressão de personagens que já haviam chegado ao nível máximo. Elas permitem orientar funções e reforçar comportamentos específicos. Eu pude tornar um personagem mais agressivo, mais útil ao grupo ou mais resistente, escolhendo benefícios que conversam com sua forma de lutar. Gostei da liberdade, principalmente porque ela me deu um motivo real para revisitar integrantes da equipe que eu havia abandonado.

Granblue Fantasy: Relink - Endless Ragnarok review

Ao mesmo tempo, o sistema aumenta a quantidade de materiais, menus e decisões acumuladas. Endless Ragnarok sabe transformar crescimento em recompensa, mas também transforma recompensa em rotina. Em certos momentos, eu estava mais atento ao próximo recurso necessário do que ao sentido da missão recém concluída. Para quem aprecia combinações e aperfeiçoamento, isso é quase irresistível. Para quem esperava exploração e descoberta, o excesso de progressão pode soar como trabalho disfarçado de aventura.

A Confluência sintetiza essa contradição. O modo solo organiza salas curtas, desafios aleatórios, caminhos alternativos e melhorias temporárias escolhidas durante cada tentativa. Há combates e pequenas atividades que evitam uma sequência completamente uniforme. Nas primeiras incursões, eu me senti estimulado a adaptar a equipe e aceitar riscos maiores por recompensas melhores.

Com o tempo, cenários, inimigos e objetivos começam a se repetir, e a imprevisibilidade perde parte do encanto. O modo continua útil para obter materiais e testar personagens, mas deixa de surpreender com a mesma frequência. Ainda assim, eu me vi retornando. A Confluência não possui a inventividade dos melhores roguelites, porém se apoia em um combate tão bom que até a repetição permanece prazerosa por bastante tempo.

Um fim do mundo luminoso

A direção artística continua sendo uma das maiores virtudes de Relink. O mundo parece uma ilustração de fantasia colocada em movimento, com cores intensas, contornos suaves e personagens expressivos. Endless Ragnarok aproveita essa identidade para criar chefes enormes e ataques que ocupam a tela com luz, energia e ameaça.

Há momentos em que o espetáculo chega perto do excesso. Quatro personagens atacando, uma Invocação surgindo, números aparecendo e áreas de perigo cobrindo o chão podem tornar a leitura confusa. As opções de visibilidade permitem reduzir efeitos dos aliados e esconder parte das informações. Depois desses ajustes, consegui apreciar melhor a beleza sem sacrificar a compreensão.

Os confrontos mais importantes possuem presença visual suficiente para marcar a expansão. Já os inimigos reaproveitados, mesmo quando recebem alterações, denunciam uma dependência considerável do material anterior. Isso não destruiu meu interesse, porque novos padrões mudam a maneira de enfrentar esses inimigos, mas enfraquece a sensação de estar diante de um capítulo realmente inédito.

Granblue Fantasy: Relink - Endless Ragnarok review

A trilha sonora acompanha bem a mistura de aventura luminosa e ameaça apocalíptica. As composições crescem durante os chefes, sustentam a urgência e sabem quando recuar para que golpes e vozes dominem a cena. O elenco continua comunicativo durante as batalhas, embora a repetição de falas se torne perceptível em sessões longas. Mesmo assim, imagem e som fazem cada confronto importante parecer maior do que a arena onde acontece.

O caos permanece fluido

No PS5, escolhi o modo desempenho porque o combate pede resposta imediata. A experiência se mantém próxima de 60 quadros por segundo e preserva a fluidez mesmo quando a tela está tomada por efeitos. Essa estabilidade faz diferença em esquivas, sequências precisas e confrontos nos quais uma fração de segundo decide se o personagem continua de pé.

O preço aparece na imagem. Em televisores maiores, o modo desempenho pode parecer suave demais, principalmente durante movimentos rápidos ou em ambientes detalhados. O modo qualidade oferece uma apresentação mais nítida, mas os 30 quadros por segundo retiram parte da agilidade que considero fundamental. Entre beleza e resposta, preferi resposta sem hesitar.

Os carregamentos são rápidos o bastante para não quebrar o ritmo entre missões, e não encontrei problemas graves que comprometessem a campanha. A interface continua carregada, mas as novas opções de legibilidade ajudam muito. Reduzir números de dano e efeitos de aliados é uma melhoria prática para um jogo que frequentemente coloca quatro personagens, um chefe gigantesco e várias ameaças na mesma tela.

Quando repetir ainda vale a pena

Endless Ragnarok não é a continuação narrativa que eu gostaria de ter recebido. Sua história promete uma catástrofe grandiosa, mas entrega boa parte dela em fragmentos, menus e confrontos. A ausência de novas áreas realmente exploráveis e o uso frequente de inimigos conhecidos impedem que a expansão tenha o frescor de uma jornada inteiramente nova.

Mesmo assim, eu seria injusto ao tratar essas limitações como fracasso. O centro de Granblue Fantasy: Relink sempre foi o instante em que uma equipe encontra uma criatura impossível e transforma o caos em coreografia. Endless Ragnarok compreende esse instante com precisão impressionante. As Invocações ampliam o espetáculo sem eliminar estratégia, as Master Traits devolvem sentido à progressão e os novos personagens abrem caminhos que eu ainda queria explorar depois de muitas horas.

O resultado é uma expansão construída para quem encontra prazer em dominar, repetir e aperfeiçoar. Ela não converte Relink em outro tipo de RPG, nem tenta esconder sua dependência do pós jogo. Quando a repetição pesa, a narrativa não consegue sustentar esse peso. Quando o combate encaixa, porém, poucos RPGs de ação oferecem uma sensação tão limpa de poder, velocidade e controle.

Terminei com a impressão de que o verdadeiro Ragnarok não está na ameaça que paira sobre Zegagrande, mas na recusa do jogo em aceitar um ponto final. Endless Ragnarok olha para um sistema que já funcionava e encontra novas maneiras de levar esse sistema ao limite. Nem tudo sobrevive a esse excesso, mas o que permanece é excepcional. Eu voltei aos céus esperando uma despedida maior e encontrei algo diferente: uma razão convincente para continuar lutando depois que a aventura já deveria ter acabado.

Nota The Outpost
8/10
Excelente
Veredito editorial

Consideração final

Endless Ragnarok amplia com inteligência o melhor combate de Granblue Fantasy: Relink, oferecendo progressão profunda e desafios memoráveis, embora sua narrativa fragmentada e a repetição impeçam a expansão de alcançar a mesma grandeza que suas batalhas.

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Gustavo Feltes

Redator do The Outpost Brasil

Meu nome é Gustavo Feltes e sou apaixonado por videogames. Desde cedo, os jogos fazem parte da minha vida e sempre foram muito mais do que apenas uma forma de entretenimento para mim. O que mais me fascina nos videogames é a capacidade que eles têm de criar universos únicos e contar histórias envolventes. Cada jogo representa uma nova experiência: mundos para explorar, personagens para conhecer e desafios que despertam curiosidade e emoção. Ao longo dos anos, essa paixão cresceu e se tornou parte importante de quem eu sou. Jogar, descobrir novos títulos e acompanhar a evolução da indústria dos games se transformou em algo natural no meu dia a dia. Hoje continuo explorando diferentes estilos de jogos, sempre interessado em novas experiências e em tudo o que esse universo pode oferecer. Para mim, os videogames são uma das formas mais ricas de entretenimento e expressão criativa da atualidade.

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